Visitas

O oceano ressequido
Dos teus olhos – correnteza
Me naufragam em qualquer praia
Outros seios de areia
Outros corpos de sargaço
Outras camas de estrelas

O som da concha ao ouvido
Ecoa a imensidão vazia
De mim – cavalo marinho
Ao trote de corpos amantes
Sereias de fogo na terra molhada
Que, triste, relincha silêncios

Adormeço de sal e saliva
Acordo fisgado num abraço
E sonho voltar para o mar
Onde sei não serei amado
Mas morto e tragado, afogado
Pelas vagas de orgasmos

De teu corpo abissal
Cessa de inspirar-me
Musa pérfida de amores vis
E cala teus desejos obscenos
Que fazes-me escrever

Que a pena com que me punes
Te trespasse o coração
E tua alva e fria falsidade
Seja morte rubra e caldária

Ah, como arrependo-me
D'ouvir toda rima tua
De versejar todo meu sonho
De paixões e de loucuras

Lanço o pote de tinta
Contra teu duro coração
Estilhaços de poesia
Rasgo tuas vestes
Destruindo toda página escrita

Faço de meu escritório
Cena de amor intenso
Onde, porém, não houve gozo
Apenas o nosso pranto.

Pergunto-me à tua sombra
Quando virás a me amar

Quem sabe viesse o tempo
Em que o beijo tivesse gosto
O abraço tirasse o fôlego
E o olhar refletisse cores

Ninguém pode dizer
Ao certo
Que tonalidade de céu
Divide a noite do dia...
Insana overdose de sonhos puídos
Carcomidas neuroses histéricas
São as formas de vida inconsciente
E doente
Que transformam minha vigília
Em sonambulismo perene

Do absurdo narrativo das imagens oníricas
Transcrevo a história de meus dias
Afogados em significados obscuros
E equivocadas certezas
Sobre todas as verdades infundadas
Nas teorias desatinadas de loucos confiáveis

Desfilam deformados personagens
Por aquareladas paisagens penumbrosas
Exigindo de mim a coragem para entendê-los
E absorvê-los em suas demências
E dementes aparições entrecortadas de medos
O pavor de sorrisos tortos e vísceras coloridas
Animais fantásticos e o ódio em sua forma mais pura
A que dilacera toda a razão que mantinha-me são

Castelos em ruínas, damas putrefatas
Dragões exalam o fogo dos demônios mais perversos
O retorcido Dom Quixote trespassado de estacas
Cospe a baba sanguinolenta da fúria torpe
Que nasceu do pudendo podre tesão
Que emana das tuas nádegas brancas
Desafio hipnótico de uma realidade frustrada

O caos do sono profundo confunde-se
E mistura-se com a loucura da vida diurna
Nos pátios mal cuidados e celas acolchoadas
Em que me estilhaço e verto humores
Sangria improvisada pelo talho de neuroses
Com que me corto ao tilintar de facas e beijos

Atrevo-me ao sexo angelical
Coitos incertos e prazeres multifacetados
Entrego-me a amores demoníacos
Promessas mentirosas cujo preço é a sedição
Dos arquétipos que me acorrentam à falsa ideia
De estar vivo e ser alguém

Encerro a tortura da inaudita violência de amar-te
Livrando-me desta branca camisa cintada
E entregando-te-me aos pedaços
Em escarlate alucinação delirante
Como foi o amor
Que nunca fizemos
Minha alegria é manca:
Nasci deformado
De felicidade
Cada vez que de longe
Vejo de relance o teu sorriso
Me pergunto curioso:
Como deve ser Isso de ser feliz?
O vazio que me preenche de nada
Não me causa nenhuma infelicidade
E sim a solidão que nele ecoa
Prisioneiro da escuridão
Fugitivo da luz
Não te incomodo:
Deixa-me ser apenas tua sombra
Mergulho em meu próprio sangue
Em branco contraste
Banheira de louça
Afogado em vermelho batom
Que jamais beijarei
És tão bela na minha fantasia
Que chego a ter horror
Pela tua realidade.
Colchões no teto
Paredes e chão
Meu próprio abraço
Imagino-o teu
Daqui do alto
Voarei com meus sonhos
Teu colo
Ventania
Amor à luz de velas
...
Ou será o meu velório?
Meia-noite
Lua Nova
Lá fora
Lua e meia
Noite Nova
Cá dentro

No meu quarto
Você é minguante
E essa sombra
Crescente...
Fico imaginando como seria
A vida na lua, distante e fria
Sozinho e sem companhia
Mas tão em paz, em harmonia

Nos dias em que estivesse feliz
Passearia pela superfície branca de giz
E gris
Vendo de longe os ardis
Distante de quem me quer infeliz

Mas se porventura a gran’ meretriz
Vier a tristeza meter o nariz
Naquilo que não lhe respeito diz
Salto sem peso e depressa
Pra sua face inconfessa
E a tristeza sombria
Na sombra maior esvaneceria

E nós dois taciturnos
De frete pro Espaço
Sozinhos num abraço
De corações noturnos

A lua também fica triste
Mas ninguém pode ver — ela insiste.
a morte pediu-me um beijo
não lhe fui capaz de negá-lo
ela tinha o seu rosto, seu jeito

estendeu-me a mão e sorriu
e disse-me ainda: somente assim!
entendi, beijei-te e fui
Viemos morar na mesma rua
Sem saber, corações vizinhos
O seu, hoje, tem inquilino
O meu te reserva uma vaga
Na rua, amor contramão
Eu subo pesado o cortejo
Você desce sorrindo o cordão
A casa sua no lado par
Eu sozinho no lado ímpar
Quem dera viesse o carteiro
Uma esperança selada entregar...
Mascara a alma
A máscara alva
Coração enluarado
Lua vermelho-sangue
‘Sa gravidade em meu peito
Que não te deixa partir
Nosso lado obscuro torna-se enorme com a escuridão,
e desafia com sua existência a própria luz que o projeta.
Não quero mais escrever sobre morte.
Não é mais preciso.
Foi-se a época da poesia
Já podes parar de amanhecer
Que fim melhor poderia ter
Quem na vida sofreu por ser
Por ela tratado como animal?
Saúde!
E um gole de Nembutal
00:00
00:01
00:02
E o coração
Ainda em 00:00
Invisibilidade
É a arte de ninguém
Enxergar sua tristeza
Se eu acreditasse em maldições
E não tivesse um mínimo de compaixão
Amaldiçoaria meus inimigos
A viverem minha vida
É sempre de madrugada
Que me roubas o sono amarrotada
Que me amas a bofetada
Que exiges de mim o orgasmo da rima
O prazer do verso
Egoísta, não te importas com mais nada

Agarra-me pelo braço e devora-me o corpo
Escrevo sob teus gemidos
— os meus, de agonia —
Aquilo que determinas
Sinto a ti como brasa
Coito insaciável de palavras
Prosa e prazeres
Presos em linhas tortas
Nossa cama de papel

Tiras de mim tudo o que queres
Me extingue o fogo essa tua chama
Sei bem o quanto me amas
É amor bandido, desses de folhetim

Saciada, não mais ferves
Satisfeita, me abandonas
E me deixas sozinho à cama
Pois já conseguiste o que querias de mim

A poesia
(ou o amor?)
Teu sepulcro é minha capela
À distância
Bela
E chovia cinza aquela água nublada
Caía sem força fininha molhada
Fria como os corações e os olhares
De asfalto e árvores nuas de inverno
― nunca vejo andorinhas no frio ―

Não querendo molhar-me eu por fora
Aguaceiro enxurrada por dentro já sou
Puxei da sombrinha velha rota enguiçada
Porque se a chuva não guarda
Mas dela nos guarda
Então não pode ser de guarda-chuva chamada
Mas guarda-da-chuva
Como sou já solitário que chegue
E afastado das tolas palavras
Prefiro a sombrinha
Essa em que vivo

Aberta a engenhoca com muito rangido
Aletas tortas velho carcomido
Desceu-me do centro à altura do rosto
Uma pequena aranha dessas caseiras
Que se diz: não a mate é azar!
Suspendeu-se à teia
Coisa de palmo e meio
E batia-se-me ao nariz
Conforme empoçava meus passos
E balançava a sombrinha
Que me guardava-da-chuva

Tentei afastá-la do rosto girando o aparato
Mas habilidosa voltava dependurada
Muito frágil a pequena simpática
Insistente eu disse pois bem
Não há por que acabar devorando
Sem fome oito patas e um tórax
Com o dedo encostei na teia

E empurrei-a à chuva
Guardada que estava
Pelo guarda-da-chuva
Mas muito depressa astuta e esperta
Lançou sua teia ao topo do cabo
E voltou a encarar-me
Em agradável balanço
― Atena a detesta já se sabe o porquê ―
Empurrei-a um suspiro
Dois três trapezista
Fez valer o respeito
A sua teimosia

Parei entre poças e pingos
E disse não vais não é mesmo?
E ela brejeira balançou-me um não
Entendi fora eu o intruso
Não ela a estranha
Abri sua casa
Incomodei seu sossego
Por querer da chuva guardar-me
Estar à sombrinha até fora de casa

Eu fiz uma amiga
A amiga uma teia
Os dois à sombrinha
Guardados da chuva
Era uma vez um dragão
Que soube que não existia
Assim que a menina acordou

Então é isso que acontecerá
À menina
Quando ela acordar?
Pensou o dragão

De súbito
Taquicárdico suadouro
Despertou o unicórnio
E falou:
Que sonho esquisito
Brilham as estrelas
Faíscam os vaga-lumes
Bruxuleiam as velas
Fraqueja o fogo-fátuo
Só não brilham mais seus olhos
Para quem se fecharam os meus
A luz é só o soluço da escuridão
À noite e à morte
Somos todos iguais
O macio da cama
O cetim do esquife
Travesseiros de penas e dós

A manta e a tampa
Escondem o corpo
Protegem do frio
Embalam o sono

À noite e à morte
Somos todos iguais
Totalmente indefesos
Diante da sorte
Mau súbito - parada
cardiorrespiratória

À noite e à morte
Morremos de sono
Cansados de sonhos
E não acordamos:
Nos desenganamos

Fecho a cortina
Desligo o abajur
Cerro a tampa
Apago o círio

Pra que tanta luz?
Velho – infeliz –
Olho o espelho
Vejo – alegre –
O garoto que fui

Sou apenas um seu pesadelo

Que minha infância desperte
E acabe com meu sofrimento
Antes que o sonhador
Se transforme ele em meu pesadelo

O tempo passou?
Qual deles eu sou?

Morri quando jovem
Deu adeus o menino
Sou probabilidade
De vida
Realidade
De morte

Os sonhos não morrem
Mesmo os ruins

Dormiu o menino
Nenhum dos dois
Jamais acordou
Leito alheio
Coração meeiro
Amores inteiros
E eu ao meio
Lua azul
Anseio a branca gravidade
Terra azul
Tudo é grave ansiedade
Linda a lua assim tão perto
Maré alta, altos sonhos
Atração inevitável
Pouca coisa era preciso
Para que ela me levasse
Uma brisa e esse desejo
De viver assim, sozinho...
Relatos e retratos
Traços distintos
― requintes ―
Laços distantes
De maus tratos
Nos teus contos
Em que não me encontro
Traindo caminhos
Trilhando moinhos
De vento...
Entre as linhas
Das páginas de teu romance
Não me davas o carinho
Pouco e entrecortado
De um aposto
Entre as vírgulas
Que nos separam?
Melhor faz o cego
Que não diz sê-lo a ninguém
Quando a alguém conquista
Foi pelo que não se viu
A alma que definha
Pois que era minha
Órfã de recanto, abrigo
E pouso
Nem cá nem lá
Transita
Palpita
Nessa agonia doentia
Entre os vivos e os mortos
Como se diferença houvesse
Carne viva
Alma morta
Sanidade torta
Revoada
Aligeirada
De sossegos
Tranquila multidão
De amores e asas quebradas
Quantos passos
E compassos
Até entoarmos
A mesma melodia?
Nos perdemos
Neste ritmo atravessado
Vozes, cores
Tão cinza o teu silêncio
Vida sépia
Porta-retratos em branco
Sem tormentos
Nem (re)ssentimentos
Há dias
Em que tudo adias...
Amor postergado
Beijo afogado
Na ânsia muda
Desnuda
Fazer-te minha
Alforria
Quase sinto
Quase minto
O mito
Convir é vir
Com a intenção de ir
Mais vale
Um árido plano alto
Que uma cordilheira
De imundícies planas
Rodas
Mas não paras
Nesta minha cadeira
Aleijado de teu afago
A pena que escreve
Não alimenta
É a ave da pena
Que mata a fome ―
Dá liberdade
É verdade
Que a vejo nua
Mesmo assim
Vestida de indiferença
Quando cortas
A carne que tremita
― e frêmita ―
Agonizo em olhos teus
Morte sob perspectiva
Assim eu sei
Que te dei prazer
À ilusão da tua cama
Deito-me entre penas silenciosas
Mato talho retalho
Onde está o sangue
Que não jorra por mim?
Quase escrevo teu nome
Quase acabo com a poesia
Quase mato o escritor
Quasimodo