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Soneto Ouroboros

Não sei foi o tempo
Ou eu que parei com o lamento
Mas é raro ver-te na memória
Nem me lembro mais da tua história

A distância, que também é temporal
Desses com torrentes e vendaval
Julga melhor do que ninguém
Quem é para sempre e quem é desdém

Vão-se o rosto, a voz, as cores
Não se liga mais o nome à pessoa
O esquecimento é a liberdade dos escritores

Essa gente sonhadora e à toa
Que sem se lembrar de quem veio com seus ardores
Reescreve suas estórias, e o coração avoa
Devagarandando

Era um dia de final semana num bairro carioca que se esqueceu de que os tempos do Império já haviam passado e todos eram súditos de outro tipo de reinado. Fazia calor e as pessoas movimentavam-se em busca de nada, apressadas para compromissos estéreis e fúteis; era um dia pós-moderno de uma debilidade mental e cultural totalmente normal. Ou era apenas eu, que decidira nunca mais andar depressa, atrás de nada, deixando escapar pelos cantos dos olhos o que realmente importa ser visto e apreciado, e que me proibira de ser feliz com a ignorância santa e sábia das pessoas que preferem à vida aos livros.
E foi nesse passo lento, acorrentado à forçosa prática da filosofia que enrijece os músculos do rosto e faz proibido o sorriso, que vi adiante um morador de rua, sentado sobre uma perna dobrada para cima e outra apoiada no chão, recostado numa fachada de um prédio dos anos 60. Barba grande e por fazer, cabelos cheios e desgrenhados; não vi seu rosto. É preciso ver mais rostos, todos os rostos, quaisquer faces. Ele olhava para um caderno em seu colo, aberto, dobrado, e estava imóvel. Como devagarandava - do verbo devagarandar - pude ver bem a figura, e era alguém a ser visto e contemplado, diferente do que se vê e se contempla por aí. O homem se apoiava, além da perna esquerda dobrada no chão, também sobre o braço esquerdo esticado; na mão direita, segurava uma caneta esferográfica velha. Na página à mostra, da primeira até quase à última linha, uma escrita cursiva que só mostrava círculos, cabidos com harmonia dentro das linhas, como um texto fluido de apenas uma letra e uma só palavra. Quis parar para ver melhor. Talvez fossem palavras. E o que mais revelariam as outras páginas? A catatonia, no final das contas, pode se expressar? Mas não parei. Receei atrapalhar ou incomodar o sujeito. Tive também medo de ele não reagir bem a alguém que, do nada, parasse no meio da rua e encarasse a ele e ao seu trabalho. E segui. Segui devagarandando ainda mais. Fui até onde deveria ter ido e voltei na esperança de encontrar o escritor das ruas, o transcritor, talvez, do único texto possível e viável de todos: os escritos interiores e inacessíveis à nossa vigília patética. Mas, tanto devagarandei que, na volta, não mais o encontrei. Sei que jamais o encontrarei e nunca serei capaz de desvendar os segredos da mente humana, rabiscados enigmaticamente em labirintos circulares, poesia em espiral, como são algumas galáxias.

No mesmo dia, no meu escritório, pendurei um espelho à frente de minha escrivaninha. Agora, quando lanço-me ao ofício laborioso e doloroso de escritor, vejo aquele homem enigmático e sua escrita infinita em meu próprio reflexo. Eu também, escriba marginal, vivendo em minha própria galáxia espiral, abandonado por mim mesmo. A única diferença é que sei o que escrevo e, portanto, não tem relevância nenhuma.

Ao maior dos clássicos, a humanidade provavelmente jamais terá acesso.
Não te posso, dia,
Amar o amor-rotina
Se é à noite, amor-ousadia,
A quem pertenço - cafetina
Se te enxergo anjo
E me quero nas plumas de tuas asas
É porque não sei - e nem poderia -
Que anjo és caído

A luz que emanas por sob a auréola
Sou eu quem a acende
Com o fogo que arde em meu olhar
Brilho alvo da ilusão de amar

O som da harpa que escuto
São os risos teus que não ouço
Ensurdecido pelas poesias - minhas -
Que ponho-as em tuas mentiras

E se mais pudesse angelical querer-te
Mais no poço do Inferno eu estaria
Porque dei-te a permissão
De enganar-me em meu próprio Céu
Caminha comigo de mãos dadas
É o sol que se ilumina
Da tua paixão alegre
Do meu sossegado amor

Abraça-me e não me soltes
Não, solta, quero ver-te o rosto
Mas não te posso sem os abraços
Beija-me então: abraço e olhares

Vem, diz qualquer coisa,
Só te quero ouvir
Desenha-me com a tua voz
E eu te construo com o meu olhar

O vazio em mim tinha a tua forma
A música que nunca tocou tinha as tuas notas
O livro que nunca li falava de ti
O quadro que não pintei eram as tuas cores

Tudo já está para trás,
Toda a história é inútil
Toda recordação é um erro
Agora que estás aqui

Ser feliz nunca fui
Nem sonhava possível
Ah, se fosse verdade
Que você me pudesse existir...