Visitas

Se não te abraço
Entenda que é timidez
O que ainda me faz viver

Mas, se quiseres
Tomar a iniciativa
Sê gentil

E não me interrompas
Nenhum sonho
Deixa que eles terminem

E, sobretudo
Não me deixes acordar...

Ah, posto que não me queres
Não me espanta
O desencanto
Com que te beijo
Em outros cantos
De boca
E que censuras enciumada
Por outros cantos
De olho

Aposto que me queres
Sozinho enquanto ris
De mim ao lado de teus
Amores infantis
E falsos prazeres
Que ainda assim
Queria-os meus

Suposto encontro
De almas
Que se sabem
Mas não podem
Ou não querem...


Fica, pois, musa
Como guardiã fiel
Do que escrevo
Sobre ti, por tua causa
Ou outrem que me apontes

Que sejam minhas mentiras
Seladas em teu peito
E deixa as verdades tolas
Enganarem a quantos permitirem

E se alguém as quiser roubar
Ou ler - posto que é coisa mesma
Pede que te mostre a chave
Que abre
A porta da minha alma

E se não for amor
Aquilo com que nos amamos
E se for amor
Aquilo que não dizemos
E se for dor
Aquilo em que nos deitamos
E se não for dor
Aquilo com que nos machucamos
E se nunca mais rimarmos
Amor com...
Você sabe

Deixei que entrasses
Mas querias a chave
Do submundo
Da escuridão
Que nem a mim me pertence

Não a tinha
Ma tomaste
E foste
Assim mesmo
Sem lanterna, pista
Mapa, guia
E encontraste

E destruíste com as próprias mãos
O que restava
Oculto nas trevas
De sentimentos virgens
De sonhos ainda por nascer
Apenas para me beijar
E me deixar
Manchado do sangue
De que te banhaste

Teus lábios
Ainda mais vermelhos
Nos espelhos
Partidos
Dos teus olhos

Um tão sisudo
Cheio de ângulos
Retos, decretos
I
  n
     f l e
        x í
            v e l

A outra tão sinuosa
Cheia de curvas
Arcos, arabescos
Barroca
R o
    c o
       c ó

Juntaram-se em paralelo
Improvável
À dobra do sino
Mas jamais
Se encontraram
Nem sequer
- e queriam -
Num ponto tangente
 Foto: António Corvo
Tua frieza brutal
Te guardou de cada verso
Meu, arterial
Te protegeu dos estilhaços
De rimas nascidas
Do mais abissal
Arrependimento

Tua arrogância desprezível
Ou vice-verso
Poupou-te do fel e da vingança
Que só um coração ferido
Tem permissão de destilar

E toda essa fortaleza
Que te cobre de impunidade
Não te impediu de te cortares
Me contaram
Na folha de papel
Na qual meus restos
Te enderecei

Bem feito!