Visitas

Insana overdose de sonhos puídos
Carcomidas neuroses histéricas
São as formas de vida inconsciente
E doente
Que transformam minha vigília
Em sonambulismo perene

Do absurdo narrativo das imagens oníricas
Transcrevo a história de meus dias
Afogados em significados obscuros
E equivocadas certezas
Sobre todas as verdades infundadas
Nas teorias desatinadas de loucos confiáveis

Desfilam deformados personagens
Por aquareladas paisagens penumbrosas
Exigindo de mim a coragem para entendê-los
E absorvê-los em suas demências
E dementes aparições entrecortadas de medos
O pavor de sorrisos tortos e vísceras coloridas
Animais fantásticos e o ódio em sua forma mais pura
A que dilacera toda a razão que mantinha-me são

Castelos em ruínas, damas putrefatas
Dragões exalam o fogo dos demônios mais perversos
O retorcido Dom Quixote trespassado de estacas
Cospe a baba sanguinolenta da fúria torpe
Que nasceu do pudendo podre tesão
Que emana das tuas nádegas brancas
Desafio hipnótico de uma realidade frustrada

O caos do sono profundo confunde-se
E mistura-se com a loucura da vida diurna
Nos pátios mal cuidados e celas acolchoadas
Em que me estilhaço e verto humores
Sangria improvisada pelo talho de neuroses
Com que me corto ao tilintar de facas e beijos

Atrevo-me ao sexo angelical
Coitos incertos e prazeres multifacetados
Entrego-me a amores demoníacos
Promessas mentirosas cujo preço é a sedição
Dos arquétipos que me acorrentam à falsa ideia
De estar vivo e ser alguém

Encerro a tortura da inaudita violência de amar-te
Livrando-me desta branca camisa cintada
E entregando-te-me aos pedaços
Em escarlate alucinação delirante
Como foi o amor
Que nunca fizemos
Minha alegria é manca:
Nasci deformado
De felicidade
Cada vez que de longe
Vejo de relance o teu sorriso
Me pergunto curioso:
Como deve ser Isso de ser feliz?
O vazio que me preenche de nada
Não me causa nenhuma infelicidade
E sim a solidão que nele ecoa
Prisioneiro da escuridão
Fugitivo da luz
Não te incomodo:
Deixa-me ser apenas tua sombra
Mergulho em meu próprio sangue
Em branco contraste
Banheira de louça
Afogado em vermelho batom
Que jamais beijarei
És tão bela na minha fantasia
Que chego a ter horror
Pela tua realidade.
Colchões no teto
Paredes e chão
Meu próprio abraço
Imagino-o teu
Daqui do alto
Voarei com meus sonhos
Teu colo
Ventania
Amor à luz de velas
...
Ou será o meu velório?
Meia-noite
Lua Nova
Lá fora
Lua e meia
Noite Nova
Cá dentro

No meu quarto
Você é minguante
E essa sombra
Crescente...
Fico imaginando como seria
A vida na lua, distante e fria
Sozinho e sem companhia
Mas tão em paz, em harmonia

Nos dias em que estivesse feliz
Passearia pela superfície branca de giz
E gris
Vendo de longe os ardis
Distante de quem me quer infeliz

Mas se porventura a gran’ meretriz
Vier a tristeza meter o nariz
Naquilo que não lhe respeito diz
Salto sem peso e depressa
Pra sua face inconfessa
E a tristeza sombria
Na sombra maior esvaneceria

E nós dois taciturnos
De frete pro Espaço
Sozinhos num abraço
De corações noturnos

A lua também fica triste
Mas ninguém pode ver — ela insiste.
a morte pediu-me um beijo
não lhe fui capaz de negá-lo
ela tinha o seu rosto, seu jeito

estendeu-me a mão e sorriu
e disse-me ainda: somente assim!
entendi, beijei-te e fui
Viemos morar na mesma rua
Sem saber, corações vizinhos
O seu, hoje, tem inquilino
O meu te reserva uma vaga
Na rua, amor contramão
Eu subo pesado o cortejo
Você desce sorrindo o cordão
A casa sua no lado par
Eu sozinho no lado ímpar
Quem dera viesse o carteiro
Uma esperança selada entregar...
Mascara a alma
A máscara alva
Coração enluarado
Lua vermelho-sangue
‘Sa gravidade em meu peito
Que não te deixa partir
Nosso lado obscuro torna-se enorme com a escuridão,
e desafia com sua existência a própria luz que o projeta.
Não quero mais escrever sobre morte.
Não é mais preciso.
Foi-se a época da poesia
Já podes parar de amanhecer
Que fim melhor poderia ter
Quem na vida sofreu por ser
Por ela tratado como animal?
Saúde!
E um gole de Nembutal
00:00
00:01
00:02
E o coração
Ainda em 00:00
Invisibilidade
É a arte de ninguém
Enxergar sua tristeza
Se eu acreditasse em maldições
E não tivesse um mínimo de compaixão
Amaldiçoaria meus inimigos
A viverem minha vida
É sempre de madrugada
Que me roubas o sono amarrotada
Que me amas a bofetada
Que exiges de mim o orgasmo da rima
O prazer do verso
Egoísta, não te importas com mais nada

Agarra-me pelo braço e devora-me o corpo
Escrevo sob teus gemidos
— os meus, de agonia —
Aquilo que determinas
Sinto a ti como brasa
Coito insaciável de palavras
Prosa e prazeres
Presos em linhas tortas
Nossa cama de papel

Tiras de mim tudo o que queres
Me extingue o fogo essa tua chama
Sei bem o quanto me amas
É amor bandido, desses de folhetim

Saciada, não mais ferves
Satisfeita, me abandonas
E me deixas sozinho à cama
Pois já conseguiste o que querias de mim

A poesia
(ou o amor?)
Teu sepulcro é minha capela
À distância
Bela
E chovia cinza aquela água nublada
Caía sem força fininha molhada
Fria como os corações e os olhares
De asfalto e árvores nuas de inverno
― nunca vejo andorinhas no frio ―

Não querendo molhar-me eu por fora
Aguaceiro enxurrada por dentro já sou
Puxei da sombrinha velha rota enguiçada
Porque se a chuva não guarda
Mas dela nos guarda
Então não pode ser de guarda-chuva chamada
Mas guarda-da-chuva
Como sou já solitário que chegue
E afastado das tolas palavras
Prefiro a sombrinha
Essa em que vivo

Aberta a engenhoca com muito rangido
Aletas tortas velho carcomido
Desceu-me do centro à altura do rosto
Uma pequena aranha dessas caseiras
Que se diz: não a mate é azar!
Suspendeu-se à teia
Coisa de palmo e meio
E batia-se-me ao nariz
Conforme empoçava meus passos
E balançava a sombrinha
Que me guardava-da-chuva

Tentei afastá-la do rosto girando o aparato
Mas habilidosa voltava dependurada
Muito frágil a pequena simpática
Insistente eu disse pois bem
Não há por que acabar devorando
Sem fome oito patas e um tórax
Com o dedo encostei na teia

E empurrei-a à chuva
Guardada que estava
Pelo guarda-da-chuva
Mas muito depressa astuta e esperta
Lançou sua teia ao topo do cabo
E voltou a encarar-me
Em agradável balanço
― Atena a detesta já se sabe o porquê ―
Empurrei-a um suspiro
Dois três trapezista
Fez valer o respeito
A sua teimosia

Parei entre poças e pingos
E disse não vais não é mesmo?
E ela brejeira balançou-me um não
Entendi fora eu o intruso
Não ela a estranha
Abri sua casa
Incomodei seu sossego
Por querer da chuva guardar-me
Estar à sombrinha até fora de casa

Eu fiz uma amiga
A amiga uma teia
Os dois à sombrinha
Guardados da chuva
Era uma vez um dragão
Que soube que não existia
Assim que a menina acordou

Então é isso que acontecerá
À menina
Quando ela acordar?
Pensou o dragão

De súbito
Taquicárdico suadouro
Despertou o unicórnio
E falou:
Que sonho esquisito
Brilham as estrelas
Faíscam os vaga-lumes
Bruxuleiam as velas
Fraqueja o fogo-fátuo
Só não brilham mais seus olhos
Para quem se fecharam os meus
A luz é só o soluço da escuridão
À noite e à morte
Somos todos iguais
O macio da cama
O cetim do esquife
Travesseiros de penas e dós

A manta e a tampa
Escondem o corpo
Protegem do frio
Embalam o sono

À noite e à morte
Somos todos iguais
Totalmente indefesos
Diante da sorte
Mau súbito - parada
cardiorrespiratória

À noite e à morte
Morremos de sono
Cansados de sonhos
E não acordamos:
Nos desenganamos

Fecho a cortina
Desligo o abajur
Cerro a tampa
Apago o círio

Pra que tanta luz?
Velho – infeliz –
Olho o espelho
Vejo – alegre –
O garoto que fui

Sou apenas um seu pesadelo

Que minha infância desperte
E acabe com meu sofrimento
Antes que o sonhador
Se transforme ele em meu pesadelo

O tempo passou?
Qual deles eu sou?

Morri quando jovem
Deu adeus o menino
Sou probabilidade
De vida
Realidade
De morte

Os sonhos não morrem
Mesmo os ruins

Dormiu o menino
Nenhum dos dois
Jamais acordou
Leito alheio
Coração meeiro
Amores inteiros
E eu ao meio
Lua azul
Anseio a branca gravidade
Terra azul
Tudo é grave ansiedade
Linda a lua assim tão perto
Maré alta, altos sonhos
Atração inevitável
Pouca coisa era preciso
Para que ela me levasse
Uma brisa e esse desejo
De viver assim, sozinho...
Relatos e retratos
Traços distintos
― requintes ―
Laços distantes
De maus tratos
Nos teus contos
Em que não me encontro
Traindo caminhos
Trilhando moinhos
De vento...
Entre as linhas
Das páginas de teu romance
Não me davas o carinho
Pouco e entrecortado
De um aposto
Entre as vírgulas
Que nos separam?
Melhor faz o cego
Que não diz sê-lo a ninguém
Quando a alguém conquista
Foi pelo que não se viu
A alma que definha
Pois que era minha
Órfã de recanto, abrigo
E pouso
Nem cá nem lá
Transita
Palpita
Nessa agonia doentia
Entre os vivos e os mortos
Como se diferença houvesse
Carne viva
Alma morta
Sanidade torta
Revoada
Aligeirada
De sossegos
Tranquila multidão
De amores e asas quebradas
Quantos passos
E compassos
Até entoarmos
A mesma melodia?
Nos perdemos
Neste ritmo atravessado
Vozes, cores
Tão cinza o teu silêncio
Vida sépia
Porta-retratos em branco
Sem tormentos
Nem (re)ssentimentos
Há dias
Em que tudo adias...
Amor postergado
Beijo afogado
Na ânsia muda
Desnuda
Fazer-te minha
Alforria
Quase sinto
Quase minto
O mito
Convir é vir
Com a intenção de ir
Mais vale
Um árido plano alto
Que uma cordilheira
De imundícies planas
Rodas
Mas não paras
Nesta minha cadeira
Aleijado de teu afago
A pena que escreve
Não alimenta
É a ave da pena
Que mata a fome ―
Dá liberdade
É verdade
Que a vejo nua
Mesmo assim
Vestida de indiferença
Quando cortas
A carne que tremita
― e frêmita ―
Agonizo em olhos teus
Morte sob perspectiva
Assim eu sei
Que te dei prazer
À ilusão da tua cama
Deito-me entre penas silenciosas
Mato talho retalho
Onde está o sangue
Que não jorra por mim?
Quase escrevo teu nome
Quase acabo com a poesia
Quase mato o escritor
Quasimodo