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Diariamente é-me servido
Em prato de cerâmica
Fria e rachada
Um coração que bate
Cansado, pesado
Triste

É meu café da manhã
Meu almoço e jantar
E não me desce, entala
É duro, cru
Sem gosto nem sal

Mas não me posso negá-lo
É preciso devorá-lo
Ou meu peito
Seu lugar de direito
Ficará vago
Vazio

Como eu
Faminto

O amor é como a morte
Chega esmurrando
No rosto, à traição
E não adianta dizer não

Gosta da noite, da madrugada:
Toca a campainha, telefona
É saudade
Ou é velório?

Morre-se de amor
Ama-se até a morte
Não é o amor a morte da razão?
E o que será, do amor, a morte?

Tem o gosto
Do beijo dos amantes
Gosto de rosas
Que jazem nos buquês
Que dão vida ao enterro

Há uma lâmina fria
Que me percorre
Em busca da sangria
Que pressiona a pele
Onde ela é mais fina
Pressionando o fio
Que marca
E só não corta...

Esse gume não o pus
Sobre meus poros
Não sou eu quem o move
Não sou eu minha a ameaça
Meu desafio
Meu cansaço
Minha desistência
Minha resistência

Contudo serei eu
Quem fará o corte
Quando chegar a hora
De me esvaziar de tudo
E me encher de paz
Aliviado da vida
Ela, antes da própria espada
De prata
Quem primeiro me cortou

Deixe que a noite engula
Com todo o silêncio
O que se retorce em negritude
Dentro da imensidão
Pútrida de meu coração
Já desistente pelo cansaço
E pelo mormaço
Em que se tornou a vida
Adormecida
No colo de sonhos mornos
E infames de amores
Sonolentos e preguiçosos

Que me trague o breu
E me traga o seu
Pesar
Pois é mentira
Que tudo há de passar...

Se não te abraço
Entenda que é timidez
O que ainda me faz viver

Mas, se quiseres
Tomar a iniciativa
Sê gentil

E não me interrompas
Nenhum sonho
Deixa que eles terminem

E, sobretudo
Não me deixes acordar...

Ah, posto que não me queres
Não me espanta
O desencanto
Com que te beijo
Em outros cantos
De boca
E que censuras enciumada
Por outros cantos
De olho

Aposto que me queres
Sozinho enquanto ris
De mim ao lado de teus
Amores infantis
E falsos prazeres
Que ainda assim
Queria-os meus

Suposto encontro
De almas
Que se sabem
Mas não podem
Ou não querem...


Fica, pois, musa
Como guardiã fiel
Do que escrevo
Sobre ti, por tua causa
Ou outrem que me apontes

Que sejam minhas mentiras
Seladas em teu peito
E deixa as verdades tolas
Enganarem a quantos permitirem

E se alguém as quiser roubar
Ou ler - posto que é coisa mesma
Pede que te mostre a chave
Que abre
A porta da minha alma