Visitas

Deixo a triste música ao fundo
Do poço em que cheguei
E ao que já me acostumei
Testemunhar minha última irrelevância

Na solidão escura da despedida
É tão clara a imagem
Do teu rosto furtivo ao solo
Num parque em que nunca estive

Não deixo ninguém (triste)
Amar-me era um desses fardos
Que nem o sangue
Quis para si abraçar

Foi quando parei de abraçar...
Infidelidade:

Teu retrato ama-me mais
Do que tu mesma
Ao posares para a foto

Dele, tenho só sorrisos
De ti, a lembrança deles

Eu podia ter-lhe falado à rua
Mas estava tão nua
De mim
Que preferi não cobri-la
De qualquer outra coisa
Que viesse a lembrá-la
De mim
O invisível é todo aquele
Que morre de saudade
De si mesmo

É aquele que já não se vê no espelho
É aquele de quem ninguém mais fala
Nem quer falar com, nem que falar para

Nenhuma preposição já o pode alcançar
Nem ele nem elas são mais essenciais
São todos encontros acidentais

O invisível não é mais que um fantasma
Uma sombra, uma má impressão
Para quem apagou-lhe todas as velas

Não o ilumina a luz dos olhares
Pois ele reflete os especulares
Negrumes das almas
À luz tão visíveis

O invisível escreve para ninguém.
La mer, le mar
Il mare nostrum
O alto mar
The open sea

Só a tua
Salgada língua
Que não me banha
A costa à míngua

Naufrago a seco
No meio de tanta
Água na boca
Amares afora