Visitas

Sai a sereia do sal
Suada ao sol
Traz os suaves seios
Na sinuosa silhueta
Sem saber
Que deixa seca
A boca
Sem beijo nem saliva
Do marinheiro
Que te seca
E não se molha

Mais valia morrer pelo canto
E não vê-la
Que morrer por contemplá-la
E não ouvi-la
Dizer-me
Não te posso, não te quero

Bócio, desespero
Dispo a ti de todo verso
Que um dia dei-te
Em teu colo imerso
Bêbado do leite
— Lêvedo deleite —
Que hoje aflui reverso

Que um dia, de novo, se deite...

Não!
Tomo à força cada rima
Que já te fez muito mais bela
És agora a vindima
De vingança — ah, sequela!
Por não teres falecido
Nem tampouco enlouquecido
Da poesia e do poema
— Suprema anatomia! —
 De que já te revestiste
Vil, fingiste

Não pude ser a pena
Que matou-te
De poesia
Hei de ser a cantilena
Que te chora
E te expia
É insone o sonho
Sonâmbulo
Perâmbulo
Vaga pelo sono
Perpétuo
De que não acordo
Espero
O teu Juízo Final

No meu descanso
Exausto
É sonho ou pesadelo?
Ininterrupta hipnose
Onirismo de outras mentes
A tua

Acorda e me deixa em paz!
Deixa quem no outro mundo
Jaz

Vivo de outros sonos
Sou de outras o sonho
Vigílias

De quem somos
O sono
Eterno?
Às vezes me confundo
Entre o coveiro e o defunto
Quando enterro as esperanças
E me soterro de lembranças

Só a coruja
Que perscruta
Talvez saiba a diferença
Entre a dura indiferença
E a bruta
Garatuja

Nascer no cemitério
— a morte toda pra viver
Morrer no batistério
— a vida inteira pra morrer

Eis o mistério
De nunca te pertencer
Quando o azul é imaculado
Não pratico meu ofício
Teus olhos azulejados
Não me pedem sacrifício

À noite se a lua é nova
E a escuridão o mundo cega
As trevas que enchem a cova
Dizem: fica em paz, sossega

Mas se o céu desbota e alva
Já posso deixar o ócio
E vê-la com toda a calma
Sem mais nenhuma salva

Quando vai a lua alta
E ilumina vultos no breu
Vislumbro-te à ribalta
Estrela no perigeu

Caço nuvens, arredias
Cada vez que repudias
Escrevo o que nelas vejo

...ninguém ouve o que solfejo...
Não era pra ser poema
A prosa que não tivemos
A palavra blasfema
Tudo o que não vivemos

Não era pra ser poesia
Que rasga afiada o peito
— e o papel
A rima limita — heresia!
Torna o dizer rarefeito
— Tropel

Cada verso que escrevo
Eu não...
O que sinto e transcrevo
Em vão...
Ah, esse ofício tão servo!
Aflição!

Não era letra, era beijo
Não era estrofe, era abraço
Tudo isso é um seixo
Cada linha é um fracasso

Era só pra dizer...
Frente a frente dizer...
Que eu, que nós, que você...
...
Cadê?
Percebo o corpo
Vejo o dorso
Percevejo

Pico, coça, cata
Não me acha
Escondido no colchão

É tarde, já te amei

Percebo a boca
Beijo o seio
Percebeijo

Toco, roça, arrebata
Me encaixa
Nalguma curva, violão

É cedo e eu já voei
Mato o tempo
O tempo morre
Quem socorre
O moribundo?

Passatempo
Passa, tempo!
Ai, que um dia me arrependo
De não ter tido um só segundo

Contratempo
Contra o tempo
Ninguém mais encontra tempo
Pra ter tempo de encontrar-se

Tampo o tampo do relógio
Minha sorte pressagio
É de morte o sortilégio:

Morreu de não ter tempo
De ver que não tinha tempo
E quando chegou a hora
Já era (,) tarde demais...
O leite da vaca
Que foi pro brejo
Talha e o queijo
Não corta a faca
Mas corta o beijo
E o pão
Do trigo
Que deu-se à vaca
Que pasta o pasto
Antigo e gasto

Eu da minha rede
Da cerca o galo
Os dois de cima
Nóis assuntava:
Na grama verde
O caipira capina
Come o cavalo
Mastiga o burro
Baba o bezerro
Cisca a galinha
Do velho casmurro
Faz-se o enterro
No fim da tardinha

O engenho é de cana
A cana é de açúcar
Também é de cana
O dono da venda
Que vende fiado
Mas desconfiado
E fica sem renda
Nenhuma
Na carapuça

E roda a moenda
Aqui na fazenda
A vida da roça
É que nem carroça
Não tem pressa
Nem apressa
O passo
Acusei-te, fiz-te ré
Não hesitei nem tive dó
Pus-me cá e a ti pra lá
Fomos cada um por si

E não voltei a ver o sol
A escuridão do céu temi
Quase esqueço a tua face

— Não, mentira, já esqueci —

Restou a nossa canção
Com cheias melodias
De fusas alegrias
Que ainda canto com passos

— allegro ma non troppo —

Da minha janela
Eu via as laranjas
Nos pés de laranja
Laranjeiras lá longe
Nos laranjais
E a vida era doce
E o doce era bom

O cheiro do mato
Do pasto, da planta
Da flor e da vaca
Do barro e da água
— porque a água tem cheiro
Não importa a ciência
E sim a lembrança —
Rompiam de vida o nariz
A mente de Deus
Os olhos de luz
As minhas correntes

Certa vez choveu forte
Chuva de morte
Que bicho tem medo
Raios no céu
Rasgam nuvens de chumbo
Trovões ensurdecem
O silêncio da alma

Da minha janela
Eu via as torrentes
E as enxurradas
E os pés de laranja
Aprenderam a nadar

Por que a chuva que chove
À noite
É pior do que a chuva que chove
De dia?

A água é a mesma
A promessa é a mesma
A praça se afunda
A igreja se lava
O gato se afoga

Da minha janela
Eu via as laranjas
Pesadas nos caules
Pequenos soizinhos

Mas isso foi antes
Da chuva que chove
De noite e de dia
De dia e de noite
Apaguem-se as piras
Extinga-se o fogo
E calem-se as liras
Rogo!

Morreu a musa
Morte difusa
O compasso gira
Meu norte tira

A vida prefere
Mira, atira e fere
A mim, mata
Vira (lata)
Diga
Por que escolheste ser a inimiga
Se a cama sempre foi a nossa amiga
Ainda que teu corpo contradiga

Siga
Com a tua decisão e desabriga
Meu peito à agonia mais antiga
A solidão que o coração mastiga

Briga
Me mata, me maltrata, me maldiga
Mas peço por favor não me castiga
Com essa indiferença que me intriga

Desdiga
Que um novo amor amar a ti obriga
Não deixa-me refém desta fadiga
De ver minh’alma suplicar mendiga
Mesmo efêmera
A fêmea
Deixa-me enferma
E febril
A alma — gêmea?

Fármacos em frascos
Tão fracos
Quanto a fragrância
Que deixas
Não cessam o sofrer
— só o sorver —

A cada encontro
— efemérides —
Frêmitos frios
Frágeis calafrios
— calabouço —
Frenesi
De ti

Causa mortis:
O beijo
Hora do óbito:
O momento primeiro
— e derradeiro —
Em que
Te vi