Visitas

Sentou-se ao piano
Buscou as notas
Tocou a vida
Ouviu-se a morte

E nunca mais...
Que dó maior!
Piano al niente...
Pianoforte!
Foice-tic
Foice-tac
Foi-se o tempo
Veio o baque
Do corpo
E da vida, que se fez?
Fez-se nada
Foice o tempo
Veio o baque
Foi-se o tic
Foi-se o tac


Troncos tortos
Tempos mortos
Insiste a raiz
Em não deixar a estrada
Ainda que leve
Ao eterno lugar nenhum


Se vais sangrar-me
Põe-me então uma maçã
À boca
E serve-me
Sorve-me
Sirva-me
No banquete da tua cama
Refeição de prazeres
Feições de prazer
Afeiçoadas sobras
Do que fomos
À mesa
Eu, com fio.
Tu, confias?
Somos nós
Os dois gumes
Da mesma faca?
Com fio em ti
A ti
Desconfiando
Desconfiado
Há dias em que sangro tanto
Que nem mesmo a página em branco
Estanca a hemorragia
Encharcada de poesia
Cada rima me perfura
E cura
O corpo violado
Caixa torácico-acústica
Em que ritma o coração
Encordoado
Sete cordas de arame farpado
Todas as mentiras
De cor
Que poetizas

Violência silenciosa
Da leitura que me tosa
Destes versos-faca-gume
Por que sangro e te marco
As páginas de rubro

Dois corpos à cama-carne
Jazigo perpétuo e duplo
E do crime a arma
De poemas
Um livro
Terminou assim, num quarto de hotel, escancarada e vazia, horrivelmente oca, abandonada, sozinha. Enquanto jazia no carpete desbotado e mofado com total desalinho, jogada de qualquer maneira ao canto e à mágoa, ele já desfilava com outra que acabara de conhecer pelas ruas da cidade. Sem nenhuma culpa, sem nenhum remorso. Os dois, que tinham passado os melhores dias de suas vidas em países exóticos, em cidades movimentadas, muitas vezes pernoitando até em saguões de aeroportos, nunca mais se veriam, foi o fim, o terrível fim de uma relação de anos a fio. E daquela maneira... Ela, jogada fora como lixo, esquecida de propósito, rasgada. Ele, provavelmente já sem nenhuma imagem dela em suas retinas, agora espelhadas belo brilho de uma nova relação, exibindo-a naqueles mesmos saguões de aeroportos. 
Quem descobriu-a assim, inerte no abafado quarto 404, foi a camareira, que deixou escapar, com a mão à boca, uma lágrima mais pesada do que aquela mala velha e rota já fora tantas e tantas vezes nas mãos daquele homem.
E foi então que a figura de chapéu, a passos lentos, carregando a vida inteira numa sacola rota com rodas gastas e tortas, lembrou a todos os sorrisos e vaidades que tudo passa velozmente, até que as pernas reclamem, os ombros peses e os olhos sequem das lágrimas que não voltam mais...