Visitas

E foi assim que
Tendo a tudo dado as costas
E em tudo estarmos ambos incluídos
Nunca mais um do outro
Ouvimos falar
Nem nunca mais um ao outro
Voltamos a ver
É preciso rimá-la com esquecer.
... restaria decerto a morte,
Que a todos a tempo reúne
Mas ― pura falta de sorte ―
Também a morte
Nos abandonara
Por puro ciúme
Inveja rara
Meu reino por um revisor!
Isto de sangue pisado e repisado...
Mas quem haverá
De entender meu terror?
Quem haverá de saber
Reescrever tanta dor
E ainda fazê-la
Doer.
Na Antiguidade (nem é preciso ir tão longe...), quando uma civilização chegava ao fim, desestruturada, corroída em todos os seus valores, destituída do que chamamos hoje tecido social, uma outra civilização tomava o seu lugar, cultural e/ou territorialmente. O que diferencia a nossa contemporaneidade daquela longínqua (?) Antiguidade, é que hoje nossa civilização é uma só, não há ninguém para nos substituir, tomar as rédeas, reorganizar-nos sob novos protocolos ou instituições.
Nossa civilização ocidental (ainda há isso de ocidental e oriental?) está morta. Não há mais o que corromper, não há mais valores éticos ou morais seguros, delimitadores, norteadores da mínima convivência social. Somos um cadáver maquiado.
Nosso drama é não termos ninguém que venha nos velar nem fechar nosso caixão: somos um corpo exposto ao tempo, empesteando tudo, maculando tudo até que não sobre mais nada de nossa podridão sobre a Terra.

Ganhaste, vida
Fizeste por merecer
Usaste de todos os truques
Tiraste-me tudo
Pouco a pouco
Dilacerando
Desacelerando
Meu celerado
Coração

Aos poucos e sempre
Um talho, um corte
Um jorro de sangue
Tanto e tão cruento
Que do ódio e da revolta
A gerar no ventre a vingança
Conseguiste fazer-me triste
Atiraste-me à mais profunda
E escura melancolia

E a vibração que o furor e a raiva
Produziam em mim
De tanto apanhar, de tanto perder
Viraram dormência
Um formigamento
De quem já não sente as partes
Ainda que lá bem estejam
Suspensas, inertes,
Vãos adereços

Ganhaste, eu disse
Triunfaste, escrevi
Contudo, repenso
Neste meu vagar
Sem rumo nem prumo
Morto ainda vivo
Cadáver engendrado
No reino da vida
Isto posto, concluo
Que a bem da verdade
Triunfo maior tive eu sobre ti
Porque faço-me morto
Não sinto mais nada
Nem mesmo as dores
Em que ainda insistes
E por isso mesmo
Porque não me mataste
― ainda que um corpo ―
Sou em quem escarneço
Pois despedaçado

Tão amargurado
E mui torturado
Ainda vagueio imundo
Por esse teu mundo
De vida e frescor
Beleza e amor
Mas quem sabe consigo
Por culpa, ironia,
Da tua vil covardia
Enegrecer estas cores
Murchar todo o viço
De tudo o que é vivo
Com apenas um toque
De morte
Do morto
Que vivo, entretanto,
Sem que notasses
Resistiu às feridas
E agora as devolve
Não a ti, mãe perversa,
Mas a teus filhos e filhas
Que mortos, doentes,
Infelizes tal qual
Apedrejam e cortam
O teu coração
O seio da vida

Matasses a mim
E teria ganho a pendenga
Escolheste a tortura
Criaste teu próprio
Verdugo

Ah, vida,
Há coisas que à morte
Pertencem
Dá-me cá um abraço
Apodrece comigo
Quero mostrar-te
O fim que terá
Todo o vivo.
Tinta vermelha à pena
Ou é jura de amor
Ou declaração de guerra
De qualquer forma, é Gehenna
Ocorreu-me súbito um poema
Correu-me com a mesma presteza
Veio a musa beijou-me e foi-se
Vultos ligeiros da madrugada

Nunca mais lembrar-me-ei
Dos versos daquele beijo
Mas faço este, de implicância
Só de irônica vingança

Sei bem que o que queres
Não é querer-me como eu quero
O que queres é que eu queira
Que brinques com meus quereres

Do contrário,
Quede verso?
Eis que vens a mim em sonho
Sem ter sido convidada
Nem tão pouco apresentada
Total e perfeita estranha
Como há muito conhecida
Cumprimentou-me e parecia
Colocar o assunto em dia
Com sorrisos tagarelas
À vontade num singelo
Vestido de tom amarelo

Na manhã do mesmo dia
Não estivesse acostumado
A ser em sonhos visitado
Muito me espantaria
Vê-la verdadeiramente
Só faltou o amarelo
E a intimidade sorridente

Que existas cá e lá,
Que sei eu de existências?
Mas como pode lá um beijo
E cá tão grande indiferença?

É preciso abandonar
Toda a dura realidade?
Ou devo cá eu procurar
Por vestidos amarelos?
Quão doce seria
Expirar à leve, fria
E noturna brisa
E elevar-me às estrelas
Tão mais leve que o ar
Refrescando-me ao roçar nas nuvens
Refletido à branca luz da lua

E do alto contemplar
O corpo empalidecido
Já sem vida, tão sem rima
Fim de todo sofrimento
— O sorriso do cadáver —

Ah! Que paz deverá ser
O noturno fenecer
Silencioso despedir-se
Sutil desprender-se

De ti.
Já não te quero mastigar
Enjoou-me o sabor de nada
Enojou-me o teu beijo insosso
Tua morna companhia
Teu sentimento ralo
Que seja ao menos
Doce a sobremesa
Fui amar-te e destarte
Encontrei-me em desalento
Tornei-me podre, amargurado
Definhei desfigurado
Sucumbi sem mais saúde
Me puseste em ataúde
De madeira podre pinho
Misturado ao escarninho
Do que fosse o teu carinho

Tanto foi que desejei
Tanto foi que me esforcei
Em talhar um sentimento
Em teu calcário coração
Em tua alma insensível
Mas era-me ser invisível
Conviva sem anfitrião
Faminto sem alimento

Morresse eu seria ainda
Melhor que o horrendo fado
De uma solidão advinda
De teu cruel enfado
Mas não está morto e enterrado
Quem vive só e isolado
De amores desenganado
De tudo desesperançado?

Ah, mas este amor com que te amava
Em tão profunda ira se tornara
Com tão infame rancor
E ódio intenso
Que do que te reservo em apenso
Quase me arrependo de dispor

Criaste um corpo inerte e corrompido
E atiraste-o já sem mais libido
Ao sabor dos elementos
A toda sorte de excrementos
E nessa mesma natureza
Que abdiquei de qualquer pureza
Trovejei ensandecido
Relampejei-me retorcido
E chovi o que restava
E de toda humanidade
Vi minha essência lavada
Tempestade, mãe de toda insanidade!

Agora que renasci só carne
Sem qualquer brilho no olhar
Animado por desejo de vingança
Repleto da mais cruenta fúria!
Sucumbirás à criatura
Que tu mesma fizeste-me ser

E agora hás de me amar
Cheia do mais profundo terror
Presa a terríveis grilhões e grades
E gritos e grutas, à grama, imunda cama,
Grunhindo, desgrenhada,
Gritando, pedindo e implorando
Assim como supliquei o teu amor
Que te deixe e te solte e te liberte
Não! Que a morte em mim desperte!

Estás agora refém
Do teu próprio
Frankenstein
Amores, parques, abraços,
Carinhos, beijos, amassos,
Versos, poemas, poesia,
Livros, filmes, teatro, alegria
Ser
[só]
Seu
Tantos amigos, programas,
Eu te amo, tu me amas,
Pôr do sol, lua cheia,
Café, almoço, jantar e ceia.
Salto dos seios
Semblante sáfico
Serena sede de suaves sucos
Saliva, suspiros, sabores,
Sigo sinuosidades
Sorvendo sal e suores
Sudorese sensual
Sagrado sexo
Soterro
São seus sinais
Satisfeita
Sufocada
Soluços
Sentidos sinceros
Sangue sugado
Sanguessuga
Sou [só] sina
Esse saco de ossos
Sempre seu

Deite-se
De bruços
Debruço-me
Deleite-se
No leito
De morte
O coração repete que te amo
— verso sistólico / rima diastólica —
Meu corpo insiste que te quero
— Contrações / contrariedades involuntárias —
Mas é o verde dos teus olhos
— Imatura pintura profunda —
Que diz-me não estares ainda
— e para quando? ―
Pronta para a colheita
Morro à míngua
— entressafra —
Soubessem meus olhos
E tudo o mais que destruíste
Que a brancura da tua pele
— como neve —
Soterrar-me-ia em desespero
— avalanche —
Faltando-me o ar e o amar
Tê-la-ia evitado, abreviado
Porque é fugaz tua presença
Duvidosa tua permanência
E certa a tua ausência
Assim te quero
Assim mesmo
Ah, sim!
É cisma
Desejo barato
Corriqueiro
Teimosia
Quero por que quero
Insistência
— bobagem a resistência —
Pode ser pela tua beleza
[que eu mesmo construí]
Pode ser pela tua inteligência
[te quero inteligente e pronto]
Pode ser por esse teu jeito
Que me faz rir e me deixa feliz
[Insana felicidade infeliz]
Pode ser por esse gosto de carne
Que temos inerente à espécie
E que quero provar
Crua, nua
Peça de açougue
[desejo estranho esse]
Quero porque decidi te querer
Não sei se te amo
Provavelmente, não
— O amor é ridículo —
Quero-te como quis a tantas
E hei de outras querer
Porque enjoa-se da mesma carne
Depois de tê-la à mesa demasiado
E à cama embriagado
Quero-te porque escolhi te amar
E porque já não possuo
As chaves de tua cela.
Não me queres à tinta
Não me amas à pena
Ignora-me ao pergaminho
Pois meu papel
Agora será o céu
Sem borda, sem limite
— hipertexto azul anil —
A pena ligeira de ganso
Etérea, ao vento manso,
Um risco de nuvem-pluma
Porque são do ar as aves
As penas e as brumas
E os versos
E o teu avoado coração
A tinta que fiz correr,
E que jamais desejaste ler,
Sejam, pois, as gaivotas
Com suas asas em “M”,
A redondilhar no alto
Os versos que te fiz
E que agora,
— virás a saber algum dia? —
Lerás com paixão tranquila.
Eu te quero tanto,
E te desejo tanto,
E te escrevo tanto,
E, entretanto...
De todos,
Édipo foi o mais sensato.
Não te importes
Com meu cadáver
A rodear-te
As mariposas
— e os mortos —
Procuram a luz.
É no brilho da luz do dia
Que se criam as longas sombras
E todas elas se levantam
Em horror cambaleante
Avançando sobre mim
A sussurrar teu nome
Não há canto nem recanto
Em que a penumbra não se prume
A buscar-me com volúpia
Como a ti eu procurava
Não tem fim o meu tormento
Amar-te é meu arrependimento
O sol se põe e vão-se as sombras
É quando mergulho aflito
Na mortal escuridão da noite
Se pelo menos a Lua, também ela,
Não criasse sombras suas...
Só posso amá-la Nova
Pois não é possível vê-la
Pois não é possível ver-te
A não ser
Em minha própria
E interna
Escuridão
Fico imaginando como seria se tivesse sido,
e se ainda poderá vir a ser.
Será que neste período sou a voz passiva?
Devo ser a voz ativa?
Imperativo!
Não sei mais se sou o sujeito ou objeto direto indesejado
— objeto indireto desejado, corrige a professora; fetiche —
Talvez tudo não passe de orações sem sujeito
— preço de ser indeterminado —
Faltaram-nos os conectivos,
Ficamos assindéticos,
Orações absolutas e solitárias.
Tivemos o contexto
— que péssimos leitores fomos —
Bastava desdobrar a semântica.
Mas fomos gramáticos normativos
— reflexivos, construtivistas; falhamos —
E agora estamos assim,
Literatos sem ter o que dizer.

Se ao menos tivéssemos tido a coragem
De inventar nossos próprios advérbios
De tempo, de lugar, de companhia
E de prazer...
Eis a cena
Ouço sinos
Percebo incensos
Em meu sono
Ai, a sina
Deste amor insano
Tormento intenso
Profundo, denso
Epifania imensa

Tão nonsense
Essa tua absence...
Os versos e as rimas
Estavam todos lá
No teu sorriso alexandrino
Naquele olhar hai-kai
Nas curvas concretistas
Nesse amor surrealista
Nos seios de sonetos
No refrão dos teus quadris
Nas longas pernas parnasianas
Em teu coração barroco
Em nossas vidas de quadrinhas
Mas foi no dia em que te foste
Que tudo virou poesia
... e, morto de desejo,
enterrar-me-ei no quintal da tua vida
e, se da terra úmida e de meu podre coração
puder renascer numa flor qualquer,
quem sabe não me venhas a colher?
Disseco-te e não me encontro em ti.
Duas mortes em vão.
... e percebo que meu maior tormento
meu eterno sofrimento
não é ter um coração anoitecido
uma alma-lua nova
ou ter nascido de estrela opaca
é ter-me apaixonado
pelo teu sorriso-sol
teus cabelos-ventania
essa alma-alegria
esse corpo-via láctea
e saber, maldita astronomia,
que entre o sol e velha lua
só pode haver um breu-eclipse

Cercam-te as borboletas ao claro dia
Amedrontam-se as mariposas à horrível noite

Preferiria jamais tê-la
visto amanhecendo...
Mas não é o tempo que te falta,
Falta-te a falta que te fazem as pessoas,
Falta-te sentires falta.

Ou já é tempo de não fazer falta a ti?
Se pelo menos teu relógio
Se lembrasse de mim...
Ver-te assim, tão purpurina
Arlequina improvisada
Só sorrisos, alegria

Mascarada e desenganada
Noutros passos e compassos
Desfila a melancolia

Visto a minha fantasia
De retalhos de saudades
E vou chorando esta marchinha

Ah, neste meu bloco do eu sozinho
Sem confete ou serpentina
Só bate o bumbo lento do meu coração

No carro alegórico és de todos
Mas no meu porta-retratos
Serás sempre o meu destaque
Se vieres
Uma vez mais
Abraçar-me em alta noite
Deixar teus beijos e sorrisos
E te meteres entre outras musas
— Posto que és ciumenta e me queres só a ti —
Rogo-te que recues; procura, tu, a lua
Ou as estrelas — devem dar por tua falta —
Assombra as escuras ruas
E seus pobres transeuntes
Que buscam morenas
E loiras de branco

Se quiseres contudo vir
Se in felicitate me desejas tanto assim,
Vem, tu, à luz do dia,
Toca a campainha,
Bate à porta,
Ô de casa!

Entra, a alma é tua!
Pois também é preciso o corpo,
E também se deseja a carne,
Porque sonhos não matam a fome,
Deste arado sonhador.
Verdades
Vaidades
Oh, desditosa rima
... e (n)este verso solitário só eu se(m/n) ti...
Relativ(a)idade

Não são os vinte e talvez mais anos
Que nos assustam e amedrontam
Os corações que de tempo nada sabem,
Mas a sombra que à luz da razão
Projeta-se sobre os desejos nossos.

Separados por um abismo
Que se torna nada
Tamanha a esperança
Que dança
Voando em palavras hesitantes
Que trocamos.

[Sinais de fumaça]

E eu me pergunto, enquanto sonho-te mais velha
E desespero-me por mais novo:
O que terá acontecido
Com o “que seja eterno enquanto dure”?

Ficou nos versos,
Como nós,
Dueto sem rima,
Relógios desacertados.

E basta, sabemos,
Apenas querermos.
Mas, se sabemos que queremos,
Por que não somos
E nem estamos
No mesmo tempo
Na mesma batida
Do carrilhão?

O tempo é tão relativo
Quanto o medo
Que dele
Temos.

O relógio não sabe a diferença
Entre meio-dia
e meia-noite.
Aponta o mesmo doze para os dois.
Por que nós não podemos
Fazer o mesmo
E esquecermos
Do tempo

E sermos
Os dois
Um único
Ponteiro?
Insana idade
Imortal idade
Saudade,
Moça.
Mais quero teu vulto vivo
Na incerteza da penumbra
Noturna
Que a certeza morta
Da tua ausência
Na luz sombria
Diurna
A cela,
Os choques,
As pílulas e injeções.
Nem mesmo a camisa de força,
Me fazem esquecer de ti,
Deixar de te ver,
E de te querer.
Eu só queria uma vitória
Que bem podia estar em seus olhos
Mas os louros...
Um empate! Ah, meu reino por um empate
Que bem podia ser contemplar o seu sorriso
De longe que fosse
De longe
50
Que eu possa ser merecedor, então,
De um intervalo
Que bem podia ter
O tempo de dizer seu nome
Até o final
E que fosse
O final.
Cansaço é quando a vida
Te derruba e te esmurra
E te pisa e te fere
E você ali, deitado
No próprio sangue
Só enxerga o brilho
De quem não te ama
Mas é, ainda assim,
Uma dor mais doce
Que a dor da vida.
Certa vez sonhei
E soube
Naquele sonho
Que você jamais sairia de lá
E só ali existiria
[zzzzzzzzzzzzzzz]
Eu sou esse louco vagabundo
Que anda a falar sozinho pelas ruas
Sem que eles jamais saibam
Que eu falo
É com você.
Meu amor é um filme mudo
É preciso, agora,
Escutar vozes
Para saber
Que rima fazer
Com minha demência
Tão linda
Em cetim.
Em tua mesa
F / a / t / i / a / d /o
Devora-me!
Se só assim estarei em ti...
Eu só não sei de muita coisa
Eu só imagino a moça
Eu só queria...
Eu só penso no dia...
Eu só não sei da alegria
Eu só não pontuo a poesia
A vírgula é para quem lê
Eu só escrevo.
A água que vai ao chão
Com o tempo
Ev a p o r a - s e
[Por que não o leite derramado?]
Assim vão-se esvanecendo meus pensamentos
E meus sonhos
E a própria vida

Chove, choro
Charco cheio
— de chumbo —

Chilreio
... e eu ali, olhando pela janela
imaginando como deve ser a morte:
os carros passando,
o silêncio das árvores,
o zumbizar dos notívagos...
E tudo ali, na minha cabeça,
fazendo sentido,
se desapegando,
se distanciando,
e sobrevoando,
até que
O pôr do sol
Por tão só
Fez-se tal como a alvorada
E assim são dois o mesmo sol
Esse sol que era tão só
Tão só num pôr de sol
Que nasce e morre
No mar de sal
E só

E querem que só a lua tenha poesia
E dizem que só, a lua tem a poesia
A lua é a poesia do sol
Se podes perdoar a lua quando ela é nova,
Perdoa-me a mim
Eu, cometa,
Em minha órbita periódica
Ao redor ti
[elípticos]
Por causa de tantas idas e vindas,
De tantos desamores
Dissabores e promessas fugazes
De tantos castelos de nuvens
Onde não quiseste morar
– embora endossaste o projeto –
É que sonho tanto assim,
E me recolho tanto assim,
E meu dormir é meu viver
Porque te realizo no impossível
Talvez
Em rostos desconhecidos
Em mechas de outras cores
E olhos de outras luzes

Que nossa frágil realidade
– a que abandonaste quando era só esperança –
Se torne, em sonhos de álcool e ópio,
A real fantasia de nós dois,
Ainda que nela tu vistas
Uma outra máscara qualquer.
Choro mela ou choro molha?
Chorumela...
Me ame amanhã
À mesa
À moda
Sem modos
Cem modos!

Manhã de mainha
Manhas de menina
Monte de Vênus
Movimentos marinhos
Marés
A molhar-nos

Mantras entre mantas
Músicas e mistérios
Me ame mulher
Malícia
Maleável malemolência

Meneios de menina-moça
Maçãs mortas
Mordidas em manicômios
Mente o mensageiro
Missivas mordazes
Moldas maldades
Mas ama-me
A mim
Muito

Minueto de mamilos
Marcas de mordidas
Melhor morrer
A não ser amado.

Mechas e cachos
Mexes – o facho –
E o tacho
Entalhos e atalhos
E o leite talhado
Tabuleiro dos prazeres.
Temo o céu azul e límpido
De azulejo cristalino
Mais que o plumbum
Das tempestades.

É que nos dias claros
As nuvens que não estão no céu
Estão nublando meu coração
E nos dias de chuva
Deixo-as passear
Para que o peito respire
Ar puro.
A ovelha negra entre o alvo rebanho
É como a letra impressa em branco sulfite:
Distingue.
Com o mesmo voraz apetite,
Aqueço-me com a negra lã que extingue
A dor e os ais do lanho
De tanta brancura
De capa dura.