Visitas

Ganhaste, vida
Fizeste por merecer
Usaste de todos os truques
Tiraste-me tudo
Pouco a pouco
Dilacerando
Desacelerando
Meu celerado
Coração

Aos poucos e sempre
Um talho, um corte
Um jorro de sangue
Tanto e tão cruento
Que do ódio e da revolta
A gerar no ventre a vingança
Conseguiste fazer-me triste
Atiraste-me à mais profunda
E escura melancolia

E a vibração que o furor e a raiva
Produziam em mim
De tanto apanhar, de tanto perder
Viraram dormência
Um formigamento
De quem já não sente as partes
Ainda que lá bem estejam
Suspensas, inertes,
Vãos adereços

Ganhaste, eu disse
Triunfaste, escrevi
Contudo, repenso
Neste meu vagar
Sem rumo nem prumo
Morto ainda vivo
Cadáver engendrado
No reino da vida
Isto posto, concluo
Que a bem da verdade
Triunfo maior tive eu sobre ti
Porque faço-me morto
Não sinto mais nada
Nem mesmo as dores
Em que ainda insistes
E por isso mesmo
Porque não me mataste
― ainda que um corpo ―
Sou em quem escarneço
Pois despedaçado

Tão amargurado
E mui torturado
Ainda vagueio imundo
Por esse teu mundo
De vida e frescor
Beleza e amor
Mas quem sabe consigo
Por culpa, ironia,
Da tua vil covardia
Enegrecer estas cores
Murchar todo o viço
De tudo o que é vivo
Com apenas um toque
De morte
Do morto
Que vivo, entretanto,
Sem que notasses
Resistiu às feridas
E agora as devolve
Não a ti, mãe perversa,
Mas a teus filhos e filhas
Que mortos, doentes,
Infelizes tal qual
Apedrejam e cortam
O teu coração
O seio da vida

Matasses a mim
E teria ganho a pendenga
Escolheste a tortura
Criaste teu próprio
Verdugo

Ah, vida,
Há coisas que à morte
Pertencem
Dá-me cá um abraço
Apodrece comigo
Quero mostrar-te
O fim que terá
Todo o vivo.

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