Visitas

O caminho da lágrima
É o carinho na pátina
Deste rosto que já foi tela
Da tua arte e hoje
Perece à vela
E às rosas
De um quadro
Que ninguém pintou
Arquiteta o poeta
A planta do amor perfeito
— também somos jardineiros —
Os cômodos onde dormem sonhos
A sala em que o coração
Recebe frio e calculista
Visitas inesperadas
— Não correspondidas e apaixonadas —
Os banheiros, sexo e chuveiro
Cortinas de vapor, desenhos no blindex
E a cozinha onde se ama sobre a pia
Erótica alquimia, tempero de gente

Se a sua engenharia
— o amante é quem constrói —
Aceitar o meu projeto
Viveremos para sempre
Sem vergonha
Um duplex
Se minto e digo o que sinto
Por ti, mentira maior,
Deixo de escrever o que invento
E tento, na tinta
Sobreviver ao que não é mais vivo:
O que sinto

E morreremos todos
De amor
De mentira
Despediu-se
Despida
Despistou-me
Na nudez pedida
E perdida
Na fantasia
Vestida
Das minhas
Investidas

Tanta pele ao chão
Tanta roupa à cama
Que já não sei onde durmo
Nem onde e quando amo

Retalhos por toda a parte
No fim das contas,
Do poço e do arco-íris,
O melhor mesmo
Era não ter começado
A amar-te enquanto chovia
Luazul

Se eu pudesse escolher o dia
— nem todos têm essa sorte —
Da minha própria e tão minha morte
Teria escolhido à noite
Noturna de lua cheia
Fantasiada de lua azul
Azul pra fingir que é dia
A noite de minha morte

Nessa noite de dia fingida
Essa lua de sol tingida
Egoísta só dela teria
Olhares e amares por terra e mar
E eu mesmo 'inda que morto podia
Fingir que era por causa do céu
Azul de lua amarela
Que sozinho fiquei à espera
Da pá de cal do coveiro

Se eu pudesse escolher o dia...
Será mesmo questão de sorte?

No fim - que nunca chega
Fica claro, declarado
Que o camaleão é invisível
Por essência e natureza

Quem arrisca com certeza
Afirmar a cor e o tom
Que realmente cobre a pele
Do mentiroso camaleão?

Se me insiro em todo quadro
E quando quero, me contrasto
Perco o referencial
Do que sou, do que é verdade

Eu furtivo, hesitante
Realidades delirantes
Sou ou estou nos sonhos
De quem acha que sou real?

Diletante camaleão
Brincando de existir
Há muito eu já desisti
De ter uma só paixão