Visitas

Da minha janela
Eu via as laranjas
Nos pés de laranja
Laranjeiras lá longe
Nos laranjais
E a vida era doce
E o doce era bom

O cheiro do mato
Do pasto, da planta
Da flor e da vaca
Do barro e da água
— porque a água tem cheiro
Não importa a ciência
E sim a lembrança —
Rompiam de vida o nariz
A mente de Deus
Os olhos de luz
As minhas correntes

Certa vez choveu forte
Chuva de morte
Que bicho tem medo
Raios no céu
Rasgam nuvens de chumbo
Trovões ensurdecem
O silêncio da alma

Da minha janela
Eu via as torrentes
E as enxurradas
E os pés de laranja
Aprenderam a nadar

Por que a chuva que chove
À noite
É pior do que a chuva que chove
De dia?

A água é a mesma
A promessa é a mesma
A praça se afunda
A igreja se lava
O gato se afoga

Da minha janela
Eu via as laranjas
Pesadas nos caules
Pequenos soizinhos

Mas isso foi antes
Da chuva que chove
De noite e de dia
De dia e de noite

Nenhum comentário:

Postar um comentário