Visitas

Fui amar-te e destarte
Encontrei-me em desalento
Tornei-me podre, amargurado
Definhei desfigurado
Sucumbi sem mais saúde
Me puseste em ataúde
De madeira podre pinho
Misturado ao escarninho
Do que fosse o teu carinho

Tanto foi que desejei
Tanto foi que me esforcei
Em talhar um sentimento
Em teu calcário coração
Em tua alma insensível
Mas era-me ser invisível
Conviva sem anfitrião
Faminto sem alimento

Morresse eu seria ainda
Melhor que o horrendo fado
De uma solidão advinda
De teu cruel enfado
Mas não está morto e enterrado
Quem vive só e isolado
De amores desenganado
De tudo desesperançado?

Ah, mas este amor com que te amava
Em tão profunda ira se tornara
Com tão infame rancor
E ódio intenso
Que do que te reservo em apenso
Quase me arrependo de dispor

Criaste um corpo inerte e corrompido
E atiraste-o já sem mais libido
Ao sabor dos elementos
A toda sorte de excrementos
E nessa mesma natureza
Que abdiquei de qualquer pureza
Trovejei ensandecido
Relampejei-me retorcido
E chovi o que restava
E de toda humanidade
Vi minha essência lavada
Tempestade, mãe de toda insanidade!

Agora que renasci só carne
Sem qualquer brilho no olhar
Animado por desejo de vingança
Repleto da mais cruenta fúria!
Sucumbirás à criatura
Que tu mesma fizeste-me ser

E agora hás de me amar
Cheia do mais profundo terror
Presa a terríveis grilhões e grades
E gritos e grutas, à grama, imunda cama,
Grunhindo, desgrenhada,
Gritando, pedindo e implorando
Assim como supliquei o teu amor
Que te deixe e te solte e te liberte
Não! Que a morte em mim desperte!

Estás agora refém
Do teu próprio
Frankenstein

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