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E foi-se ao mar
Buscar no sal o que a terra lhe negara
Marujo de água doce e de saudade amarga
Foi-se ele e foi-se o barco
Foice ao mar
Voltou só
O barco...


Estação Valsinha (crônica)

Dessas coisas que acontecem uma vez na vida. Não necessariamente na vida da gente, como protagonistas, mas diante dos nossos olhos, como convidados especiais. Era um sábado qualquer. Não, não pode ter sido um sábado qualquer. Primeiro porque era um sábado de outono. Sábados de outono são especiais. São agradáveis, trazem algumas nuvens; nada que comprometa a luz suave dos fins de tarde. Beiram a melancolia dos domingos outonais, que se arrastam pelo chão junto com as folhas secas que derrubaram e que, por preguiça, não recolheram, deixando as segundas mais coloridas.
Foi no metrô, num trem do metrô. Não sei em que estação - à exceção de ter sido no outono - nem por quantas estações passou o trem, sei apenas que aconteceu, e bastou ter acontecido. Cheio de passageiros, o vagão decidiu dar lugar a um casal de jovens adolescentes, abraçados num cantinho próximo à porta. Tão jovens e tão adolescentes que seus uniformes do tradicional Colégio Pedro II cheiravam a recreio. O rapaz, mais alto do que a moça, usava um corte de cabelo moicano, mas ainda havia mechas nas laterais da cabeça. Talvez fosse um corte moicano, não sei mais como certas adolescências são nomeadas. A minha, hoje, tem apenas um único nome, e eu não gosto de chamá-la por ele. E nem dele também. Apesar de senti-los, ambos, ainda...
A moça, de cabelos ondulados, traços bem marcantes, me lembrou uma cigana. Morenas me lembram ciganas. Todas as ciganas são morenas. Há ciganas loiras? Esta era morena. Os dois, abraçados, transmitiam uma paz de nove graus na escala Richter.
Ela, como toda menina-moça, sensual e inocente, mais inocente do que sensual; ou não? Não havia nada ali que maculasse aquele desabrochar, aquele abraço. Poderia ler mil romances, como os li; poderia ler mil poemas, como os li e escrevi; mas nada foi capaz, até hoje, de descrever a beleza do nascimento do amor. Sim, era isso; o que vi foi o nascer do amor. Já vi nasceres de sóis, de luas, de filhotes dos mais variados animais, até de gente. Já vi o nascimento também do ódio... Já fui parteiro. Ou melhor, achava que tinha sido, até ter presenciado o nascimento do amor na sua forma mais pura.
Ele, um rapaz tranquilo. Tão sereno quanto a moça, tão em paz quanto aquele amor. Não vi o nervosismo típico do amor adolescente, talvez porque não houvesse entre os dois nenhuma preocupação a não ser construir aquela paz, aquele beijo que, de repente, veio...
Um beijo tímido, de olhos quase fechados e de boca fechada. Um selinho mais ousado, sem que os lábios se abrissem. Naquele momento, para aqueles dois jovens, não era o tempo de os lábios se abrirem; era o tempo de abrirem-se, primeiro, os corações. Pode ser que eu tenha sido indiscreto. Aquele beijo não era meu, nem nada eu tinha com aquilo, mas, se as flores desabrochassem velozmente, como naqueles documentários, qual de nós não pararia para assistir? Assisti, portanto. De longe, olhando para outros lados... Porque o amor nascituro também precisa de privacidade, ainda que ele não o saiba que a está tendo. E foi possível ver o aprendizado do gosto do beijo. Ah, então é esse o gosto que ele tem? É assim que serão todos? Esse será para sempre? É bem verdade que um lábio ou outro, dele ou dela, possa ter se abrido* e encontrado o outro umedecido - um novo gosto -, mas, se assim foi, não vi, e foi melhor assim. Há coisas que não devem ser vistas: o coração pode se ressentir daquilo que os olhos vêem**, como se diz por aí.
Mas vi quando o beijo cessou e as mãos desobedientes insistiram nas cinturas de um e de outra. E ali permaneceram, tangentes, etéreas, flutuantes. As camisas de seus uniformes talvez estivessem mais apertadas em seus corpos do que suas mãos. E as camisas não estavam nem um pouco apertadas nos dois corpos jovens e esguios.
E assim estávamos todos nós, naquele vagão de parto que cheirava a recreio e mocidade, a inocência e a sua morte, sem, contudo, putrefação alguma. Esquife de cristal. Meio Branca de Neve, meio cigana; meio príncipe encantado, meio punk.
Até que foi preciso deixar o trem e partir, juntos, deixando pétalas, sonhos e brincadeiras de pátio de escola seguirem viagem para a primavera: logo o verão os alcançaria.
Eu, ao sair, tirei algumas folhas secas de outono que estavam por cima dos meus ombros. O inverno me esperava do lado de fora da estação."

** Deixo o circunflexo para que não perca também ele...
* Sabe-se que a forma de particípio para o verbo abrir é "aberto" e não "abrido". Consultando algumas gramáticas e alguns gramáticos, vi que a forma "abrido" foi "abandonada" sem mais nem menos. Eis que um dia disseram: fechemos as portas a tudo o que é abrido e abramo-las para tudo o que já está aberto. Como o abandono parece mesmo ter sido arbitrário, resolvi abrigar o "abrido" e tirá-lo da orfandade gramatical. E os gramáticos que me perdoem, mas na frase em que usei-o, corrijam-me se estiver errado, não lhes soa muito melhor prosodicamente? O aberto, por ser escancarado, perde um pouco da beleza da penumbra em que ficam as coisas apenas abridas, como os lábios adolescentes.
Sócrates: — E o que é o homem senão apenas um tubo digestivo que se desenvolveu a ponto de tornar mais fácil alimentar-se, excretar e reproduzir-se?

Eu: — Comparas o homem a minhocas? Sofisma!

Sócrates: — Não vem o homem, assim como a minhoca, da terra que lhe dá o alimento e para a terra em que excreta voltará?

E, de estômago revirado, lancei-me à terra.