Visitas

Porquanto tenha morrido a alma
Salgada do faroleiro
Apagou-se para sempre a luz
E abandonou-se à sorte
O farol
Que enferruja e tomba
E sepulta-lhe o corpo
Preservado pelo sal
Desenganado pelo sinal
Da embarcação
Em que não estás
E que jamais virá

Ironia de maré:
Escuro e apodrecido
Ainda assim é referência
E aviso de perigo...

Sou de palha
Espantalho
Pego fogo ligeiro
Não sobra nada
Nem fumaça
Nem o cheiro
Brinca de amor
Filho da puta
Pra ver se não te queimo inteiro

Os caminhos que não quiseste
Tomar nas bifurcações
Ou que não pudeste
Seguir por causa dos nãos
Veja, todos eles, como o teu
Terminam no céu...

No dia mais esperado
Quando tudo estiver equilibrado
E eu, de certo, morto
Toda página há de ser alva
Estarei livre das letras
E elas
De mim

Feche a janela, homi
Que ficou desde onti aberta
Pra mode o amor entrar
O amor entra por onde quer
Entra por onde der
Se é que ela vai entrar

Pela janela avoa a cortina
Que o vento assopra ligeiro
Leva também a menina
Que por ela viu o mundo inteiro

Mas, visse, carece de fechá-la, não
Se o vento avoar a menina
Voa e cai na minha mão

Diariamente é-me servido
Em prato de cerâmica
Fria e rachada
Um coração que bate
Cansado, pesado
Triste

É meu café da manhã
Meu almoço e jantar
E não me desce, entala
É duro, cru
Sem gosto nem sal

Mas não me posso negá-lo
É preciso devorá-lo
Ou meu peito
Seu lugar de direito
Ficará vago
Vazio

Como eu
Faminto