Visitas

Abolo todo amor
Que não coloro
Com a tua aquarela
Demolo todo corpo
Que não esculpo
Da tua pele

Bano qualquer beijo
Que não discirna teu
No qual submerja
E se exaura meu desejo

Explodo esse teu não
Doo no teu coração
Ruo as fantasias
Floro as agonias
Desmeço-me em tuas medidas

Sou teu amante defectivo
Foi da última mordida
A gota caída
Que roçou os lábios
Pendurou-se ao queixo
Pulou aos seios
Rolou dos mamilos
Ao ventre
— tudo é tão alvo e tão nu —
Aninhou-se no umbigo e caiu
Expulsou-a o espasmo
Do liso ao emaranhado
E aos lábios (de novo?)
Percorrendo estradas
Criadas por ela mesma
Compridas coxas
E fez da canela cereja na cor
Cujo gosto deixara à língua
Minha o mesmo
E no pé de fetiche
Por fim feneceu

Matou-me
Mas fiz da vampira
Meu prato de sexo e sangue
Vestia um morango
E enrolava os cachos
Do cabelo com os dedos

E estávamos ainda
Na época dos pêssegos

Florada
A faca
Na vaca
Derrama o sangue
No verde que rubro fica

A nuvem
No céu
Derrama a chuva
No árido que inundado torna

Você
Em mim
Derramam-se lágrimas
Nos corações que solitários morrem
Das tantas velas que acendeste
— Iluminaste a sombria alma tua —
Achei-te finalmente agonizante
Como a chama de cada uma
Prestes a sucumbir
Quase a desistir
De mim

Eis o fim
Portanto a vir
D'eu cego a perseguir
O que se movia como pluma
Ligeira, escorregadia, errante
— Lembra-te do nosso "me possua"? —
Para livrar-te do que te veste

Primeiro amou-me
Pelo som que faziam
Meus dedos macios
Ao braço do violino

Primeiro te amei
Pelo som das palavras
Que tocavam macias
O meu coração

Depois éramos dois
Instrumentos de corda
Nas mãos tuas e minhas
As duas meninas
Compondo o rondó

Até que me roubaram
Tua partitura
E eu passei a tocar-te
O que sempre soube
De cor

A última nota tua:
adeus
A última nota minha:
um dó
Bem maior
Do que o teu coração
Em escala menor
Não é pelo teu sangue
É pelo teu cheiro
Pode ser pelo perfume
Que às vezes não há
Senão o seu mesmo
O mesmo cheiro da fêmea
Que um dia fui
Ou que ainda sou...

Isto de sentir o sangue
Que busquei com os dentes
Antes de sentir o gozo
Que busquei com os lábios...

Da vida sinto falta do tempo
Que tinha entre todas
Que com tempo me tinham
As duas, as três...

Hoje da sedução vou ao sangue
Preciso domar-me na morte
Como nunca domei-me em vida
O desejo por elas, maior
O amor e o carinho, menor

Preciso dos teus espasmos
O sangue quente por dentro
Antes de derramá-lo
Pra fora...
"Antes de conhecê-la
Julguei ter escrito poesia
Agora que te me mostraste
Sei que nunca fora poeta
E poeta nunca serei
Porque é-me agora impossível
Descrever-te ou escrever para ti
Quiça sobre ti
Tudo aquilo que em ti eu vi"

— D. Tadeu Laras

(D. Tadeu é menestrel e ex-trovador-mor da corte de El -Rey D. Dinis de Portugal, e personagem central no livro O Romance do Horto, de António Corvo)
Há versos cujas pernas
Da musa o poeta só imagina

Há versos de seios e lábios
Que o poeta beija no ar

Há mãos, dedos e pés
E carícias que só quem sente é o papel

E há sorrisos e olhares
De tantas musas ingratas...

Mas há um poema apenas
Da presença corpórea e indelével
Da musa que àquela noite
Confessou ao poeta
Ter o sono perdido
À luz da fogueira
Ao agouro dos mortos
Ao descaso do sono

Mas vens insistente
De leve, esquiva
Provoca, se enrosca
Roça e arranha - suave
E no colo me ordenas
Carícias e afagos

E sonho com o dia
Em que venhas à noite
Assim como a gata
De quatro, em pelo
A querer-me um colo

Mia senhora
Mia felina
Eu, ronrono

— D. Tadeu Laras


(D. Tadeu é menestrel e ex-trovador-mor da corte de El -Rey D. Dinis de Portugal, e personagem central no livro O Romance do Horto, de António Corvo)
Hoje sobre ti eu escreveria
Qualquer coisa que falaria
De como me ferem seus olhos
E me cortam suas unhas
E me enfeitiçam suas curvas

Mas já no primeiro verso
Veio à janela um gato
Que acomodou-se ao beiral
E decidiu desafiar-me o astuto
Como sobre ti não mais escreveria

Era negro e, portanto, à noite
Invisível - Alice, a quem mais amo
E para quem mais sorrio
Tinha os olhos azuis - às vezes
E amarelos: os teus, das íris redondas

As unhas debaixo do pelo macio
Que era como fazias
Por causa de uma mordida minha
Ou duas, às curvas
Como bem sempre gostaste

Deixei a pena ao tinteiro
O gato matreiro sorrir pareceu
Bocejou, esticou-se e empinou
Só para depois levantar-se
E deixar-me a sós com a janela aberta

A pena enfiada à tinta
O poeta a perder seu poema
A aragem e o fantasma de um gato

Era fêmea, aposto um verso!
Dizem que há nas estradas
Vagando em silêncio e profundo pesar
A alma danada de um cavaleiro
Que viu seu amor verdadeiro
Reconheceu-a pelo olhar
A passar-lhe ligeiro
Tão rápido em trote fagueiro
Que este estava à desmonta
E segui-la não pôde
E nunca mais deram-lhe conta
De seu paradeiro
Os únicos olhos que lhe fizeram
Amar...

-- D. Tadeu Laras

(D. Tadeu é menestrel e ex-trovador-mor da corte de El Rey D. Dinis de Portugal, e personagem central do livro O Romance do Horto, de António Corvo. Mas isso muito depende de quem lê o livro. E do próprio livro)

O Romance do Horto, de António Corvo
Foi só um olhar cruzado
Fogo amigo
E soube que nada mais era preciso

Só precisaste desviá-lo
Arqui-inimigo
E soube que nada mais era preciso

Mal chegas — e eu com sono ainda
Me perguntas: teu café?
Quero-o eu com leite
Quente
À boca 'inda insossa
Com gosto de amor de ontem

Te petisco, te fatio
Te besunto de manteiga
Bandeja à cama
Burlesco desjejum de pele
Meio ao sono
Meio à vigília
É pão isto que mordo?
Não tens nenhum puder
Em oferecer-me o iogurte
Nem o creme

São morangos os lábios
Que me engolem o nariz?
Passa o guardanapo
Vermelho rendado
Com gosto de sal
E me limpa desse te gozo
Com o que me empanturrei

Agora fica e dormita a meu lado
Pode ser que eu queira
A colação antes do prato
Quente no almoço a ser servido
Carne impura, profana e má
No espeto
E mal passada
Quando inverno,
Encontro ao solo a cor tua alva
Mas não encontro o corpo
Que quente derreteria
A neve que quas' me cobre

Se privamero
São tantas as cores e as flores
Que confesso me perco
Entre cheiros que não são teus
Ainda que estivesses ali ao lado

E eis que outono
Mas já não tenho
O viço que te cobriria
De verde
Sou pálido poeta âmbar

É no verão que te faço sombra
Sob a qual desnudas o colo
Folheias o livro
Que conta as histórias
Em que não estamos
Não vês
Mas a cada vez
Que passas a meu lado
Lanço-te do alto
Deste meu sonho inflado
De paixão, tão enganado
Uma folha, um poema
Um coração desenhado

Mas vais tão mais veloz
Que a poesia que te lanço verde
Cai no chão, amarela e seca
E fico só
Rodeado de folhas — e de papel
À espera da estação
Com que então terei mais folhas — de papel
E tu, se passares, mais poemas
Meus pesares...



Turvo as curvas
Curvas turvas, soturnas
Sombrios lampejos
Podem ser os teus olhos
A romper os meus
E se forem mamilos
A romper os seios?

É o vinho derramado ao peito
Teu corpo atirado ao leito
Ou a lingerie tua
Sobre a qual me deito?

Ou teu corpo sobre o qual me deito
O vinho derramado ao leito
A lingerie atirada assim, desse jeito?

Ou é o corpo que bebo
Derramado de vinho
E tingido de lingerie
Sutiã meia-taça?

Quartos de motel
Noites de bordel
Até na rima
Nosso amor é sujo



Quando fiz-te ruiva
Das madeixas outonais
Buscava em cada sarda
O desenho da minha
Constelação

Mas as estrelas só podiam
No céu à noite brilhar
E fiz-te negra
Infinitamente amor
E perdi-me em teu sorriso imensidão

Surgiu um sol de raios áureos
Amarelos, incandescentes fios
Cegou-me a lourejante
Luminescência
E só pude entregar-me à tua luz

Que com o tempo amansou
E do calor abrasou
A pele e acabou o ardor
De que tudo a morenou
E moreno o amor ficou

Tens tudo o que todas têm
Vês tudo o que todas vêm
E nenhuma me vê a mim
Que te enxergo tão plural
Tão inalcançavelmente
Descomunal...
Quando imagino
Alucino toda sorte de visões
De terrores, deformidades
Sinto medo nos corredores
De rostos inexistentes
Ouço vozes, receio
Abrir os olhos
Meu instinto é o de arrancá-los
E amar a loucura

Meu ansiolítico era o teu beijo
Lembras quando eu sonhava
Contigo
— Às vezes a teu lado —
E eram ganas de despertar
Só para ver-te e sentir
O gosto da tua realidade?

Hoje ao sonhar
Contíguo
— Às vezes durmo só para isso —
Desejo não mais acordar
Pois não posso mais ver-te
Não és mais tu a minha realidade

Vem, corre
Que se perde o tempo
De sermos felizes

Vais, morres...
Que demais fui lento
Com as meretrizes

Agora o relógio pia
E a coruja marca
O tempo de anoitecer

E na manhã seguinte
Novamente
Te perder
Essa solidão é tanta
E tamanha
Que não suporta nem mais a dor
Pois então não seria solidão
Seríamos a dor e eu

Essa solidão é tamanha
E tanta
Que se fosse dar-lhe um nome
Daria o teu
Mas também assim
Não mais seria solidão
Seria o teu nome junto ao meu
E junto a mim
Nada mais deseja estar
Ah, que distância...
Em que instância
Voltaremos a nos ver
De longe
Ao toque dos olhares frios
A provocarmos calafrios
Cala, não responde!

O tempo que perpetua
Toda a tua figura nua
Ainda tatuada
Em minha pele
Escalpo de amor e ópio
Ilude-me a droga
Que já me falta ao sangue:
Teus fluidos

És tão mais bela em preto e braco
Cor funérea da memória
É mais salgada em meu pranto
Que já escorreu por tuas dobras
De sinos
De sisos
Morte e vida
Indecisos

Tomo coragem e voo
Mas não tenho asas
E me resta o chão
Que é o fim
Desta paixão
Senta. Não! Fica
De pé te vejo os pés
E as canelas
Às barras da camisola
Branca é a tua pele
Quem te aqui chamou
A essa hora da noite
Do dia, da vida?
Sabes que sonambulo
E perambulo pelo que é sonho
E me vens à sala, de pé, do nada
De um susto
És a única luz no escuro da casa
Que querias, matar-me?
De novo? Que de mim queres mais?
Teus olhos que não se apagam
Pisca! Não! Que me rebento
Na ilha de uma mesa
No atol de uma cadeira
Naufrágios de sofá
Por que não te temo assim?
Por que amo esse teu fantasma?
Aí, parado, me olhando vazia...
Nem um sorriso pela visita?
Me velas? Te velo eu?
Quem morreu, afinal?
O amor jaz à cama
Nós, à sala
O horror de pé
À mostra na mortalha
Tão branca, tão linda
A franja e a moldura lisa
Do preto que risca o branco
Do rosto, do linho
Vem à varanda?
Faz frio, estás linda
E eu que não posso voar
Escrevo na madrugada
Porque é nela que está a coerência
Da sua inexistência
E de nenhum meu leitor

Essa solidão gelada
Tão condizente com tua frigidez
E aquele copo de vinho frio
Aguardando o orgasmo
Na geladeira

É fechando os olhos
Como fechas as pernas
Que busco alguma rima
Em teus grandes lábios
Que não se abrem
Num meu sorriso

É no silêncio que escrevo o verso
Que te faz ruídos
Que te traz grunhidos
Que me gritas o nome
Que só eu escuto

É quase dormindo
Que quase te amo
Sem ter a certeza
De que não te amei
Nem de que te amei

Musa puta de fino trato
Bem dizem que não se pode
Beijá-las na boca suja
Que me xinga
De poeta
A escrita com rima e poesia
Essa que achas tão bela ambrosia
Ah se soubesses o quanto é resto
E réstia de tanto o que me violenta
Não mais a verias poesia
E nem poesia haveria

Vítima, cadáver da surra
Afetiva e insana que levo na rua
É mais um mosaico essa estrofe
De hematomas e cortes
De tudo o que vi e jamais tu verás
Do que nada senti
— Todos experimentaram

O melhor destas linhas
Ficou no não-dito
O melhor do teu corpo
Ficou no inaudito
E o poeta maldito
Só à sombra
De quem só o assombra