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Dói ser a maldição
De ser o que sou
Doeria muito mais
Não ser aquilo
Que a mim se destinou

O remédio acabou-se há tempos
A receita ficou retida
Teu rosto apagou-se há tempos
Atrás de uma tarja preta

A doença é crônica
O destino, irônico
Maldito por não te ter
Maldito por te ter tido

Se o amor é imortal
Amarei-te morto
Até o final

Da noite pro dia
À luz que é nascente e ocaso
A árvore ganhou companhia
Plantaram-lhe ao lado
Alto, imponente um poste
De ferro fundido e cristal

A árvore dava-lhe sombra
E o poste, à arvore, luz
E se complementavam
Assim, meio barroco
Sombra a quem ilumina
Luz a quem penumbra

E o tempo passou
E a árvore não se podou
E tanto que um ao outro amou
Que os galhos se retorceram
E abraçaram pra sempre
O poste que se plantou
Ao lado daquela
Que agora
À noite
Se iluminou

Ah, meu sonho em vida
Como me aflige estar
Ao lado teu e não poderes
Escutar-me dizer "te amo"...

Não mais me vês
Nem me sorris
O tanto que eu te vejo
E te sorrio do além, de nós...

Meus braços te perpassam
Meu pranto, um sussuro
Que confundes ser
O ventou ou... uma amante, outra

Mas olha a noite, mensagem...
As estrelas são as pausas
A luta
O ponto final

Da historia sombria
Que nunca acabou


I

Enquanto reinas
E teimas
Em não quereres
O reino meu
Fica a coroa em suspenso
E cheia a masmorra
Dos horrores
De amores destronados

II

À fonte toda vontade
Ao poço todo desejo
Ao mar a desventura
De viver
A tua secura


Há um dia entre todos
Que foram, são e serão negros
Um dia que a maldição não viu
Descuidou-se e deixou à luz
Que me permitirá sorrir
Quando a morte vier terminar
Sua diária infâmia feliz
De aos poucos me retalhar

Um único instante
Um momento
Um triz
Em que, talvez até sem querer
Eu tenha feito
Você também sorrir

Quando tudo for escuridão
Quando a esperança morrer
Quando as portas do inferno
Fecharem-se atrás de mm
Quando cada lágrima vertida
Queimar o rosto cansado
E fustigado pelo destino
Lembrarei esse dia

E de joelhos na fornalha
Que castiga os perdulários
Da vida e do tempo
Açoitado por ter insistido em nascer
Ainda que órfão da vida
Abandonado e esquecido
Pelo mundo, sem sina
Sem ter tido nenhum caminho
Suportarei cada golpe
Amparado por teu sorriso

Meu crime foi ter dado a vida
Que não tive a quem mais
Dela precisou


Miinto minhas próprias verdades
Porque, se ditas
Soterro-me em desditas
Além daquelas que dá-me
O destino maldito

Deixai-me, pois, crer no que digo
E que não creias, vá bem,
Minto mal, dou sinais
Livro aberto sem vergonha
Minha metaficção é dedo-duro

As paredes do escritório
Como as folhas de papel...
Minto com tinta nestas
Minto e me ouvem aquelas
Se pintasse, mentiria também nas telas

Espaços em branco...
À lua também já menti
Mas só quando cheia
Quando nova
Vivo verdades escuras


Permaneço à noite
Desperto
Mais perto das estrelas
Que me perguntam:
- O que queres de nós?
E de joelhos à terra
Respondo alquebrado
- Que não me amanheçam
Nunca mais

Estrela cadente...