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O inferno é o inverno frio
Que queima os lábios
E trinca os dentes
Quando me seduzes
E me deixas só

O inverno é o inferno em brasa
Que congela o corpo
Que coíbe o coito
Quando imagino o abraço
E me desgraço só

O inferno, surda fricativa glacial
O inverno, ígnea e sonora fricativa
Ambas histriônico silêncio
Desse teu erotismo
Labiodental
Ao ver-te ao verde
Trás das grades
Traz das grades
Todo o flerte
Aprisionado e encarcerado
Nessa escura cela e sela
O desencontro ao que me afronto
Entre a luz de dentro tua
E o  breu de fora, crua
Carne viva que transborda
E reborda colorido o vitral
Do verde fora
Ao ver-te agora
Em gozo e choro seminal
Quando te amo e odeio barroca
Luzes de olhares, trevas ao negares
Me desfiguras em informes tintas
Surreal lista de desejos — pesadelos

Se te me conformo, parnasiana
Ausenta-te dos sentidos que te dei
Pós-moderna insignificância
A qualquer relevância aos traços teus

Não respeitas sequer a moça
Galega à fonte qu'esper'o amigo
Qualquer trovador de estrada
Que não seja eu, o de trovas não lidas

Meu expressionismo azul
Não te impressiona
Relação niilista
Dadá

Cro(não)logia
Agora sei que embora musa
Te irrita e te perturba
Que outra qualquer me tenha
Em sonhos e camas que não sejam teus

Sem nenhuma vergonha vieste
Por entre lençóis te meteste
Passando-te por quem não eras
Rainha morta, rainha posta

Assumiste o comando da cama
Não era meu mais o sonho
Me convenceste com o gosto
Do beijo a deixá-la deitar-te ao deleite

Já livres os dois das cobertas
Dois corpos oníricos nus
Bastou que eu quisesse tocá-la
Despertei ou por ti despertado

Se não sonho contigo apareces
Se te aceito no sonho espaireces
E se quisesse fazer-te real?
Qual de nós sonharia com qual?
As folhas que o outono tomba
Tornam âmbar o caminho
Que me leva ao teu coração
De inverno
Se eu te retrato?
Teus olhos - as lentes
Crime em preto e branco
Sombras, testemunhas

Se tu me retratas?
Perdão - não mentes
O juízo das cores
Refém de todos os tons

O retrato na parede
Ainda me condena

Olhos sobre tela
Por um Fio

O fio borda o sorriso
O coração transborda
O amor, à borda
Aborda-me à cama
E trama
O bordado de pernas
Ponto em cruz, crochê
O prazer por um fio
De contas que enfeita o colo
Beijos de bijuterias
Bajulações de abajur

O fio que cerra o pranto
Desenha só risos do olhar
Franze a testa
Prazer rascunhado
Circunscreve-te a silhueta
Meada carnal:
Achei-te o fio!

Por um fio a lua não é nova
A boca não prova
Nem reprova
A tessitura desta trova
Poeta-aranha
Verso-teia

Teus fios emaranhados
Fugidios, coxas-fortaleza
Baixo-ventre-tapeçaria
Penélope, artesã

Pôr um fio à lua nova
Afiada cimitarra
Separados
Desbastados

Por um fio