Visitas

E chovia cinza aquela água nublada
Caía sem força fininha molhada
Fria como os corações e os olhares
De asfalto e árvores nuas de inverno
― nunca vejo andorinhas no frio ―

Não querendo molhar-me eu por fora
Aguaceiro enxurrada por dentro já sou
Puxei da sombrinha velha rota enguiçada
Porque se a chuva não guarda
Mas dela nos guarda
Então não pode ser de guarda-chuva chamada
Mas guarda-da-chuva
Como sou já solitário que chegue
E afastado das tolas palavras
Prefiro a sombrinha
Essa em que vivo

Aberta a engenhoca com muito rangido
Aletas tortas velho carcomido
Desceu-me do centro à altura do rosto
Uma pequena aranha dessas caseiras
Que se diz: não a mate é azar!
Suspendeu-se à teia
Coisa de palmo e meio
E batia-se-me ao nariz
Conforme empoçava meus passos
E balançava a sombrinha
Que me guardava-da-chuva

Tentei afastá-la do rosto girando o aparato
Mas habilidosa voltava dependurada
Muito frágil a pequena simpática
Insistente eu disse pois bem
Não há por que acabar devorando
Sem fome oito patas e um tórax
Com o dedo encostei na teia

E empurrei-a à chuva
Guardada que estava
Pelo guarda-da-chuva
Mas muito depressa astuta e esperta
Lançou sua teia ao topo do cabo
E voltou a encarar-me
Em agradável balanço
― Atena a detesta já se sabe o porquê ―
Empurrei-a um suspiro
Dois três trapezista
Fez valer o respeito
A sua teimosia

Parei entre poças e pingos
E disse não vais não é mesmo?
E ela brejeira balançou-me um não
Entendi fora eu o intruso
Não ela a estranha
Abri sua casa
Incomodei seu sossego
Por querer da chuva guardar-me
Estar à sombrinha até fora de casa

Eu fiz uma amiga
A amiga uma teia
Os dois à sombrinha
Guardados da chuva

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