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E se não for amor
Aquilo com que nos amamos
E se for amor
Aquilo que não dizemos
E se for dor
Aquilo em que nos deitamos
E se não for dor
Aquilo com que nos machucamos
E se nunca mais rimarmos
Amor com...
Você sabe

Deixei que entrasses
Mas querias a chave
Do submundo
Da escuridão
Que nem a mim me pertence

Não a tinha
Ma tomaste
E foste
Assim mesmo
Sem lanterna, pista
Mapa, guia
E encontraste

E destruíste com as próprias mãos
O que restava
Oculto nas trevas
De sentimentos virgens
De sonhos ainda por nascer
Apenas para me beijar
E me deixar
Manchado do sangue
De que te banhaste

Teus lábios
Ainda mais vermelhos
Nos espelhos
Partidos
Dos teus olhos

Um tão sisudo
Cheio de ângulos
Retos, decretos
I
  n
     f l e
        x í
            v e l

A outra tão sinuosa
Cheia de curvas
Arcos, arabescos
Barroca
R o
    c o
       c ó

Juntaram-se em paralelo
Improvável
À dobra do sino
Mas jamais
Se encontraram
Nem sequer
- e queriam -
Num ponto tangente
 Foto: António Corvo
Tua frieza brutal
Te guardou de cada verso
Meu, arterial
Te protegeu dos estilhaços
De rimas nascidas
Do mais abissal
Arrependimento

Tua arrogância desprezível
Ou vice-verso
Poupou-te do fel e da vingança
Que só um coração ferido
Tem permissão de destilar

E toda essa fortaleza
Que te cobre de impunidade
Não te impediu de te cortares
Me contaram
Na folha de papel
Na qual meus restos
Te enderecei

Bem feito!

Tua máscara sangra
Porque a pele rasga
O que não é verdade

Sangra, pois
Em hemorrágicas orgias
Fantasias
Em que me amas
E queres negar

Tudo em ti mente
Indiferente
Ao desejo de seres
A máscara que visto

Porque minto
Quanto ao que sinto
Que é amar-te
Essa arte
Do engano
Do profano

Pois te quero nua
A ti
Não a verdade
E te consumo crua
A ti
Não a carne tua

Mas a tua alma imortal...

Costura, sutura
Sou tua aos recortes
Farrapos de lençóis
Rotos de tanto uso
E desuso a sós

Faz a bainha
Da vida minha
Corta os fios soltos
Es g a  r   ç a   d  o s
Nós sem ponto [final]

Dobra e guarda com carinho
Na prateleira do armário
Que um dia, um friozinho
Tu te cobres, solitário
De todos os meus retalhos

Dói ser a maldição
De ser o que sou
Doeria muito mais
Não ser aquilo
Que a mim se destinou

O remédio acabou-se há tempos
A receita ficou retida
Teu rosto apagou-se há tempos
Atrás de uma tarja preta

A doença é crônica
O destino, irônico
Maldito por não te ter
Maldito por te ter tido

Se o amor é imortal
Amarei-te morto
Até o final