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Na foto a criança sorria
Porque não sabia
Da dor e do verso
Que sobre ela mais velha
Eu escreveria.
A musa exorta:
Abre a porta!
Que me importa
Se a paixão é morta...
Da janela fechada e embaçada
Por entre as lágrimas das nuvens
Vi-a escorrer e partir-se em poças
O guarda-chuva não pôde escondê-la

Vejo-a entrar no carro ligeira
Golpeio o vidro, grito, sangro
Desce o teu vidro, lenta
Oferece teu rosto à garoa
E o olhar à minha saudade

Arranca com o carro e o meu coração
Sobra-me a rua, a sarjeta empoçada
No vidro embaçado escrevo teu nome
Que sumirá com o frio

Como você com a garoa
Não é a fantasia insana e redentora
De te criar mil vezes em mil corpos
De te vestir e despir das roupas que eu quero
Não é a loucura frágil de te carregar comigo
Por onde quiser a imaginação
Não é essa a minha angústia
Não me tortura essa preocupação

O que treme as mãos e derruba o copo
O que me embaça a vista e derrama a tinta
O que me faz nefasto e me lança ao poço
É saber que a verdade da tua existência
É a mentira com que me deito toda a noite

A arte que te produz
A mente que ainda resiste
A vida que desilude

Teu corpo é só o vento
Que passa a janela quebrada


Fantasmas da tua nudez
Se a morte vier
E eu nada fizer
Deixa-me ir
Quis muito partir

Mas se a vida insistir
E eu chegar a sorrir
Foi por te ver
Não por te ter

Então deixa assim
Imagino-a pra mim
A chave desnuda da vida
A porta entreaberta da morte
Em transe sobre a pena
Sono profundo pesada insônia
Escrevo pernas onde quero abraços
Caligrafia de seios - seduzem-me garranchos
Sorrisos por entre vírgulas
Beijos que tocam dentes
Mordem lábios
Molham sonhos em vigília

Erro o soneto - a rima é branca
Versos livres por entre dedos
É papel ou corpo em que me deito?
Amo e durmo a noite das incertezas
Persigo teu cheiro - os sonhos não têm som
Todos as letras não te descrevem

Em que estrofe te encontro?
Em que estribilho te desnudo?
Esqueço-me do refrão
Em que dizes fugir de mim

O olhar nada mais distingue
Entrego-me ao cochilo
É teu o colo em que me extingo?

Imagens desconstruídas
Desejo-te aos pedaços

A dor meço
Fazer da lembrança rota
A corda que ata os amores mortos
Eis aí a tua ruína
E o peso dos putrefatos
Despeço-me da vida a cada sono
— que não tenho —
Na esperança de não mais amanhecer
E ver o meu avesso espelhado
No fragmento improvisado de mim mesmo

Deixo-me à sorte de uma morte boa
Que não julgue minhas insônias
Coloridas de vermelho
— sou o papel de onde sai a tinta —

Aguardo o fardo do limiar estreito
Retardo toda a volúpia da escuridão perene
Quero visitar em vida os mortos
E viver a morte de cada eu que é teu

Não sofro por não mais saber sofrer
É já rotina a pena de experimentar-me
Todo o negrume ácido de uma existência
Respinga nas vestes brancas de minha paz

Na vigília nebulosa em que desfilam vultos
Esfumaço os traços de meu contorno
Não sou nada - etérea condição
Recusa-me em abrir-se meu próprio caixão

Penada felicidade
Maldita ressurreição
Fogaréu de pedaços
Estranha repartição
Letárgicos movimentos
Afogados em sofrimentos
Cansaço da alma solitária
Esforços de viver em vão

Ampara-me a morte de ombros fortes
Ossos largos sorriso aberto
Abraço gélido melhor que o teu
Que nunca foi e sempre quis

O frio beijo da arcada alva e amarelada
Tem mais paixão que o meu desejo
O vazio dos olhos é mais brilhante
Que teus cegos a mim desdéns

Trapos negros com cheiro de tumba
Mais agradáveis que teus fétidos perfumes
O toque sincero dos ossos
Repúdio de sonhados amores nossos

Não te enganes nem te dês a sorrisos
Não vou-me exilar n'outro mundo por ti
Deixo-te à desgraça de seres quem és
Refugio-me de tudo o que é mal

E perverso - vida
Mascara toda a dor do solitário frio
O fogo do coração em desespero
Que se lança cego em fúria às trevas
Destruindo as paredes da insípida sanidade

Corredor escuro de portas entreabertas
Por onde espiam pesadelos terríveis
Os passos incertos e tortos que dou
Rumo à vaga lembrança da tua nudez

Os murmúrios e gritos que escuto
Me falam de horrores e nomes ocultos
Sussurram mentiras e medos e sonhos
Distorcem teu rosto à luz moribunda

Não há neste escuro vazio e profundo
Ninguém que me escute de ódio os lamentos
Ninguém que me ponha de volta no mundo
São e sereno, derradeiro tormento
Pela fria vidraça do meu desengano
Perpassa e causa dano
Teu duro olhar translúcido
De lúcida indiferença

Estilhaça a vítrea razão
O silêncio sem compaixão
Que me lanças à distância
Ânsia da carne exposta

Ao altar escuro de meus sacrifícios
Não chega a luz deformada pelo vitral
E soterro-me em malefícios
Não me protege teu corpo - catedral

As lascas e os estilhaços
Encontram-me aos pedaços
Por sobre os quais caminharás
E então, assim, te machucarás
O gosto do meu café tem seu cheiro
O banho do corpo alheio
Não embaça o blindex
Não transborda a banheira
Não me encanta a espuma

As pernas por que me atrevo
Não tem a extensão infinita
Nem tem o recanto macio
Os seios d'outra geografia
Tem cores difusas ess'outro horizonte

Beijo rostos sem face
Relógio sem horas
A cama tornou-se aquarela
De amores escorridos
Sob teu óleo sobre linho
Proíbe aos ex-amantes a amizade,
O coração ciumento e ferido
Na cama desfeita
Um corte no lábio - teu nome
Sangrou-me às palavras
Desta dor, escravas
E a boca minguou-me à fome
Do teu amor

Um rasgo na pele - teu toque
E me esvaio em paixão fluida
Fissura de tudo - em choque
Razão e emoção moídas
Destrói-me o rancor

E vens ao quarto - enfermeira
Aplica-me unguentos de beijos
Sei bem - paixão derradeira
Sozinho ao lado dos leitos
De teus todos outros amores
Nenhum beijo roubado
Que tenha por tua boca escapado
Sairá impune sem dó nem pena
Do cárcere meu coração

Nenhum tímido carinho
Que tenha arrepiado tua pele
Ficará imune ao castigo
De ter ousado o toque proibido

Meu peito é a prisão
E a solitária
Onde encerro todo o sentimento
Culpado de te amar

Ainda que inocentes...