Visitas

Gueixa
Deixa que as madeixas
Se percorram
Com a mais sem vergonha
Das modorras
E risonha
Ilumina o fundo da minha masmorra
Mas não morra
Nunca morra

Gueixa
Deixa que o suor
Vire riacho
Como as gotas
Da chuva - temporal
Acariciam o cacho
De uva - sazonal

Gueixa
Uma só tímida queixa
Que não mexas
Nunca mais
Em nada mais
Que de menor te faça

E em embaça, embaraça
E me beija
Em shhhhhhhhhhhh... lêncio

Perdoa, você sabe como é
Essa deliciosa sina, ser mulher
Amar e desamar, simples assim
Ser incompreendida até o fim
De cada amor, de cada estrada
De cada um

Talvez seja só eu que não aprendi
A ser a Colombina do Arlequim
Nem sempre eu sei dizer o que se passa
Quando você me abraça

Me entrego sem razão ao teu querer
É grande o medo de te perder
Não liga, desconversa e disfarça
Mas ama esse meu louco disfarce
De ser pra sempre a incerteza
De ser a tua amada e arrebatada
De paixão, amor e eterna
Profundeza
Ah, moça
Adoça
Essa poça de vinagre
Acre
Que amarga earde

E roça
(na cidade)
Tua pele felicidade
Na minha cínica face cinza

Todo amor é só questão
De espaço
Quando não se cabe em si
Se transborda

Só a ti não invade
Se fosse a água salobra
Das lágrimas
Talvez...

(estrofe alternativa)

Só a ti não completa
Até a boca — seca
Com a água salobra
Com que te choro
Fechei a torneira
Desceu a goteira
O pingo pinga
Respinga
A pinga é de cana
A cana é de açúcar
Pede o pinguço
— Pinga mais um
E o pingo pinga
No ponto e nos "is"
Fecha a torneira!
Olha a goteira!
Gato pingado
Café-com-leite
Mais gato ou mais pingo?
Mais pinga
Mas pinga, hein!
Lá vem o pinguim:
— a conta
E fim
anseio a taça
o vinho é tinto
e à meia-taça, o seio
branco, rosé

a sede roça a garganta
seca
a seda cobre — é manta
e peca

teu rosto atrás de mechas
o corpo vislumbro em brechas
incompleta a plenitude
do desejo - a inquietude

dissimulas sorrir
arriscas despir
me fazes pedir
parar de tentar-me
ao intento supremo
de beber-te o copo
E o corpo
inteiro
Me entorta
Exorta a não cruzar
A porta e pede
Implora
Talvez mais meia hora
De mentiras macias
Como os travesseiros

Suspira e arca
O corpo, a anca
A ponte que atravesso
Da qual me jogo
Ao jogo de te ver do avesso

Arfa desenfreada
Sobre a fronha esgarçada
E amarrotada
Com que te amarro
Desgrenhada
Ao pé da cama

E chama, clama
Que o desejo que te assola
Esse corpo de viola
— e rebola —
Rebenta logo num orgasmo
E o espasmo desregula
Tempo e espaço
E o abraço é o que nos resta

Agora deixa que te caia
Uma madeixa pelo ombra
E essa vista se transforme
Em meu melhor assombro

E que eu nunca mais
Te subtraia
De nós dois
(inspiro) (expiro)
tateio no escuro
taquicardia

(inspiro) (expiro)
hiperventilo
no silêncio intranquilo

(inspiro) (expiro)
claustrofobia
incerteza, agonia

(inspiro) (expiro)
(inspiro) (expiro)
respiro profundo
me afogo, me inundo
de ansiedade
me mata a saudade

(expiro) (inspiro)
(inspiro) (expiro)
falta-me o ar
foge-me o chão
fere-me amar
no vazio colchão

(inspiro) com a boca
(expiro) não mais
lanço-me à roca
fio de linho, de lã, de algodão
fim do caminho, do elã, da paixão

Morfeu que me fie
e a ti me envie
e que o novo tecido
te cubra de vidro

e assim nua te cubro
de nada
Te vi boneca
De pano? – insano
De louça? – menina, moça
De quê? – de sonho, de sono

Na caixa
Manchada
De sangue – exangue

Para abri-la
É preciso
Fechar-me
Ou o sangue
Estanca
Também em mim

Amor de brinquedo
Susto e medo
Do que faz a mente
Com a realidade
Da gente
Quem brinca com quem?

De volta à estante
A paixão é o bastante
Quebro a cabeça, passo o tempo
Procuro a peça que me encaixe
Onde eu me ache e cesse
Todo o descabimento
De não caber no teu armário
E de que não me vistas
Pois não vês as vestes
Só o cabide que pendura a lide
De querer por ti ser visto
E vestido
De noiva, de festa, de luto ou de veludo
O tecido não importa
Quando a tesoura corta a linha
E a foto de família
Que jamais se tirará

Tenho o número de letras
Mas não sou a palavra certa
Das tuas cruzadas
De pernas
Dá-me a dama
Qual tu queres?
A de copas
Está casada
A de espadas
Foi à guerra
A de ouros
No mercado
A de paus
A dar com o pau

Dá-me o rei
Qual tu desejas?
O de copas
Se enamora
O de espadas
Prisioneiro
O de ouros
Foi ao banco
O de paus
A meio pau

E o que me dizes do valete?
Qual dos quatro?
O de copas
Mulherengo
O de espadas
Duelando
O de ouros
Na falência
O de paus
Quebrando o pau

Que sobrou?
Do ás ao dez
E o curinga?
Ninguém quer...
Bate à porta a madrugada
Traz com ela a bem amada
Iluminada de lua alta
Vestindo o que a mim faz falta

Entra sem cerimônia, abusada
Encontra-me à tinta derramada
Cochilando a sonhar com ela
Em meio a uma trova singela

Sei que a mão que afaga
O seio que roça e provoca
A perna que pela minha vaga
É ela que em mim desemboca

No entanto não me acorda
Sabe bem que se eu desperto
Não nos temos mais por perto
Eu esqueço, ela recorda

E passa o tempo esse chamego
Até que vai-se a madrugada
E vem a manhã apressada
E leva a desassossegada

Desperto com a claridade
E vejo terminada
Com outra caligrafia
A poesia interrompida
Caco de coco quebrado
Cato — é de vidro a sapucaia
Voa, jandaia, avoa
Que o jacaré sai da lagoa

Uma onça pintada d'aquarela
Eu vi, vi nada!
Correndo atrás do saci perneta

Preta é a mariposa
Colorida é a borboleta

Conta João Caboclo
A história do tronco oco
Donde se esconde o licantropo

Eita que na mata adentro
Não entro: mata!

E o tatu,
Cabe no buraco da estrofe?
Cabe ele a cabeça do avestruz
Mais um prato de cuscuz

Trova boa ribeirinha
Cantei muito no Uruguai
Mas a moça da cantiga
namorei no Paraguai

Esses versos do capeta
Contei só pra Julieta
- morreu aquele Romeu -
Sereia de água doce
Mulher de lágrima salgada
E saber que cada beijo, cada toque
Nunca foi de fato nosso
A pele jamais sentida
O lábio que morreu seco
E o olhar de porcelana
— a íris dos olhos à tinta óleo —
Por trás das máscaras sufocaram

Quem de fato nós amamos
Se é que de fato nos amamos?
Por quem suspirava tua maquiagem
Para quem vestia minha melhor fantasia?

E agora que nos fomos
Para nossas realidades
Enquanto nos restam a sós saudades
Ficaram juntas e entrelaçadas
Nossas máscaras guardadas
Na mesma caixa desbotada

Serão elas e não nós
A sentirem nossa falta
Mas isso também seria
Um amor vazio de ribalta
Bilhete de Dispensa*

Caro chefe estou escrevendo para dar notícias minhas
Nesse momento em que eu escrevo, acho que a morte se avizinha
Meu corpo todo é hematoma, meu rosto está feio de ver
Mas lhe escrevo este bilhete para dizer, por que hoje não vou comparecer

Do décimo quarto andar tijolos tinha que descer
Mas só jogá-los para baixo bom não parecia ser
O capataz mal humorado sugeriu de forma rude
Que eu teria que levá-los pouco a pouco amiúde

Descê-los dessa forma era muito devagar
Então icei um barril grande, pra com uma corda segurar
Mas na pressa de fazê-lo eu mal pude perceber
Que o barril com os tijolos pesava muito mais que eu

Do chão desatei a corda e o pesado barril caiu
E eu me prendi a ela e ao contrário então subi
Rápido como um foguete, conformado percebi
Que na metade do caminho encontraria com o barril

O barril quebrou-me o ombro tão veloz que ele caía
Cheguei ao topo e com a cabeça quebrei a maldita polia
Ainda atado à corda quase desmaio com a pancada
No chão metade dos tijolos do barril foi espalhada

Bem, quando esses tijolos foram lançados do barril
Eu pesava mais que ele, e lá vinha o projetil
Amarrado ainda à corda desci rápido ao chão
E caí sobre os tijolos espalhados de montão

Eu gemia arrebentado, “o pior já foi” pensei
Só que o barril chegou lá em cima e na polia ele bateu
Choveu tijolo sobre mim e eu quase apaguei
E assim atordoado a maldita corda eu soltei

O barril bem mais pesado então desceu uma vez mais
Caindo sobre mim, debilitado por demais
Quebrei o braço e três costelas e só me resta dizer
Que eu espero, possa compreender, por que hoje não vou comparecer


*baseado no original inglês interpretado pelo grupo irlandês de música folclórica The Dubliners, The Sick Note

Sei eu melhor que tu
O que buscas na escuridão
Não buscas nada que não seja
Muito menos o que não esteja
Mergulhado na solidão
No escuro de um peito
Vazio e frio sem coração

Vens de longe onde nasce a luz
Com a lanterna do remorso em riste
Mas não é bastante a que te conduz
Pela terra amargurada e triste
Estás agora também na penumbra
Tão perdida e condenada quanto eu

Eu daqui vejo-a luzir
Chego mesmo a ver teu rosto
De relance, quase um vulto
A ironia é que não podes
Vislumbrar o que procuras

Nem sei se gostaria
De por ti ser encontrado
Não sei bem se à meia-luz
O teu sorriso... assustado...

Eu me calo, silencio
Não será teu próprio nome
A me denunciar

A luz que trazes à lanterna
Já começa a apagar

Vem, fica, comigo no escuro...
Não, pára, afasta os dentes
Aproxima a boca e diz
Que sou teu alho e tua cruz
E mesmo assim me queres

Vem, sai da luz
Me acompanha à sombra e diz
Que meu abraço gelado
Te esquenta mais que o sol

Mesmo morta ainda queres vida
E me persegues com a sede rubra

Mesmo vivo queres o beijo frio
E me procuras com temor de gelo

E se te encontro em castelo antigo...
E se te acho ao nascer do sol...

O que nos separa não é o dia
O que nos impede não é a noite

Preciso tanto do teu sangue frio
Eu morreria pelo teu sangue quente

Vai, volta pra tua tumba
Leva teu corpo cinza
Se realizo meu desejo
Só com um beijo não me satisfaço

Vai, esquenta tua pele viva
Foge da solidão, escapa do meu silêncio
Que só com um sanguíneo gole
Tampouco eu pouco me complemento

A boca que morde
É a mesma que diz te amo
A mão que afaga o colo
É a mesma que me esconjura

Até amanhã?
Até à noite.
Ao meio-dia?
À meia-noite

Sempre meios
Jamais inteiros