Visitas

Tenho coleira
Com meu nome
Não o seu...

Gato preto, sexta-feira
A lua sobe, ele some
Azar de quem perdeu...

E vais por aquela estrada?
Vou sim
Sem saber o que há depois daquela curva?
Ah, mas eu sei o que há depois daquela curva
Só há nuvens
E as tempestades que elas fazem
E vais assim mesmo?
Vou por isso mesmo...

De todos os saques
- cruéis ataques -
Da vida bandoleira
Que assalta na estrada
- já sem rumo, picada -
O pior foi o furto
Do nome e do rosto
- para sempre nunca mais -
Do meu primeiro amor
De que restou apenas
A lembrança do sentimento
Um fantasma a que se se acostuma
Uma bruma

Melhor fosse não ter amado
Nem pela primeira
Quanto mais pela última
- Vês? -
O amor é uma armadilha
Maldição de deuses - cães
Que se alimentam
- e se divertem -
Com nossos retalhos
E corações
Escorrendo pelos lábios

Um amor não correspondido...
Um há de perfurar-lhes
A garganta
Na santa paz
De uma vingança...

Era uma folha seca
Âmbar, cor de laranja
Ou de abóbora
Palheta outonal
Que o galho misturou
Pincel de madeira
Cerdas incertas
De pelo menos
A certeza do tom

Pendurada preguiçosa
Teimosa e frágil, delicada
A última da estação
Tão só e decidida a ficar só
Esperando talvez o inverno
O sopro frio e gelado
Do Norte, da Morte
Ou o tempo
Que o fio da vida corta
E que a tudo tomba
Porque tudo cai, e se vai
E se esvai

Até que o inverno chegou
Cobrindo de branco e de neve
De frio e silêncio
Tão gentil, tão sutil
O que o outono secara
E para ele deixara
Bem mais simples e leve

Menos a folhinha cor de laranja
Ou de abóbora, âmbar
Quem pode saber de cor?
A quem o inverno avistou
Ali pendurada, no galho
Que não a soltava
Sequer balançava

O inverno encantou-se
Com a coragem da folha
Que tão seca e pequena
Até quebradiça
Desafiava o outono
E ao mesmo tempo o inverno
Aquele sem poder ir-se embora
Este, chegar não iria
Enquanto a folhinha
Não aprendesse a voar
Por si mesmo, sozinha

E o encantamento virou paixão
E isto durou um mês
E a paixão transformou-se em amor
E isto durou mais um mês
E o amor impediu que o inverno chegasse
E a tudo de branco pintasse
E a todo falar silenciasse
E isto durou mais um mês
E agora eram três

E tanto amor inspirou-lhe um beijo
A ser dado com todo carinho
Na resiliente folhinha
Que ao recebê-lo
Deixou-se cair em seus braços
Mas de tão seca esfarelou-se na queda
Deixando o inverno mais triste
Deixando tudo mais triste

Foi o que a primavera me disse
E não chegou a sabê-lo o verão

Painel de cortiça
Memórias sensoriais
Geografias e calendários
Confundem-se nomes e marcas
Brasa, pirografia

A cada garrafa vazia
Espocavam sorrisos
Lágrimas em hidromassagem
Enlutadas alegrias
Silêncios aromáticos
Solidão alcoólica

O fígado resistiu bem
A todos esses anos
Foi o coração
Que morreu de cirrose


O limite é uma arma
Uma droga qualquer
Que me quebre
Me destrua a carne

É esse fundo de poço
Onde sempre posso
Ir mais abaixo, a fundo
Repouso lodoso

O limite é a pele rasgada
Que se mancha de sangue
Da artéria rompida
Em pulsos, nada

É a lâmina de dois gumes
E um único fim
O limite é esse ponto
Final que não descrevo

Mas como não pontuo a poesia
Segue o poema

Não trespasso o limite
Eu o abraço
Desembaraço
[Passo mal dado]
O equívoco da vida
Traço grosseiro
Garatuja
Garrancho
Carranca

O limite é a linha
Que a minha ortografia
Desrespeita
E onde se deita
O final desejado