Visitas

Sai a sereia do sal
Suada ao sol
Traz os suaves seios
Na sinuosa silhueta
Sem saber
Que deixa seca
A boca
Sem beijo nem saliva
Do marinheiro
Que te seca
E não se molha

Mais valia morrer pelo canto
E não vê-la
Que morrer por contemplá-la
E não ouvi-la
Dizer-me
Não te posso, não te quero

Bócio, desespero
Dispo a ti de todo verso
Que um dia dei-te
Em teu colo imerso
Bêbado do leite
— Lêvedo deleite —
Que hoje aflui reverso

Que um dia, de novo, se deite...

Não!
Tomo à força cada rima
Que já te fez muito mais bela
És agora a vindima
De vingança — ah, sequela!
Por não teres falecido
Nem tampouco enlouquecido
Da poesia e do poema
— Suprema anatomia! —
 De que já te revestiste
Vil, fingiste

Não pude ser a pena
Que matou-te
De poesia
Hei de ser a cantilena
Que te chora
E te expia
É insone o sonho
Sonâmbulo
Perâmbulo
Vaga pelo sono
Perpétuo
De que não acordo
Espero
O teu Juízo Final

No meu descanso
Exausto
É sonho ou pesadelo?
Ininterrupta hipnose
Onirismo de outras mentes
A tua

Acorda e me deixa em paz!
Deixa quem no outro mundo
Jaz

Vivo de outros sonos
Sou de outras o sonho
Vigílias

De quem somos
O sono
Eterno?
Às vezes me confundo
Entre o coveiro e o defunto
Quando enterro as esperanças
E me soterro de lembranças

Só a coruja
Que perscruta
Talvez saiba a diferença
Entre a dura indiferença
E a bruta
Garatuja

Nascer no cemitério
— a morte toda pra viver
Morrer no batistério
— a vida inteira pra morrer

Eis o mistério
De nunca te pertencer
Quando o azul é imaculado
Não pratico meu ofício
Teus olhos azulejados
Não me pedem sacrifício

À noite se a lua é nova
E a escuridão o mundo cega
As trevas que enchem a cova
Dizem: fica em paz, sossega

Mas se o céu desbota e alva
Já posso deixar o ócio
E vê-la com toda a calma
Sem mais nenhuma salva

Quando vai a lua alta
E ilumina vultos no breu
Vislumbro-te à ribalta
Estrela no perigeu

Caço nuvens, arredias
Cada vez que repudias
Escrevo o que nelas vejo

...ninguém ouve o que solfejo...
Não era pra ser poema
A prosa que não tivemos
A palavra blasfema
Tudo o que não vivemos

Não era pra ser poesia
Que rasga afiada o peito
— e o papel
A rima limita — heresia!
Torna o dizer rarefeito
— Tropel

Cada verso que escrevo
Eu não...
O que sinto e transcrevo
Em vão...
Ah, esse ofício tão servo!
Aflição!

Não era letra, era beijo
Não era estrofe, era abraço
Tudo isso é um seixo
Cada linha é um fracasso

Era só pra dizer...
Frente a frente dizer...
Que eu, que nós, que você...
...
Cadê?
Percebo o corpo
Vejo o dorso
Percevejo

Pico, coça, cata
Não me acha
Escondido no colchão

É tarde, já te amei

Percebo a boca
Beijo o seio
Percebeijo

Toco, roça, arrebata
Me encaixa
Nalguma curva, violão

É cedo e eu já voei
Mato o tempo
O tempo morre
Quem socorre
O moribundo?

Passatempo
Passa, tempo!
Ai, que um dia me arrependo
De não ter tido um só segundo

Contratempo
Contra o tempo
Ninguém mais encontra tempo
Pra ter tempo de encontrar-se

Tampo o tampo do relógio
Minha sorte pressagio
É de morte o sortilégio:

Morreu de não ter tempo
De ver que não tinha tempo
E quando chegou a hora
Já era (,) tarde demais...
O leite da vaca
Que foi pro brejo
Talha e o queijo
Não corta a faca
Mas corta o beijo
E o pão
Do trigo
Que deu-se à vaca
Que pasta o pasto
Antigo e gasto

Eu da minha rede
Da cerca o galo
Os dois de cima
Nóis assuntava:
Na grama verde
O caipira capina
Come o cavalo
Mastiga o burro
Baba o bezerro
Cisca a galinha
Do velho casmurro
Faz-se o enterro
No fim da tardinha

O engenho é de cana
A cana é de açúcar
Também é de cana
O dono da venda
Que vende fiado
Mas desconfiado
E fica sem renda
Nenhuma
Na carapuça

E roda a moenda
Aqui na fazenda
A vida da roça
É que nem carroça
Não tem pressa
Nem apressa
O passo
Acusei-te, fiz-te ré
Não hesitei nem tive dó
Pus-me cá e a ti pra lá
Fomos cada um por si

E não voltei a ver o sol
A escuridão do céu temi
Quase esqueço a tua face

— Não, mentira, já esqueci —

Restou a nossa canção
Com cheias melodias
De fusas alegrias
Que ainda canto com passos

— allegro ma non troppo —

Da minha janela
Eu via as laranjas
Nos pés de laranja
Laranjeiras lá longe
Nos laranjais
E a vida era doce
E o doce era bom

O cheiro do mato
Do pasto, da planta
Da flor e da vaca
Do barro e da água
— porque a água tem cheiro
Não importa a ciência
E sim a lembrança —
Rompiam de vida o nariz
A mente de Deus
Os olhos de luz
As minhas correntes

Certa vez choveu forte
Chuva de morte
Que bicho tem medo
Raios no céu
Rasgam nuvens de chumbo
Trovões ensurdecem
O silêncio da alma

Da minha janela
Eu via as torrentes
E as enxurradas
E os pés de laranja
Aprenderam a nadar

Por que a chuva que chove
À noite
É pior do que a chuva que chove
De dia?

A água é a mesma
A promessa é a mesma
A praça se afunda
A igreja se lava
O gato se afoga

Da minha janela
Eu via as laranjas
Pesadas nos caules
Pequenos soizinhos

Mas isso foi antes
Da chuva que chove
De noite e de dia
De dia e de noite
Apaguem-se as piras
Extinga-se o fogo
E calem-se as liras
Rogo!

Morreu a musa
Morte difusa
O compasso gira
Meu norte tira

A vida prefere
Mira, atira e fere
A mim, mata
Vira (lata)
Diga
Por que escolheste ser a inimiga
Se a cama sempre foi a nossa amiga
Ainda que teu corpo contradiga

Siga
Com a tua decisão e desabriga
Meu peito à agonia mais antiga
A solidão que o coração mastiga

Briga
Me mata, me maltrata, me maldiga
Mas peço por favor não me castiga
Com essa indiferença que me intriga

Desdiga
Que um novo amor amar a ti obriga
Não deixa-me refém desta fadiga
De ver minh’alma suplicar mendiga
Mesmo efêmera
A fêmea
Deixa-me enferma
E febril
A alma — gêmea?

Fármacos em frascos
Tão fracos
Quanto a fragrância
Que deixas
Não cessam o sofrer
— só o sorver —

A cada encontro
— efemérides —
Frêmitos frios
Frágeis calafrios
— calabouço —
Frenesi
De ti

Causa mortis:
O beijo
Hora do óbito:
O momento primeiro
— e derradeiro —
Em que
Te vi

Gueixa
Deixa que as madeixas
Se percorram
Com a mais sem vergonha
Das modorras
E risonha
Ilumina o fundo da minha masmorra
Mas não morra
Nunca morra

Gueixa
Deixa que o suor
Vire riacho
Como as gotas
Da chuva - temporal
Acariciam o cacho
De uva - sazonal

Gueixa
Uma só tímida queixa
Que não mexas
Nunca mais
Em nada mais
Que de menor te faça

E em embaça, embaraça
E me beija
Em shhhhhhhhhhhh... lêncio

Perdoa, você sabe como é
Essa deliciosa sina, ser mulher
Amar e desamar, simples assim
Ser incompreendida até o fim
De cada amor, de cada estrada
De cada um

Talvez seja só eu que não aprendi
A ser a Colombina do Arlequim
Nem sempre eu sei dizer o que se passa
Quando você me abraça

Me entrego sem razão ao teu querer
É grande o medo de te perder
Não liga, desconversa e disfarça
Mas ama esse meu louco disfarce
De ser pra sempre a incerteza
De ser a tua amada e arrebatada
De paixão, amor e eterna
Profundeza
Ah, moça
Adoça
Essa poça de vinagre
Acre
Que amarga earde

E roça
(na cidade)
Tua pele felicidade
Na minha cínica face cinza

Todo amor é só questão
De espaço
Quando não se cabe em si
Se transborda

Só a ti não invade
Se fosse a água salobra
Das lágrimas
Talvez...

(estrofe alternativa)

Só a ti não completa
Até a boca — seca
Com a água salobra
Com que te choro
Fechei a torneira
Desceu a goteira
O pingo pinga
Respinga
A pinga é de cana
A cana é de açúcar
Pede o pinguço
— Pinga mais um
E o pingo pinga
No ponto e nos "is"
Fecha a torneira!
Olha a goteira!
Gato pingado
Café-com-leite
Mais gato ou mais pingo?
Mais pinga
Mas pinga, hein!
Lá vem o pinguim:
— a conta
E fim
anseio a taça
o vinho é tinto
e à meia-taça, o seio
branco, rosé

a sede roça a garganta
seca
a seda cobre — é manta
e peca

teu rosto atrás de mechas
o corpo vislumbro em brechas
incompleta a plenitude
do desejo - a inquietude

dissimulas sorrir
arriscas despir
me fazes pedir
parar de tentar-me
ao intento supremo
de beber-te o copo
E o corpo
inteiro
Me entorta
Exorta a não cruzar
A porta e pede
Implora
Talvez mais meia hora
De mentiras macias
Como os travesseiros

Suspira e arca
O corpo, a anca
A ponte que atravesso
Da qual me jogo
Ao jogo de te ver do avesso

Arfa desenfreada
Sobre a fronha esgarçada
E amarrotada
Com que te amarro
Desgrenhada
Ao pé da cama

E chama, clama
Que o desejo que te assola
Esse corpo de viola
— e rebola —
Rebenta logo num orgasmo
E o espasmo desregula
Tempo e espaço
E o abraço é o que nos resta

Agora deixa que te caia
Uma madeixa pelo ombra
E essa vista se transforme
Em meu melhor assombro

E que eu nunca mais
Te subtraia
De nós dois
(inspiro) (expiro)
tateio no escuro
taquicardia

(inspiro) (expiro)
hiperventilo
no silêncio intranquilo

(inspiro) (expiro)
claustrofobia
incerteza, agonia

(inspiro) (expiro)
(inspiro) (expiro)
respiro profundo
me afogo, me inundo
de ansiedade
me mata a saudade

(expiro) (inspiro)
(inspiro) (expiro)
falta-me o ar
foge-me o chão
fere-me amar
no vazio colchão

(inspiro) com a boca
(expiro) não mais
lanço-me à roca
fio de linho, de lã, de algodão
fim do caminho, do elã, da paixão

Morfeu que me fie
e a ti me envie
e que o novo tecido
te cubra de vidro

e assim nua te cubro
de nada
Te vi boneca
De pano? – insano
De louça? – menina, moça
De quê? – de sonho, de sono

Na caixa
Manchada
De sangue – exangue

Para abri-la
É preciso
Fechar-me
Ou o sangue
Estanca
Também em mim

Amor de brinquedo
Susto e medo
Do que faz a mente
Com a realidade
Da gente
Quem brinca com quem?

De volta à estante
A paixão é o bastante
Quebro a cabeça, passo o tempo
Procuro a peça que me encaixe
Onde eu me ache e cesse
Todo o descabimento
De não caber no teu armário
E de que não me vistas
Pois não vês as vestes
Só o cabide que pendura a lide
De querer por ti ser visto
E vestido
De noiva, de festa, de luto ou de veludo
O tecido não importa
Quando a tesoura corta a linha
E a foto de família
Que jamais se tirará

Tenho o número de letras
Mas não sou a palavra certa
Das tuas cruzadas
De pernas
Dá-me a dama
Qual tu queres?
A de copas
Está casada
A de espadas
Foi à guerra
A de ouros
No mercado
A de paus
A dar com o pau

Dá-me o rei
Qual tu desejas?
O de copas
Se enamora
O de espadas
Prisioneiro
O de ouros
Foi ao banco
O de paus
A meio pau

E o que me dizes do valete?
Qual dos quatro?
O de copas
Mulherengo
O de espadas
Duelando
O de ouros
Na falência
O de paus
Quebrando o pau

Que sobrou?
Do ás ao dez
E o curinga?
Ninguém quer...
Bate à porta a madrugada
Traz com ela a bem amada
Iluminada de lua alta
Vestindo o que a mim faz falta

Entra sem cerimônia, abusada
Encontra-me à tinta derramada
Cochilando a sonhar com ela
Em meio a uma trova singela

Sei que a mão que afaga
O seio que roça e provoca
A perna que pela minha vaga
É ela que em mim desemboca

No entanto não me acorda
Sabe bem que se eu desperto
Não nos temos mais por perto
Eu esqueço, ela recorda

E passa o tempo esse chamego
Até que vai-se a madrugada
E vem a manhã apressada
E leva a desassossegada

Desperto com a claridade
E vejo terminada
Com outra caligrafia
A poesia interrompida
Caco de coco quebrado
Cato — é de vidro a sapucaia
Voa, jandaia, avoa
Que o jacaré sai da lagoa

Uma onça pintada d'aquarela
Eu vi, vi nada!
Correndo atrás do saci perneta

Preta é a mariposa
Colorida é a borboleta

Conta João Caboclo
A história do tronco oco
Donde se esconde o licantropo

Eita que na mata adentro
Não entro: mata!

E o tatu,
Cabe no buraco da estrofe?
Cabe ele a cabeça do avestruz
Mais um prato de cuscuz

Trova boa ribeirinha
Cantei muito no Uruguai
Mas a moça da cantiga
namorei no Paraguai

Esses versos do capeta
Contei só pra Julieta
- morreu aquele Romeu -
Sereia de água doce
Mulher de lágrima salgada
E saber que cada beijo, cada toque
Nunca foi de fato nosso
A pele jamais sentida
O lábio que morreu seco
E o olhar de porcelana
— a íris dos olhos à tinta óleo —
Por trás das máscaras sufocaram

Quem de fato nós amamos
Se é que de fato nos amamos?
Por quem suspirava tua maquiagem
Para quem vestia minha melhor fantasia?

E agora que nos fomos
Para nossas realidades
Enquanto nos restam a sós saudades
Ficaram juntas e entrelaçadas
Nossas máscaras guardadas
Na mesma caixa desbotada

Serão elas e não nós
A sentirem nossa falta
Mas isso também seria
Um amor vazio de ribalta
Bilhete de Dispensa*

Caro chefe estou escrevendo para dar notícias minhas
Nesse momento em que eu escrevo, acho que a morte se avizinha
Meu corpo todo é hematoma, meu rosto está feio de ver
Mas lhe escrevo este bilhete para dizer, por que hoje não vou comparecer

Do décimo quarto andar tijolos tinha que descer
Mas só jogá-los para baixo bom não parecia ser
O capataz mal humorado sugeriu de forma rude
Que eu teria que levá-los pouco a pouco amiúde

Descê-los dessa forma era muito devagar
Então icei um barril grande, pra com uma corda segurar
Mas na pressa de fazê-lo eu mal pude perceber
Que o barril com os tijolos pesava muito mais que eu

Do chão desatei a corda e o pesado barril caiu
E eu me prendi a ela e ao contrário então subi
Rápido como um foguete, conformado percebi
Que na metade do caminho encontraria com o barril

O barril quebrou-me o ombro tão veloz que ele caía
Cheguei ao topo e com a cabeça quebrei a maldita polia
Ainda atado à corda quase desmaio com a pancada
No chão metade dos tijolos do barril foi espalhada

Bem, quando esses tijolos foram lançados do barril
Eu pesava mais que ele, e lá vinha o projetil
Amarrado ainda à corda desci rápido ao chão
E caí sobre os tijolos espalhados de montão

Eu gemia arrebentado, “o pior já foi” pensei
Só que o barril chegou lá em cima e na polia ele bateu
Choveu tijolo sobre mim e eu quase apaguei
E assim atordoado a maldita corda eu soltei

O barril bem mais pesado então desceu uma vez mais
Caindo sobre mim, debilitado por demais
Quebrei o braço e três costelas e só me resta dizer
Que eu espero, possa compreender, por que hoje não vou comparecer


*baseado no original inglês interpretado pelo grupo irlandês de música folclórica The Dubliners, The Sick Note

Sei eu melhor que tu
O que buscas na escuridão
Não buscas nada que não seja
Muito menos o que não esteja
Mergulhado na solidão
No escuro de um peito
Vazio e frio sem coração

Vens de longe onde nasce a luz
Com a lanterna do remorso em riste
Mas não é bastante a que te conduz
Pela terra amargurada e triste
Estás agora também na penumbra
Tão perdida e condenada quanto eu

Eu daqui vejo-a luzir
Chego mesmo a ver teu rosto
De relance, quase um vulto
A ironia é que não podes
Vislumbrar o que procuras

Nem sei se gostaria
De por ti ser encontrado
Não sei bem se à meia-luz
O teu sorriso... assustado...

Eu me calo, silencio
Não será teu próprio nome
A me denunciar

A luz que trazes à lanterna
Já começa a apagar

Vem, fica, comigo no escuro...
Não, pára, afasta os dentes
Aproxima a boca e diz
Que sou teu alho e tua cruz
E mesmo assim me queres

Vem, sai da luz
Me acompanha à sombra e diz
Que meu abraço gelado
Te esquenta mais que o sol

Mesmo morta ainda queres vida
E me persegues com a sede rubra

Mesmo vivo queres o beijo frio
E me procuras com temor de gelo

E se te encontro em castelo antigo...
E se te acho ao nascer do sol...

O que nos separa não é o dia
O que nos impede não é a noite

Preciso tanto do teu sangue frio
Eu morreria pelo teu sangue quente

Vai, volta pra tua tumba
Leva teu corpo cinza
Se realizo meu desejo
Só com um beijo não me satisfaço

Vai, esquenta tua pele viva
Foge da solidão, escapa do meu silêncio
Que só com um sanguíneo gole
Tampouco eu pouco me complemento

A boca que morde
É a mesma que diz te amo
A mão que afaga o colo
É a mesma que me esconjura

Até amanhã?
Até à noite.
Ao meio-dia?
À meia-noite

Sempre meios
Jamais inteiros
Abolo todo amor
Que não coloro
Com a tua aquarela
Demolo todo corpo
Que não esculpo
Da tua pele

Bano qualquer beijo
Que não discirna teu
No qual submerja
E se exaura meu desejo

Explodo esse teu não
Doo no teu coração
Ruo as fantasias
Floro as agonias
Desmeço-me em tuas medidas

Sou teu amante defectivo
Foi da última mordida
A gota caída
Que roçou os lábios
Pendurou-se ao queixo
Pulou aos seios
Rolou dos mamilos
Ao ventre
— tudo é tão alvo e tão nu —
Aninhou-se no umbigo e caiu
Expulsou-a o espasmo
Do liso ao emaranhado
E aos lábios (de novo?)
Percorrendo estradas
Criadas por ela mesma
Compridas coxas
E fez da canela cereja na cor
Cujo gosto deixara à língua
Minha o mesmo
E no pé de fetiche
Por fim feneceu

Matou-me
Mas fiz da vampira
Meu prato de sexo e sangue
Vestia um morango
E enrolava os cachos
Do cabelo com os dedos

E estávamos ainda
Na época dos pêssegos

Florada
A faca
Na vaca
Derrama o sangue
No verde que rubro fica

A nuvem
No céu
Derrama a chuva
No árido que inundado torna

Você
Em mim
Derramam-se lágrimas
Nos corações que solitários morrem
Das tantas velas que acendeste
— Iluminaste a sombria alma tua —
Achei-te finalmente agonizante
Como a chama de cada uma
Prestes a sucumbir
Quase a desistir
De mim

Eis o fim
Portanto a vir
D'eu cego a perseguir
O que se movia como pluma
Ligeira, escorregadia, errante
— Lembra-te do nosso "me possua"? —
Para livrar-te do que te veste

Primeiro amou-me
Pelo som que faziam
Meus dedos macios
Ao braço do violino

Primeiro te amei
Pelo som das palavras
Que tocavam macias
O meu coração

Depois éramos dois
Instrumentos de corda
Nas mãos tuas e minhas
As duas meninas
Compondo o rondó

Até que me roubaram
Tua partitura
E eu passei a tocar-te
O que sempre soube
De cor

A última nota tua:
adeus
A última nota minha:
um dó
Bem maior
Do que o teu coração
Em escala menor
Não é pelo teu sangue
É pelo teu cheiro
Pode ser pelo perfume
Que às vezes não há
Senão o seu mesmo
O mesmo cheiro da fêmea
Que um dia fui
Ou que ainda sou...

Isto de sentir o sangue
Que busquei com os dentes
Antes de sentir o gozo
Que busquei com os lábios...

Da vida sinto falta do tempo
Que tinha entre todas
Que com tempo me tinham
As duas, as três...

Hoje da sedução vou ao sangue
Preciso domar-me na morte
Como nunca domei-me em vida
O desejo por elas, maior
O amor e o carinho, menor

Preciso dos teus espasmos
O sangue quente por dentro
Antes de derramá-lo
Pra fora...
"Antes de conhecê-la
Julguei ter escrito poesia
Agora que te me mostraste
Sei que nunca fora poeta
E poeta nunca serei
Porque é-me agora impossível
Descrever-te ou escrever para ti
Quiça sobre ti
Tudo aquilo que em ti eu vi"

— D. Tadeu Laras

(D. Tadeu é menestrel e ex-trovador-mor da corte de El -Rey D. Dinis de Portugal, e personagem central no livro O Romance do Horto, de António Corvo)
Há versos cujas pernas
Da musa o poeta só imagina

Há versos de seios e lábios
Que o poeta beija no ar

Há mãos, dedos e pés
E carícias que só quem sente é o papel

E há sorrisos e olhares
De tantas musas ingratas...

Mas há um poema apenas
Da presença corpórea e indelével
Da musa que àquela noite
Confessou ao poeta
Ter o sono perdido
À luz da fogueira
Ao agouro dos mortos
Ao descaso do sono

Mas vens insistente
De leve, esquiva
Provoca, se enrosca
Roça e arranha - suave
E no colo me ordenas
Carícias e afagos

E sonho com o dia
Em que venhas à noite
Assim como a gata
De quatro, em pelo
A querer-me um colo

Mia senhora
Mia felina
Eu, ronrono

— D. Tadeu Laras


(D. Tadeu é menestrel e ex-trovador-mor da corte de El -Rey D. Dinis de Portugal, e personagem central no livro O Romance do Horto, de António Corvo)
Hoje sobre ti eu escreveria
Qualquer coisa que falaria
De como me ferem seus olhos
E me cortam suas unhas
E me enfeitiçam suas curvas

Mas já no primeiro verso
Veio à janela um gato
Que acomodou-se ao beiral
E decidiu desafiar-me o astuto
Como sobre ti não mais escreveria

Era negro e, portanto, à noite
Invisível - Alice, a quem mais amo
E para quem mais sorrio
Tinha os olhos azuis - às vezes
E amarelos: os teus, das íris redondas

As unhas debaixo do pelo macio
Que era como fazias
Por causa de uma mordida minha
Ou duas, às curvas
Como bem sempre gostaste

Deixei a pena ao tinteiro
O gato matreiro sorrir pareceu
Bocejou, esticou-se e empinou
Só para depois levantar-se
E deixar-me a sós com a janela aberta

A pena enfiada à tinta
O poeta a perder seu poema
A aragem e o fantasma de um gato

Era fêmea, aposto um verso!
Dizem que há nas estradas
Vagando em silêncio e profundo pesar
A alma danada de um cavaleiro
Que viu seu amor verdadeiro
Reconheceu-a pelo olhar
A passar-lhe ligeiro
Tão rápido em trote fagueiro
Que este estava à desmonta
E segui-la não pôde
E nunca mais deram-lhe conta
De seu paradeiro
Os únicos olhos que lhe fizeram
Amar...

-- D. Tadeu Laras

(D. Tadeu é menestrel e ex-trovador-mor da corte de El Rey D. Dinis de Portugal, e personagem central do livro O Romance do Horto, de António Corvo. Mas isso muito depende de quem lê o livro. E do próprio livro)

O Romance do Horto, de António Corvo
Foi só um olhar cruzado
Fogo amigo
E soube que nada mais era preciso

Só precisaste desviá-lo
Arqui-inimigo
E soube que nada mais era preciso

Mal chegas — e eu com sono ainda
Me perguntas: teu café?
Quero-o eu com leite
Quente
À boca 'inda insossa
Com gosto de amor de ontem

Te petisco, te fatio
Te besunto de manteiga
Bandeja à cama
Burlesco desjejum de pele
Meio ao sono
Meio à vigília
É pão isto que mordo?
Não tens nenhum puder
Em oferecer-me o iogurte
Nem o creme

São morangos os lábios
Que me engolem o nariz?
Passa o guardanapo
Vermelho rendado
Com gosto de sal
E me limpa desse te gozo
Com o que me empanturrei

Agora fica e dormita a meu lado
Pode ser que eu queira
A colação antes do prato
Quente no almoço a ser servido
Carne impura, profana e má
No espeto
E mal passada
Quando inverno,
Encontro ao solo a cor tua alva
Mas não encontro o corpo
Que quente derreteria
A neve que quas' me cobre

Se privamero
São tantas as cores e as flores
Que confesso me perco
Entre cheiros que não são teus
Ainda que estivesses ali ao lado

E eis que outono
Mas já não tenho
O viço que te cobriria
De verde
Sou pálido poeta âmbar

É no verão que te faço sombra
Sob a qual desnudas o colo
Folheias o livro
Que conta as histórias
Em que não estamos
Não vês
Mas a cada vez
Que passas a meu lado
Lanço-te do alto
Deste meu sonho inflado
De paixão, tão enganado
Uma folha, um poema
Um coração desenhado

Mas vais tão mais veloz
Que a poesia que te lanço verde
Cai no chão, amarela e seca
E fico só
Rodeado de folhas — e de papel
À espera da estação
Com que então terei mais folhas — de papel
E tu, se passares, mais poemas
Meus pesares...



Turvo as curvas
Curvas turvas, soturnas
Sombrios lampejos
Podem ser os teus olhos
A romper os meus
E se forem mamilos
A romper os seios?

É o vinho derramado ao peito
Teu corpo atirado ao leito
Ou a lingerie tua
Sobre a qual me deito?

Ou teu corpo sobre o qual me deito
O vinho derramado ao leito
A lingerie atirada assim, desse jeito?

Ou é o corpo que bebo
Derramado de vinho
E tingido de lingerie
Sutiã meia-taça?

Quartos de motel
Noites de bordel
Até na rima
Nosso amor é sujo



Quando fiz-te ruiva
Das madeixas outonais
Buscava em cada sarda
O desenho da minha
Constelação

Mas as estrelas só podiam
No céu à noite brilhar
E fiz-te negra
Infinitamente amor
E perdi-me em teu sorriso imensidão

Surgiu um sol de raios áureos
Amarelos, incandescentes fios
Cegou-me a lourejante
Luminescência
E só pude entregar-me à tua luz

Que com o tempo amansou
E do calor abrasou
A pele e acabou o ardor
De que tudo a morenou
E moreno o amor ficou

Tens tudo o que todas têm
Vês tudo o que todas vêm
E nenhuma me vê a mim
Que te enxergo tão plural
Tão inalcançavelmente
Descomunal...
Quando imagino
Alucino toda sorte de visões
De terrores, deformidades
Sinto medo nos corredores
De rostos inexistentes
Ouço vozes, receio
Abrir os olhos
Meu instinto é o de arrancá-los
E amar a loucura

Meu ansiolítico era o teu beijo
Lembras quando eu sonhava
Contigo
— Às vezes a teu lado —
E eram ganas de despertar
Só para ver-te e sentir
O gosto da tua realidade?

Hoje ao sonhar
Contíguo
— Às vezes durmo só para isso —
Desejo não mais acordar
Pois não posso mais ver-te
Não és mais tu a minha realidade

Vem, corre
Que se perde o tempo
De sermos felizes

Vais, morres...
Que demais fui lento
Com as meretrizes

Agora o relógio pia
E a coruja marca
O tempo de anoitecer

E na manhã seguinte
Novamente
Te perder
Essa solidão é tanta
E tamanha
Que não suporta nem mais a dor
Pois então não seria solidão
Seríamos a dor e eu

Essa solidão é tamanha
E tanta
Que se fosse dar-lhe um nome
Daria o teu
Mas também assim
Não mais seria solidão
Seria o teu nome junto ao meu
E junto a mim
Nada mais deseja estar
Ah, que distância...
Em que instância
Voltaremos a nos ver
De longe
Ao toque dos olhares frios
A provocarmos calafrios
Cala, não responde!

O tempo que perpetua
Toda a tua figura nua
Ainda tatuada
Em minha pele
Escalpo de amor e ópio
Ilude-me a droga
Que já me falta ao sangue:
Teus fluidos

És tão mais bela em preto e braco
Cor funérea da memória
É mais salgada em meu pranto
Que já escorreu por tuas dobras
De sinos
De sisos
Morte e vida
Indecisos

Tomo coragem e voo
Mas não tenho asas
E me resta o chão
Que é o fim
Desta paixão
Senta. Não! Fica
De pé te vejo os pés
E as canelas
Às barras da camisola
Branca é a tua pele
Quem te aqui chamou
A essa hora da noite
Do dia, da vida?
Sabes que sonambulo
E perambulo pelo que é sonho
E me vens à sala, de pé, do nada
De um susto
És a única luz no escuro da casa
Que querias, matar-me?
De novo? Que de mim queres mais?
Teus olhos que não se apagam
Pisca! Não! Que me rebento
Na ilha de uma mesa
No atol de uma cadeira
Naufrágios de sofá
Por que não te temo assim?
Por que amo esse teu fantasma?
Aí, parado, me olhando vazia...
Nem um sorriso pela visita?
Me velas? Te velo eu?
Quem morreu, afinal?
O amor jaz à cama
Nós, à sala
O horror de pé
À mostra na mortalha
Tão branca, tão linda
A franja e a moldura lisa
Do preto que risca o branco
Do rosto, do linho
Vem à varanda?
Faz frio, estás linda
E eu que não posso voar
Escrevo na madrugada
Porque é nela que está a coerência
Da sua inexistência
E de nenhum meu leitor

Essa solidão gelada
Tão condizente com tua frigidez
E aquele copo de vinho frio
Aguardando o orgasmo
Na geladeira

É fechando os olhos
Como fechas as pernas
Que busco alguma rima
Em teus grandes lábios
Que não se abrem
Num meu sorriso

É no silêncio que escrevo o verso
Que te faz ruídos
Que te traz grunhidos
Que me gritas o nome
Que só eu escuto

É quase dormindo
Que quase te amo
Sem ter a certeza
De que não te amei
Nem de que te amei

Musa puta de fino trato
Bem dizem que não se pode
Beijá-las na boca suja
Que me xinga
De poeta
A escrita com rima e poesia
Essa que achas tão bela ambrosia
Ah se soubesses o quanto é resto
E réstia de tanto o que me violenta
Não mais a verias poesia
E nem poesia haveria

Vítima, cadáver da surra
Afetiva e insana que levo na rua
É mais um mosaico essa estrofe
De hematomas e cortes
De tudo o que vi e jamais tu verás
Do que nada senti
— Todos experimentaram

O melhor destas linhas
Ficou no não-dito
O melhor do teu corpo
Ficou no inaudito
E o poeta maldito
Só à sombra
De quem só o assombra
O caminho da lágrima
É o carinho na pátina
Deste rosto que já foi tela
Da tua arte e hoje
Perece à vela
E às rosas
De um quadro
Que ninguém pintou
Arquiteta o poeta
A planta do amor perfeito
— também somos jardineiros —
Os cômodos onde dormem sonhos
A sala em que o coração
Recebe frio e calculista
Visitas inesperadas
— Não correspondidas e apaixonadas —
Os banheiros, sexo e chuveiro
Cortinas de vapor, desenhos no blindex
E a cozinha onde se ama sobre a pia
Erótica alquimia, tempero de gente

Se a sua engenharia
— o amante é quem constrói —
Aceitar o meu projeto
Viveremos para sempre
Sem vergonha
Um duplex
Se minto e digo o que sinto
Por ti, mentira maior,
Deixo de escrever o que invento
E tento, na tinta
Sobreviver ao que não é mais vivo:
O que sinto

E morreremos todos
De amor
De mentira
Despediu-se
Despida
Despistou-me
Na nudez pedida
E perdida
Na fantasia
Vestida
Das minhas
Investidas

Tanta pele ao chão
Tanta roupa à cama
Que já não sei onde durmo
Nem onde e quando amo

Retalhos por toda a parte
No fim das contas,
Do poço e do arco-íris,
O melhor mesmo
Era não ter começado
A amar-te enquanto chovia
Luazul

Se eu pudesse escolher o dia
— nem todos têm essa sorte —
Da minha própria e tão minha morte
Teria escolhido à noite
Noturna de lua cheia
Fantasiada de lua azul
Azul pra fingir que é dia
A noite de minha morte

Nessa noite de dia fingida
Essa lua de sol tingida
Egoísta só dela teria
Olhares e amares por terra e mar
E eu mesmo 'inda que morto podia
Fingir que era por causa do céu
Azul de lua amarela
Que sozinho fiquei à espera
Da pá de cal do coveiro

Se eu pudesse escolher o dia...
Será mesmo questão de sorte?

No fim - que nunca chega
Fica claro, declarado
Que o camaleão é invisível
Por essência e natureza

Quem arrisca com certeza
Afirmar a cor e o tom
Que realmente cobre a pele
Do mentiroso camaleão?

Se me insiro em todo quadro
E quando quero, me contrasto
Perco o referencial
Do que sou, do que é verdade

Eu furtivo, hesitante
Realidades delirantes
Sou ou estou nos sonhos
De quem acha que sou real?

Diletante camaleão
Brincando de existir
Há muito eu já desisti
De ter uma só paixão
Deixo a triste música ao fundo
Do poço em que cheguei
E ao que já me acostumei
Testemunhar minha última irrelevância

Na solidão escura da despedida
É tão clara a imagem
Do teu rosto furtivo ao solo
Num parque em que nunca estive

Não deixo ninguém (triste)
Amar-me era um desses fardos
Que nem o sangue
Quis para si abraçar

Foi quando parei de abraçar...
Infidelidade:

Teu retrato ama-me mais
Do que tu mesma
Ao posares para a foto

Dele, tenho só sorrisos
De ti, a lembrança deles

Eu podia ter-lhe falado à rua
Mas estava tão nua
De mim
Que preferi não cobri-la
De qualquer outra coisa
Que viesse a lembrá-la
De mim
O invisível é todo aquele
Que morre de saudade
De si mesmo

É aquele que já não se vê no espelho
É aquele de quem ninguém mais fala
Nem quer falar com, nem que falar para

Nenhuma preposição já o pode alcançar
Nem ele nem elas são mais essenciais
São todos encontros acidentais

O invisível não é mais que um fantasma
Uma sombra, uma má impressão
Para quem apagou-lhe todas as velas

Não o ilumina a luz dos olhares
Pois ele reflete os especulares
Negrumes das almas
À luz tão visíveis

O invisível escreve para ninguém.
La mer, le mar
Il mare nostrum
O alto mar
The open sea

Só a tua
Salgada língua
Que não me banha
A costa à míngua

Naufrago a seco
No meio de tanta
Água na boca
Amares afora
As páginas, enquanto as viras,
Correm com o tempo
Da tua vida
Que se esvai em capítulos sonhados
Ou em versos mentirosos

O livro, quando o fechas,
Terá acabado como o tempo
Que perdeste a ler a vida
Alheia e o amor de outrem
E a dor fingida por que choras

A literatura é essa escolha
Que o marcador de livro te impõe
A vida de papel e tinta
ou
A vida de corpo e alma

E lembra-te destas quadrinhas:
As letras te contam a vida
Que poderias ter vivido
Se não apenas
A tivesse lido

Escolhe bem, portanto,
O livro que queres ler
Ou queres tu mesmo ser
O livro de outro alguém?
E viu que secaram-se-lhe as lágrimas
E, desse modo, decidiu-se a ir embora
E foi como em vida viveu, por assim dizer
Porque secaram-lhes aos outros
Também qualquer lágrima ou afeto
Foi-se, pois, como veio:
A sós

Velaram-no entretanto
Muitas outras solidões
Ao ver que ninguém o pranteava
Decidiu o coveiro deixá-lo
Ao tempo e, de novo

A sós
Aquele rubro ponto final
Encerrou sua vida
Com o mesmo vermelho
Com que se escreveu
à epígrafe

Todas as linhas eram do branco
Do corpo que nunca teve
Capítulos azuis de olhos celestes
Se misturavam ao céu
Em que agora talvez esteja

Um livro transparente
De um homem invisível
Um desejo intangível
Nostálgica ausência

As histórias de amor
Escondidas dos sebos
São bem mais baratas

E raras
Quando compreendeu
Deixou de escrever
Faltou-lhe a vida
Que nunca compreendeu
Mas sempre escreveu
Sentou-se ao piano
Buscou as notas
Tocou a vida
Ouviu-se a morte

E nunca mais...
Que dó maior!
Piano al niente...
Pianoforte!
Foice-tic
Foice-tac
Foi-se o tempo
Veio o baque
Do corpo
E da vida, que se fez?
Fez-se nada
Foice o tempo
Veio o baque
Foi-se o tic
Foi-se o tac


Troncos tortos
Tempos mortos
Insiste a raiz
Em não deixar a estrada
Ainda que leve
Ao eterno lugar nenhum


Se vais sangrar-me
Põe-me então uma maçã
À boca
E serve-me
Sorve-me
Sirva-me
No banquete da tua cama
Refeição de prazeres
Feições de prazer
Afeiçoadas sobras
Do que fomos
À mesa
Eu, com fio.
Tu, confias?
Somos nós
Os dois gumes
Da mesma faca?
Com fio em ti
A ti
Desconfiando
Desconfiado
Há dias em que sangro tanto
Que nem mesmo a página em branco
Estanca a hemorragia
Encharcada de poesia
Cada rima me perfura
E cura
O corpo violado
Caixa torácico-acústica
Em que ritma o coração
Encordoado
Sete cordas de arame farpado
Todas as mentiras
De cor
Que poetizas

Violência silenciosa
Da leitura que me tosa
Destes versos-faca-gume
Por que sangro e te marco
As páginas de rubro

Dois corpos à cama-carne
Jazigo perpétuo e duplo
E do crime a arma
De poemas
Um livro
Terminou assim, num quarto de hotel, escancarada e vazia, horrivelmente oca, abandonada, sozinha. Enquanto jazia no carpete desbotado e mofado com total desalinho, jogada de qualquer maneira ao canto e à mágoa, ele já desfilava com outra que acabara de conhecer pelas ruas da cidade. Sem nenhuma culpa, sem nenhum remorso. Os dois, que tinham passado os melhores dias de suas vidas em países exóticos, em cidades movimentadas, muitas vezes pernoitando até em saguões de aeroportos, nunca mais se veriam, foi o fim, o terrível fim de uma relação de anos a fio. E daquela maneira... Ela, jogada fora como lixo, esquecida de propósito, rasgada. Ele, provavelmente já sem nenhuma imagem dela em suas retinas, agora espelhadas belo brilho de uma nova relação, exibindo-a naqueles mesmos saguões de aeroportos. 
Quem descobriu-a assim, inerte no abafado quarto 404, foi a camareira, que deixou escapar, com a mão à boca, uma lágrima mais pesada do que aquela mala velha e rota já fora tantas e tantas vezes nas mãos daquele homem.
E foi então que a figura de chapéu, a passos lentos, carregando a vida inteira numa sacola rota com rodas gastas e tortas, lembrou a todos os sorrisos e vaidades que tudo passa velozmente, até que as pernas reclamem, os ombros peses e os olhos sequem das lágrimas que não voltam mais...


E foi-se ao mar
Buscar no sal o que a terra lhe negara
Marujo de água doce e de saudade amarga
Foi-se ele e foi-se o barco
Foice ao mar
Voltou só
O barco...


Estação Valsinha (crônica)

Dessas coisas que acontecem uma vez na vida. Não necessariamente na vida da gente, como protagonistas, mas diante dos nossos olhos, como convidados especiais. Era um sábado qualquer. Não, não pode ter sido um sábado qualquer. Primeiro porque era um sábado de outono. Sábados de outono são especiais. São agradáveis, trazem algumas nuvens; nada que comprometa a luz suave dos fins de tarde. Beiram a melancolia dos domingos outonais, que se arrastam pelo chão junto com as folhas secas que derrubaram e que, por preguiça, não recolheram, deixando as segundas mais coloridas.
Foi no metrô, num trem do metrô. Não sei em que estação - à exceção de ter sido no outono - nem por quantas estações passou o trem, sei apenas que aconteceu, e bastou ter acontecido. Cheio de passageiros, o vagão decidiu dar lugar a um casal de jovens adolescentes, abraçados num cantinho próximo à porta. Tão jovens e tão adolescentes que seus uniformes do tradicional Colégio Pedro II cheiravam a recreio. O rapaz, mais alto do que a moça, usava um corte de cabelo moicano, mas ainda havia mechas nas laterais da cabeça. Talvez fosse um corte moicano, não sei mais como certas adolescências são nomeadas. A minha, hoje, tem apenas um único nome, e eu não gosto de chamá-la por ele. E nem dele também. Apesar de senti-los, ambos, ainda...
A moça, de cabelos ondulados, traços bem marcantes, me lembrou uma cigana. Morenas me lembram ciganas. Todas as ciganas são morenas. Há ciganas loiras? Esta era morena. Os dois, abraçados, transmitiam uma paz de nove graus na escala Richter.
Ela, como toda menina-moça, sensual e inocente, mais inocente do que sensual; ou não? Não havia nada ali que maculasse aquele desabrochar, aquele abraço. Poderia ler mil romances, como os li; poderia ler mil poemas, como os li e escrevi; mas nada foi capaz, até hoje, de descrever a beleza do nascimento do amor. Sim, era isso; o que vi foi o nascer do amor. Já vi nasceres de sóis, de luas, de filhotes dos mais variados animais, até de gente. Já vi o nascimento também do ódio... Já fui parteiro. Ou melhor, achava que tinha sido, até ter presenciado o nascimento do amor na sua forma mais pura.
Ele, um rapaz tranquilo. Tão sereno quanto a moça, tão em paz quanto aquele amor. Não vi o nervosismo típico do amor adolescente, talvez porque não houvesse entre os dois nenhuma preocupação a não ser construir aquela paz, aquele beijo que, de repente, veio...
Um beijo tímido, de olhos quase fechados e de boca fechada. Um selinho mais ousado, sem que os lábios se abrissem. Naquele momento, para aqueles dois jovens, não era o tempo de os lábios se abrirem; era o tempo de abrirem-se, primeiro, os corações. Pode ser que eu tenha sido indiscreto. Aquele beijo não era meu, nem nada eu tinha com aquilo, mas, se as flores desabrochassem velozmente, como naqueles documentários, qual de nós não pararia para assistir? Assisti, portanto. De longe, olhando para outros lados... Porque o amor nascituro também precisa de privacidade, ainda que ele não o saiba que a está tendo. E foi possível ver o aprendizado do gosto do beijo. Ah, então é esse o gosto que ele tem? É assim que serão todos? Esse será para sempre? É bem verdade que um lábio ou outro, dele ou dela, possa ter se abrido* e encontrado o outro umedecido - um novo gosto -, mas, se assim foi, não vi, e foi melhor assim. Há coisas que não devem ser vistas: o coração pode se ressentir daquilo que os olhos vêem**, como se diz por aí.
Mas vi quando o beijo cessou e as mãos desobedientes insistiram nas cinturas de um e de outra. E ali permaneceram, tangentes, etéreas, flutuantes. As camisas de seus uniformes talvez estivessem mais apertadas em seus corpos do que suas mãos. E as camisas não estavam nem um pouco apertadas nos dois corpos jovens e esguios.
E assim estávamos todos nós, naquele vagão de parto que cheirava a recreio e mocidade, a inocência e a sua morte, sem, contudo, putrefação alguma. Esquife de cristal. Meio Branca de Neve, meio cigana; meio príncipe encantado, meio punk.
Até que foi preciso deixar o trem e partir, juntos, deixando pétalas, sonhos e brincadeiras de pátio de escola seguirem viagem para a primavera: logo o verão os alcançaria.
Eu, ao sair, tirei algumas folhas secas de outono que estavam por cima dos meus ombros. O inverno me esperava do lado de fora da estação."

** Deixo o circunflexo para que não perca também ele...
* Sabe-se que a forma de particípio para o verbo abrir é "aberto" e não "abrido". Consultando algumas gramáticas e alguns gramáticos, vi que a forma "abrido" foi "abandonada" sem mais nem menos. Eis que um dia disseram: fechemos as portas a tudo o que é abrido e abramo-las para tudo o que já está aberto. Como o abandono parece mesmo ter sido arbitrário, resolvi abrigar o "abrido" e tirá-lo da orfandade gramatical. E os gramáticos que me perdoem, mas na frase em que usei-o, corrijam-me se estiver errado, não lhes soa muito melhor prosodicamente? O aberto, por ser escancarado, perde um pouco da beleza da penumbra em que ficam as coisas apenas abridas, como os lábios adolescentes.
Sócrates: — E o que é o homem senão apenas um tubo digestivo que se desenvolveu a ponto de tornar mais fácil alimentar-se, excretar e reproduzir-se?

Eu: — Comparas o homem a minhocas? Sofisma!

Sócrates: — Não vem o homem, assim como a minhoca, da terra que lhe dá o alimento e para a terra em que excreta voltará?

E, de estômago revirado, lancei-me à terra.
O inferno é o inverno frio
Que queima os lábios
E trinca os dentes
Quando me seduzes
E me deixas só

O inverno é o inferno em brasa
Que congela o corpo
Que coíbe o coito
Quando imagino o abraço
E me desgraço só

O inferno, surda fricativa glacial
O inverno, ígnea e sonora fricativa
Ambas histriônico silêncio
Desse teu erotismo
Labiodental
Ao ver-te ao verde
Trás das grades
Traz das grades
Todo o flerte
Aprisionado e encarcerado
Nessa escura cela e sela
O desencontro ao que me afronto
Entre a luz de dentro tua
E o  breu de fora, crua
Carne viva que transborda
E reborda colorido o vitral
Do verde fora
Ao ver-te agora
Em gozo e choro seminal
Quando te amo e odeio barroca
Luzes de olhares, trevas ao negares
Me desfiguras em informes tintas
Surreal lista de desejos — pesadelos

Se te me conformo, parnasiana
Ausenta-te dos sentidos que te dei
Pós-moderna insignificância
A qualquer relevância aos traços teus

Não respeitas sequer a moça
Galega à fonte qu'esper'o amigo
Qualquer trovador de estrada
Que não seja eu, o de trovas não lidas

Meu expressionismo azul
Não te impressiona
Relação niilista
Dadá

Cro(não)logia
Agora sei que embora musa
Te irrita e te perturba
Que outra qualquer me tenha
Em sonhos e camas que não sejam teus

Sem nenhuma vergonha vieste
Por entre lençóis te meteste
Passando-te por quem não eras
Rainha morta, rainha posta

Assumiste o comando da cama
Não era meu mais o sonho
Me convenceste com o gosto
Do beijo a deixá-la deitar-te ao deleite

Já livres os dois das cobertas
Dois corpos oníricos nus
Bastou que eu quisesse tocá-la
Despertei ou por ti despertado

Se não sonho contigo apareces
Se te aceito no sonho espaireces
E se quisesse fazer-te real?
Qual de nós sonharia com qual?
As folhas que o outono tomba
Tornam âmbar o caminho
Que me leva ao teu coração
De inverno
Se eu te retrato?
Teus olhos - as lentes
Crime em preto e branco
Sombras, testemunhas

Se tu me retratas?
Perdão - não mentes
O juízo das cores
Refém de todos os tons

O retrato na parede
Ainda me condena

Olhos sobre tela
Por um Fio

O fio borda o sorriso
O coração transborda
O amor, à borda
Aborda-me à cama
E trama
O bordado de pernas
Ponto em cruz, crochê
O prazer por um fio
De contas que enfeita o colo
Beijos de bijuterias
Bajulações de abajur

O fio que cerra o pranto
Desenha só risos do olhar
Franze a testa
Prazer rascunhado
Circunscreve-te a silhueta
Meada carnal:
Achei-te o fio!

Por um fio a lua não é nova
A boca não prova
Nem reprova
A tessitura desta trova
Poeta-aranha
Verso-teia

Teus fios emaranhados
Fugidios, coxas-fortaleza
Baixo-ventre-tapeçaria
Penélope, artesã

Pôr um fio à lua nova
Afiada cimitarra
Separados
Desbastados

Por um fio
Soneto Ouroboros

Não sei foi o tempo
Ou eu que parei com o lamento
Mas é raro ver-te na memória
Nem me lembro mais da tua história

A distância, que também é temporal
Desses com torrentes e vendaval
Julga melhor do que ninguém
Quem é para sempre e quem é desdém

Vão-se o rosto, a voz, as cores
Não se liga mais o nome à pessoa
O esquecimento é a liberdade dos escritores

Essa gente sonhadora e à toa
Que sem se lembrar de quem veio com seus ardores
Reescreve suas estórias, e o coração avoa
Devagarandando

Era um dia de final semana num bairro carioca que se esqueceu de que os tempos do Império já haviam passado e todos eram súditos de outro tipo de reinado. Fazia calor e as pessoas movimentavam-se em busca de nada, apressadas para compromissos estéreis e fúteis; era um dia pós-moderno de uma debilidade mental e cultural totalmente normal. Ou era apenas eu, que decidira nunca mais andar depressa, atrás de nada, deixando escapar pelos cantos dos olhos o que realmente importa ser visto e apreciado, e que me proibira de ser feliz com a ignorância santa e sábia das pessoas que preferem à vida aos livros.
E foi nesse passo lento, acorrentado à forçosa prática da filosofia que enrijece os músculos do rosto e faz proibido o sorriso, que vi adiante um morador de rua, sentado sobre uma perna dobrada para cima e outra apoiada no chão, recostado numa fachada de um prédio dos anos 60. Barba grande e por fazer, cabelos cheios e desgrenhados; não vi seu rosto. É preciso ver mais rostos, todos os rostos, quaisquer faces. Ele olhava para um caderno em seu colo, aberto, dobrado, e estava imóvel. Como devagarandava - do verbo devagarandar - pude ver bem a figura, e era alguém a ser visto e contemplado, diferente do que se vê e se contempla por aí. O homem se apoiava, além da perna esquerda dobrada no chão, também sobre o braço esquerdo esticado; na mão direita, segurava uma caneta esferográfica velha. Na página à mostra, da primeira até quase à última linha, uma escrita cursiva que só mostrava círculos, cabidos com harmonia dentro das linhas, como um texto fluido de apenas uma letra e uma só palavra. Quis parar para ver melhor. Talvez fossem palavras. E o que mais revelariam as outras páginas? A catatonia, no final das contas, pode se expressar? Mas não parei. Receei atrapalhar ou incomodar o sujeito. Tive também medo de ele não reagir bem a alguém que, do nada, parasse no meio da rua e encarasse a ele e ao seu trabalho. E segui. Segui devagarandando ainda mais. Fui até onde deveria ter ido e voltei na esperança de encontrar o escritor das ruas, o transcritor, talvez, do único texto possível e viável de todos: os escritos interiores e inacessíveis à nossa vigília patética. Mas, tanto devagarandei que, na volta, não mais o encontrei. Sei que jamais o encontrarei e nunca serei capaz de desvendar os segredos da mente humana, rabiscados enigmaticamente em labirintos circulares, poesia em espiral, como são algumas galáxias.

No mesmo dia, no meu escritório, pendurei um espelho à frente de minha escrivaninha. Agora, quando lanço-me ao ofício laborioso e doloroso de escritor, vejo aquele homem enigmático e sua escrita infinita em meu próprio reflexo. Eu também, escriba marginal, vivendo em minha própria galáxia espiral, abandonado por mim mesmo. A única diferença é que sei o que escrevo e, portanto, não tem relevância nenhuma.

Ao maior dos clássicos, a humanidade provavelmente jamais terá acesso.
Não te posso, dia,
Amar o amor-rotina
Se é à noite, amor-ousadia,
A quem pertenço - cafetina
Se te enxergo anjo
E me quero nas plumas de tuas asas
É porque não sei - e nem poderia -
Que anjo és caído

A luz que emanas por sob a auréola
Sou eu quem a acende
Com o fogo que arde em meu olhar
Brilho alvo da ilusão de amar

O som da harpa que escuto
São os risos teus que não ouço
Ensurdecido pelas poesias - minhas -
Que ponho-as em tuas mentiras

E se mais pudesse angelical querer-te
Mais no poço do Inferno eu estaria
Porque dei-te a permissão
De enganar-me em meu próprio Céu
Caminha comigo de mãos dadas
É o sol que se ilumina
Da tua paixão alegre
Do meu sossegado amor

Abraça-me e não me soltes
Não, solta, quero ver-te o rosto
Mas não te posso sem os abraços
Beija-me então: abraço e olhares

Vem, diz qualquer coisa,
Só te quero ouvir
Desenha-me com a tua voz
E eu te construo com o meu olhar

O vazio em mim tinha a tua forma
A música que nunca tocou tinha as tuas notas
O livro que nunca li falava de ti
O quadro que não pintei eram as tuas cores

Tudo já está para trás,
Toda a história é inútil
Toda recordação é um erro
Agora que estás aqui

Ser feliz nunca fui
Nem sonhava possível
Ah, se fosse verdade
Que você me pudesse existir...
Na foto a criança sorria
Porque não sabia
Da dor e do verso
Que sobre ela mais velha
Eu escreveria.
A musa exorta:
Abre a porta!
Que me importa
Se a paixão é morta...
Da janela fechada e embaçada
Por entre as lágrimas das nuvens
Vi-a escorrer e partir-se em poças
O guarda-chuva não pôde escondê-la

Vejo-a entrar no carro ligeira
Golpeio o vidro, grito, sangro
Desce o teu vidro, lenta
Oferece teu rosto à garoa
E o olhar à minha saudade

Arranca com o carro e o meu coração
Sobra-me a rua, a sarjeta empoçada
No vidro embaçado escrevo teu nome
Que sumirá com o frio

Como você com a garoa
Não é a fantasia insana e redentora
De te criar mil vezes em mil corpos
De te vestir e despir das roupas que eu quero
Não é a loucura frágil de te carregar comigo
Por onde quiser a imaginação
Não é essa a minha angústia
Não me tortura essa preocupação

O que treme as mãos e derruba o copo
O que me embaça a vista e derrama a tinta
O que me faz nefasto e me lança ao poço
É saber que a verdade da tua existência
É a mentira com que me deito toda a noite

A arte que te produz
A mente que ainda resiste
A vida que desilude

Teu corpo é só o vento
Que passa a janela quebrada


Fantasmas da tua nudez
Se a morte vier
E eu nada fizer
Deixa-me ir
Quis muito partir

Mas se a vida insistir
E eu chegar a sorrir
Foi por te ver
Não por te ter

Então deixa assim
Imagino-a pra mim
A chave desnuda da vida
A porta entreaberta da morte
Em transe sobre a pena
Sono profundo pesada insônia
Escrevo pernas onde quero abraços
Caligrafia de seios - seduzem-me garranchos
Sorrisos por entre vírgulas
Beijos que tocam dentes
Mordem lábios
Molham sonhos em vigília

Erro o soneto - a rima é branca
Versos livres por entre dedos
É papel ou corpo em que me deito?
Amo e durmo a noite das incertezas
Persigo teu cheiro - os sonhos não têm som
Todos as letras não te descrevem

Em que estrofe te encontro?
Em que estribilho te desnudo?
Esqueço-me do refrão
Em que dizes fugir de mim

O olhar nada mais distingue
Entrego-me ao cochilo
É teu o colo em que me extingo?

Imagens desconstruídas
Desejo-te aos pedaços

A dor meço
Fazer da lembrança rota
A corda que ata os amores mortos
Eis aí a tua ruína
E o peso dos putrefatos
Despeço-me da vida a cada sono
— que não tenho —
Na esperança de não mais amanhecer
E ver o meu avesso espelhado
No fragmento improvisado de mim mesmo

Deixo-me à sorte de uma morte boa
Que não julgue minhas insônias
Coloridas de vermelho
— sou o papel de onde sai a tinta —

Aguardo o fardo do limiar estreito
Retardo toda a volúpia da escuridão perene
Quero visitar em vida os mortos
E viver a morte de cada eu que é teu

Não sofro por não mais saber sofrer
É já rotina a pena de experimentar-me
Todo o negrume ácido de uma existência
Respinga nas vestes brancas de minha paz

Na vigília nebulosa em que desfilam vultos
Esfumaço os traços de meu contorno
Não sou nada - etérea condição
Recusa-me em abrir-se meu próprio caixão

Penada felicidade
Maldita ressurreição
Fogaréu de pedaços
Estranha repartição
Letárgicos movimentos
Afogados em sofrimentos
Cansaço da alma solitária
Esforços de viver em vão

Ampara-me a morte de ombros fortes
Ossos largos sorriso aberto
Abraço gélido melhor que o teu
Que nunca foi e sempre quis

O frio beijo da arcada alva e amarelada
Tem mais paixão que o meu desejo
O vazio dos olhos é mais brilhante
Que teus cegos a mim desdéns

Trapos negros com cheiro de tumba
Mais agradáveis que teus fétidos perfumes
O toque sincero dos ossos
Repúdio de sonhados amores nossos

Não te enganes nem te dês a sorrisos
Não vou-me exilar n'outro mundo por ti
Deixo-te à desgraça de seres quem és
Refugio-me de tudo o que é mal

E perverso - vida
Mascara toda a dor do solitário frio
O fogo do coração em desespero
Que se lança cego em fúria às trevas
Destruindo as paredes da insípida sanidade

Corredor escuro de portas entreabertas
Por onde espiam pesadelos terríveis
Os passos incertos e tortos que dou
Rumo à vaga lembrança da tua nudez

Os murmúrios e gritos que escuto
Me falam de horrores e nomes ocultos
Sussurram mentiras e medos e sonhos
Distorcem teu rosto à luz moribunda

Não há neste escuro vazio e profundo
Ninguém que me escute de ódio os lamentos
Ninguém que me ponha de volta no mundo
São e sereno, derradeiro tormento
Pela fria vidraça do meu desengano
Perpassa e causa dano
Teu duro olhar translúcido
De lúcida indiferença

Estilhaça a vítrea razão
O silêncio sem compaixão
Que me lanças à distância
Ânsia da carne exposta

Ao altar escuro de meus sacrifícios
Não chega a luz deformada pelo vitral
E soterro-me em malefícios
Não me protege teu corpo - catedral

As lascas e os estilhaços
Encontram-me aos pedaços
Por sobre os quais caminharás
E então, assim, te machucarás
O gosto do meu café tem seu cheiro
O banho do corpo alheio
Não embaça o blindex
Não transborda a banheira
Não me encanta a espuma

As pernas por que me atrevo
Não tem a extensão infinita
Nem tem o recanto macio
Os seios d'outra geografia
Tem cores difusas ess'outro horizonte

Beijo rostos sem face
Relógio sem horas
A cama tornou-se aquarela
De amores escorridos
Sob teu óleo sobre linho
Proíbe aos ex-amantes a amizade,
O coração ciumento e ferido
Na cama desfeita
Um corte no lábio - teu nome
Sangrou-me às palavras
Desta dor, escravas
E a boca minguou-me à fome
Do teu amor

Um rasgo na pele - teu toque
E me esvaio em paixão fluida
Fissura de tudo - em choque
Razão e emoção moídas
Destrói-me o rancor

E vens ao quarto - enfermeira
Aplica-me unguentos de beijos
Sei bem - paixão derradeira
Sozinho ao lado dos leitos
De teus todos outros amores
Nenhum beijo roubado
Que tenha por tua boca escapado
Sairá impune sem dó nem pena
Do cárcere meu coração

Nenhum tímido carinho
Que tenha arrepiado tua pele
Ficará imune ao castigo
De ter ousado o toque proibido

Meu peito é a prisão
E a solitária
Onde encerro todo o sentimento
Culpado de te amar

Ainda que inocentes...