Visitas

O oceano ressequido
Dos teus olhos – correnteza
Me naufragam em qualquer praia
Outros seios de areia
Outros corpos de sargaço
Outras camas de estrelas

O som da concha ao ouvido
Ecoa a imensidão vazia
De mim – cavalo marinho
Ao trote de corpos amantes
Sereias de fogo na terra molhada
Que, triste, relincha silêncios

Adormeço de sal e saliva
Acordo fisgado num abraço
E sonho voltar para o mar
Onde sei não serei amado
Mas morto e tragado, afogado
Pelas vagas de orgasmos

De teu corpo abissal
Cessa de inspirar-me
Musa pérfida de amores vis
E cala teus desejos obscenos
Que fazes-me escrever

Que a pena com que me punes
Te trespasse o coração
E tua alva e fria falsidade
Seja morte rubra e caldária

Ah, como arrependo-me
D'ouvir toda rima tua
De versejar todo meu sonho
De paixões e de loucuras

Lanço o pote de tinta
Contra teu duro coração
Estilhaços de poesia
Rasgo tuas vestes
Destruindo toda página escrita

Faço de meu escritório
Cena de amor intenso
Onde, porém, não houve gozo
Apenas o nosso pranto.

Pergunto-me à tua sombra
Quando virás a me amar

Quem sabe viesse o tempo
Em que o beijo tivesse gosto
O abraço tirasse o fôlego
E o olhar refletisse cores

Ninguém pode dizer
Ao certo
Que tonalidade de céu
Divide a noite do dia...