Visitas

Despeço-me da vida a cada sono
— que não tenho —
Na esperança de não mais amanhecer
E ver o meu avesso espelhado
No fragmento improvisado de mim mesmo

Deixo-me à sorte de uma morte boa
Que não julgue minhas insônias
Coloridas de vermelho
— sou o papel de onde sai a tinta —

Aguardo o fardo do limiar estreito
Retardo toda a volúpia da escuridão perene
Quero visitar em vida os mortos
E viver a morte de cada eu que é teu

Não sofro por não mais saber sofrer
É já rotina a pena de experimentar-me
Todo o negrume ácido de uma existência
Respinga nas vestes brancas de minha paz

Na vigília nebulosa em que desfilam vultos
Esfumaço os traços de meu contorno
Não sou nada - etérea condição
Recusa-me em abrir-se meu próprio caixão

Penada felicidade
Maldita ressurreição
Fogaréu de pedaços
Estranha repartição

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