Visitas

Entendo afogar-se no álcool
Destilado de toda esperança
Avalanche de pedras
Degelo, desespero

Entendo a translúcida fumaça
A visão enevoada
A voz rouca
Queimar até o filtro da razão

Entendo jogar-se entre pernas
E lábios quaisquer
Homem ou mulher
A diferença é não haver gozo

Entendo até a literatura
Que vomita e consome amargura
Histórias que não são suas
Vida ociosa, odiosa

O que não entendo
É a realidade
Que não me abandona
Nem na hora da morte

Não me arrasta o tsunami
Meu coração é de papel
Transformo em barco de origami
Só caibo eu nesse batel



Acertar o alvo
É acertar a maçã
Do teu rosto
Com um beijo certeiro

E se eu me movo
Qual o perigo?
Acertar meu coração
Vermelho-maçã
Mordido

A grandeza da vida
É extinguir-se em pó, a nada
Na grandeza da morte
De tal sorte
Que bem ou mal vivida
Que mal ou bem sonhada
Encontra descanso
No abraço manso
Daquela de sorriso eterno
Pois que não viveu o inferno
Nem a grandeza da vida

A ameaça de amar
Quem vem do olhar
De um estranho

É mais contundente
Que o beijo ardente
Do mais estranho amor

À meia lua
Meia taça de vinho
Meio seco
E uma meia-calça tímida

Ao meio dia a média
Meia xícara de café
E meio pão com manteiga
Pés de meia diferentes

À meia vida
Urânio vira plutônio
Amor platônico
Radioativo

Meio amargo
No meio das pernas
Azedinho doce
Na raspa do tacho

Meio de campo
Empata o jogo
Mas não empata a foda
Cartão vermelho

Chuva
Terra
Poça lamacenta
Em que atolo
Enterro
Lama nos pulmões
Sou a argila
Em tuas mãos

Molha
Molda
Seca-me no fogo
Da paixão
Esfria
Cerâmica que enfeita
A mesinha
Cabeceira

Noite
Sonhos
Chama outro nome
Me derruba
Quebro
Volta à poça lamacenta
De outras chuvas
E traz mais um alguém
Que diz que ama

Moringa quebrada no chão
Menina bonita que chora
Faz mais uma na oficina
Tem pressa quem namora
Quem me ensina?
O coração

Quem é que vem me acordar
Estando a lua alta
E o meu coração a sonhar?

Sou eu, a noite infinda
Que te castigo com a insônia
Por não amar a estrela mais linda

Quem é que me vem sedar
Tão alto o sol no céu
E a vida a me provocar?

Sou eu, o dia mais iluminado
Te trago a punição do sono
Por ter o beijo mais radiante ignorado

Quem vem do alto cobrir-me a vista
Com as nuvens mais pesadas
E a negar-me o arco-íris

Sou eu, o céu mais alto e mais distante
Que te proíbo a memória carinhosa
Da cor dos olhos do amor que acizentaste

Quem é que me impede o passo
E não me dá nenhum espaço
Para seguir o meu caminho

Sou eu, a terra pesada e imensa
Que te cobriu o corpo
Por enterrares a esperança

De amar de novo
De um novo amor
Por te entregares ao pavor
Da solidão
De novo

Arranca a verdade minha
Como eu te arranco a roupa
A mentira com que me visto
É mais real que teu corpo nu

Não me importa quem sangra
Se o gosto de sangue no beijo
Escorre pelas duas bocas
E mancha as peles marcadas

Procura em mim, me devassa
Um canto que ainda não provaste
Cada poro tem teu cheiro
Cada centímetro, tua saliva

Olha bem nos meus olhos
Finca as garras em minhas carnes
Meu sorriso é a prisão
De toda palavra tua

No final só o teu corpo
Permanecerá deitado
Minha nudez vertical
No espelho quebrado

Amanhã à noite
Deixe a janela
A camisola e a mente abertas
As pernas incertas
E espera minha sede
Debaixo das cobertas

Ah, cerejeira, cerejeira
Me dá essa cereja
Que eu tenho um bolo pra enfeitar

Ah, amendoeira, amendoeira
Vim buscar amendoim
E encontrei duas amêndoas

São meus olhos, meu amor
O amendoim nasce no chão
Na terra em que nos amamos

E se eu plantar u'a macieira
Da maçã que vicejar
Será que só co'uma mordida
A gente já faz pecar?

Peca não, seu bobo, deixa disso
Pecado é não beijar gostoso
E ninguém tem nada com isso!

E se eu tirar do limoeiro
Um limão azedo de amargar
Eu tiro uma laranja doce
Da laranjeira pra adoçar

Ê, namorico bom
Escondido no pomar
Mesmo o fruto estando verde
Ainda assim é bom te amar!

Pode ser apenas sono
A ponto da indistinção
Entre o desejo vagabundo
E o profundo bocejo

Não sei se quero a cama
Para dormir
Ou para fingir
Que você está lá

Meus olhos se fecham
Contra sua vontade
Me lembram você
Sua resistência em abrir-se

Derrubo um copo de vinho
Sobre o livro aberto
Ele o bebe mais do que eu
Agora é a história de um ébrio

Dou a última tragada
Está aceso o cigarro?
Ensaio um pigarro
Sou um clichê de roupa amassada

Chego à varanda
Como cheguei?
Na calçada vejo você
Ei, por onde anda?

Espera, não vá embora!
Eu já desço!
É só pular o parapeito!

Aquele sonho em que a gente cai...


Vem, arromba o portão
Que tranquei-te se puderes
E se quiseres, ainda,
Pula por sobre as barras, tenta
Quem sabe não te arrebentas
Ao cair por cima
Da própria ousadia?

Força o cadeado
Quebra a tranca
Torce o ferro
Morde e corta os pulsos
Quero ouvir o berro
Que te arranca o desespero
De não poder passar

Dá a volta pelo muro
Que não tem fim
Mas que termina no escuro
E volta trôpega, assim
Te arrastando pelas grades
E gritando: crueldade!
Falsidade! Nem há cães
Só o portão!

E se morres por tentares
Nem assim, etérea, passas
Pois te tornas a quimera
Que das sombras vitupera
Que o portão daquela casa
Guarda a alma que trancaste
Para sempre para o amor

Te tornaste o meu fantasma!

Aqui em cima, menina
Viste? Escondido no telhado
No campanário da igreja
Estou lá, condenado
Ainda que não me vejas

Sou aquele que te assiste
Que vigia, solitário
Sou a sombra que te segue
O fantasma que persegue
O amor que não senti

Olha por sobre os ombros
Quem sabe de canto de olho
Me encontras, já sumi!
Onde estás?!
Desapareci...

Meu nome é nunca fui
Me chamo nunca serei
E ainda assim estarei ao lado
Daquela que me possui
O desejo de sempre ter sido

Sou o olhar sobre ti que pressentes
O arrepio da noite presente
Sou aquele que sabes quem é
Mas não lembras o rosto que chora
E que logo a rir — de ti —não demora

Sou teu arrependimento
Pelo resto da vida sombria
Por ter sido tão dura e fria
Com o amor que de nascimento
Pereceu dentro de mim

Estarei toda noite a teu lado
E todo dia te acompanharei
Até que o medo e a insanidade
Te tornem sombra também
E um só lamento
Seremos enfim

Eu podia só ter dito
Que te quero a meu lado
Num por-do-sol bonito
Contigo abraçado

Mas logo viria o escuro
Da noite mais intensa
E o beijo que procuro
Voltaria a ser ausência

Eu deveria ter dito
Que te quero a meu lado
Num nascer-do-sol bonito
Contigo abraçado

Pois logo viria a claridade
Do dia mais iluminado
E o beijo de que senti saudade
Finalmente — e para sempre
Seria dado

Entre o por-do-beijo
E o nascer-do-amor
É preciso dormir o sono
Das estrelas, do abandono


Derreteu-se o gelo no copo
Perdeu-se o beijo do corpo
Ficou tão pouco no peito
Nada mais é do nosso jeito

Não reina mais a cobiça
Do prazer alheio à preguiça
E a cozinha vazia...
Da nossa nudez faminta

Nunca mais se abriu um livro na estante
O que era história virou instante
Escrito e esquecido
À tinta extinta

Agora o pior dos domingos
Continua o pior dos domingos
Os sábados são fatais
E as feiras são todas iguais

Tocam a campainha
É madrugada
Seja lá quem for
Duas pedras de gelo no copo...

Sou desses que se compra fácil
Com qualquer beijo de cigarro
E álcool
Meu preço é baixo
Porque a vergonha é pouca
E a vida não tem tempo
De barganhar felicidade

Sou vira-lata de colo
Porque da rua já é meu coração
Qualquer olhar barato
De sedução de filme B
Me leva pra qualquer cama
A qualquer hora e qualquer lugar
Não escolho cenário nem roteiro
Pra me apaixonar

Não pergunte meu nome
Coisa que já esqueci
Me chame de qualquer coisa
Se te fizer enlouquecer

Me satisfaço com qualquer café
Que me sirva pela manhã
Coado sem arrependimento
Se o gosto é fraco
Esqueço seu endereço

Sou desses que ainda crê
Que o amor é livre
E não há nada que me prive
De preferir você

Porque bom mesmo
É ser o rejeitado
Que ama e desama a esmo

Amor cafajeste tem sempre um par
Amor de poesia precisa esperar...


Eu já me esquecia das sardinhas
Que certa vez chamei de minhas
Quando o outono me lembrou
Que logo o frio da saudade
De inverno chegaria

Uma folha que caíra
De cor vermelho-alaranjada
Da árvore que a abandonou
Disse-me: quantas mais hão de cair
Antes do rosto dela lhe fugir?

Olhei para cima e notei
A copa da árvore e lembrei
Do teu rosto de mil sardinhas
Que um dia chamei de minhas

Que se foram como iriam
Com o inverno as folhinhas
Que para sempre — condenado
Te desenhariam


Então tudo era música:
As promessas e os sonhos...
A mesma fantasia
Coube em nós dois

E decidimos acreditar
Que seria possível
Ainda sonhar
Ao menos sonhar...

Foi quando mãos se tocaram
E olhares os lábios calaram
E o beijo que o silêncio pediu
Deveria acordar-nos do sono

Para dormirmos a realidade
Um ao lado
Do travesseiro e do colo
Do outro

Mas o beijo não veio
Ficou preso contigo
Na mesma gaiola
Que eu, ao sonhar-te, não vi
E que não me disseste
Em torno de ti existir

Assim como o canto
O sonho e até o pranto
Deixa meus braços
Pelos espaços da grade
Te prenderem de liberdade

E quem sabe esse beijo
Se não for a tua porta
Revista de ouro
A tua gaiola...


Esquece a leitura
De todo o poema inútil
E busca a doçura
Do instante de amor mais fútil

Esquece os amores
Que escrevem os autores
E ama o personagem
Que encontraste na viagem

Por que temos que jogar
Esse estúpido jogo de azar
Que é adiar o encontro
Só pelo fetiche do desencontro?

Mas continuas a escrever!
Dirás me criticando
É que não encontrei ninguém
Que me venha parar de ler
E seguir amando


E se disser que aceito
Mas no fundo do peito
Ainda não houver espaço
Para o teu abraço
De menina?

E se todas as fantasias
Já se tornaram tão vazias
Que nem a tua juventude
Será capaz de retirar-me
O ar e a solitude?

Depois de tanto tempo
De desbotado desalento
Esse sorriso enfeitado de vida
Essas curvas, atrevida!
Vêm agora colorir
O desamor descolorido
Com que desenho o meu retrato...

Se é escárnio com o velho triste
Se é perversidade feminina
— já cedo, ainda menina —
O cachorro já está morto
Te advirto

Será que o que viste
Foi que o velho lobo triste
Só precisava ser provocado
Por um olhar ensolarado?

Então, vem
Por tua conta e risco
Talvez o lobo arisco
Ainda possa se apaixonar
Pela menina
Que o faça uivar

Escrevo-te esta carta de poucas linhas
Pois pouca é a tinta da saudade minha
É a última vela, é o último fólio
Eu mesma não passo de um restolho
Do que já fui para ti
Do que nunca sofri

Desejo dizer-te apenas que amei
E que não me esquecerei 
De quem um dia fui
De ti talvez eu me esqueça
De nós dois, afinal
Só eu sobrevivi

Acaba o espaço no pergaminho
A chama da vela hesita
Vão-se as palavras...

Um último gesto da luz cansada:
Cobre-me com a sombra da pena

No escuro
Só os olhos de um rato brilham
Bem mais que os meus
Do mesmo jeito que brilhavam
Os teus


Eram tantas portas de todo tipo
Lisas, trabalhadas, esculpidas, tortas
De todas as cores
Fechadas a todos os amores
Que eu quis e não se me abriram
Vida que fecha, dura

Madeira maciça, pedra e ferro
Não houve chave, chamado ou berro
Que pelo menos à portinhola estreita
Me pedisse a senha insuspeita
E errada do teu nome ao cadeado
Preso enferrujado

Sem esperança de me ver entrar
À casa, ao colo, ao seio que quis amar
Deixei a cidade trancafiada, deserta
Na direção incerta e amaldiçoada
Da última porta que faltou visitar
A que para nenhum de nós
Há de se fechar

Entreaberta, emperrada e suja
Vigiada do alto por uma coruja
A porta de vidro quebrado e grades
Imóvel, translúcida deixou-me olhar
Deitada, sozinha de branco a sonhar

Quem é? Quem invade?
Sou eu, quem te amou
Mas jamais te contou
E o que queres agora
Que já passou da hora
De quereres qualquer querer?

Deitar-me contigo
E também descansar
De querer
Qualquer
Querer

E a porta entreaberta
Entre nós e a vida
Fechou-se


Escolhes teus amores
Como as flores que colhes...
Ah! Se Vênus me notasse
Pediria que me transformasse
Num girassol talvez
Alto e à altura de teus olhos
Que, se não me levasses,
Levariam-me eles a alma
E ao invés de deitar-me em teu cesto
Como tantas já deitaram
Dormiria, como poucos já dormiram
Em teus sonhos, somente eu


Quando perdi-me de mim
Ainda criança no escuro
Busquei à luz do abajur
Sozinho em bibliotecas
Alguma pista escondida
Em incontáveis livros secretos
Que tanta gente já lera
Quem era e por que me perdera

A cada página lida
Cada livro encerrado
Era um eu diferente
Sempre sonhando
Ter-me encontrado

Da imaginação de criança
Do herói ao vilão, capa e espada
Aos livros com poucas figuras
Vi por detrás das cortinas
A História dos Homens, da Vida
O que era o Amor
E as faces da Morte

Vi segredos do céu e da terra
E as línguas de todas as gentes
E vi que era um poço sem fundo
Seguir tantas letras e livros
Só pra saber quem eu era
Qual era meu papel no mundo

Depois de ler tanto, ler tudo
Mentira! que o tudo ainda é pouco
Decidi que talvez escrevendo
O que ninguém mais havia escrito
Mentira! porque já escreveu-se de tudo
Eu finalmente me achasse
E por fim desvendasse
Onde estava o menino perdido

E escrevendo encontrei mais de mim
Mais do que eu nem conhecia
Muito mais do que a criança pudesse
Saber que existia
Até mesmo sua própria existência perdida

Onde estavas enquanto eu crescia?
Na estante do tempo
Esperando ser lido
Depois de ter sido escrito...

Então decidi conversar
E escolhi o silêncio
Das ondas do mar

Em sua língua d'água
Que só a alma sabe falar
Quem sabe aprendesse a amar...

Sentei-me nas pedras
Da praia deserta
Nem ave, nem peixe ou estrela do mar

Entendeu o mar minha tristeza
E com toda a força da correnteza
Lançou-me uma onda terrível

E molhei-me todo e foi só
Da próxima vez
Escolho um jardim


O peso da terra sobre ti
Não é mais que o peso
Da saudade tua sobre mim

Terminam as noites em claro
Levanta-se um pouco menos
De mim a arrastar-se pelos dias

E assim também me deito
Lento como o tempo
Para sempre ao teu lado

Decompõem-se os dias
Decompomo-nos nós
Nossa vida composta
De decomposição


Não havia nada além do vento
E do tormento
De ter apagadas as pegadas
Que deixei na areia
Do tempo

Parei de caminhar
Deixei-me soprar
E mudar com as dunas
Preso na areia
Do tempo

Espero a próxima tempestade
Seca e quente
Na esperança fria
De que a umidade ardente
De meus olhos precipite

Para que a areia escorregadiça
Se transforme em movediça
E assim me afogue, mate e enterre
E o meu tempo encerre
Até que uma nova agonia

Me ressuscite

Restou-me correr — resto de lucidez
Recusei-me a morrer — mais uma vez
E o quanto deixava para trás
Repetindo a cada passo: nunca mais
Maiores eram os campos
Onde, talvez,
Eu ficasse em paz

Era tamanho o desatino
Tão intensa a tempestade
A rebentar o coração já pequenino
Que num clamor de desespero ancestral
Fiz tremerem o austral e o boreal
E o céu tomou-me a nebulosidade
E chovemos e choramos
Até a saciedade
Até a saudade...

Sem saber se era chuva ou se era choro
Deixei-me à relva — escoadouro
E de toda água que vertemos
Nasceram as flores que colhemos
E com as quais enterraremos
Sob o mármore molhado
A melhor memória tua


Compus-te por inteira
Criei a harmonia do sorriso com o olhar
Fiz a melodia do timbre e o tom de voz
Fiz a pauta a duas vozes

Da clave de sol fiz tuas curvas
Dos teus seios, sustenidos
E de tua feminilidade
Escrevi-me em bemóis

Depois de pronta a partitura
Toquei-te com tanto amor e ternura
Que o orgasmo virou música
E o cansaço pediu bis

Mas eis que o invejoso vento
Que de música só conhece o assobio
Entrou na sala esgueirando-se à fresta
Da janela e ventou-te as partituras

Tantas pautas se perderam
Vi escaparem nota a nota
Nossos corpos sem o compasso
Sem o tempo, sem o tom, desafinados

Do piano antigo quase nada resistiu
Do auditório adormecido
Até as tintas da parede feneceram
Do pianista ficaram ao chão

Os sonhos e os acordes
Do concerto inacabado
E esse sonho tão cansado
De tocar-te uma vez mais

O autor cria
O escritor escreve
E o personagem atua

E o leitor à toa
Ao ler é quem deve
Fazer a magia

Da literatura

Eu podia esperar-te um pouco mais
Mas já não quero porque dói-me
O que a espera fez-me
E ainda faz

Eu podia sonhar-te um pouco mais
Mas já não quero porque nem o sonho
Que tornou-se enfadonho
Mais sentido faz

Eu podia morrer de esperança
Mas tudo isso já me cansa
Meus pulmões precisam de um ar qualquer
Já não me satisfaz uma ideia de mulher

Já imaginei-te o quanto pude
Envelheci à tua eterna juventude
E apesar de estares sempre comigo
Jamais estive eu contigo

A realidade me cobra o preço
Da solitária decrepitude
De tão cansado eu obedeço
E emudeço
Para sempre
Em meu desconfortável
Ataúde

Aqui do alto
À noite
Não enxergo o solo
Há névoa
A mesma que me enevoa
A vida, a visão, o vão

O vento me provoca
Balança
Quem quer o tombo?
Sopra, me lança
O que há de vazio em mim
Será que sua brisa alcança?

Seria tão mais fácil
Arremessar-me ao abandono
E abraçar o salto
Etéreos
Cego, livre e solto
De tudo
Que insiste
Em insultar-me

Faz tanto frio cá no alto
No alto de quê?
E as luzes da cidade
Que vislumbro
Piscam
Arriscam um aceno
Resistem às trevas
Interrompem a dor
Quem liga e desliga
O interruptor?

Melhor que o salto
E o acalanto do fim
Em voo
É sentar-me na beirada
De quê?
Para esquecer dos dias
E permanecer na noite
Fria, frios
No alto, distante
A um eterno instante
Do
Que

Por
V...i....r....

O vento venta para o moinho
Que mói meu amor devagarinho
E faz farinha do que já senti
Mas já não sinto, não mais, sem ti

E à farinha acrescento fermento
E aumento o tamanho do arrependimento
E levo ao forno, ao fogo, às chamas
Que a lembrança tua toda inflama

Deixo ao tempo fazer queimar
Essa mistura tão má e mortiça
Até que tudo se torne cinzas
E o vento volte e as faça ventar

Em direção àquele moinho
Como eu, tão sozinho
Que gira tão devagarinho
Que o tempo passa sem passar

Sem me dar tempo
De te reconquistar...

Pensa em mim como um inseto
Que julgas feio, abjeto
Que te provoca enjoo e medo
E de uma vez me extermina

Termina logo com o segredo
Que não passei de um brinquedo
Com que não mais tu te divertes
Já te cativam outros flertes

Mas te assegures da porrada
Que de mim não sobre nada
Pode matar o sobressalto
Imaginar a barata morta
E encontrá-la ali no alto
Escondida atrás da porta

Eu queria tanto que ficasses...
Deixo-me nos teus sonhos
Não é o bastante, os sonhos fogem
Mas não eu, sempre retorno

O que te fiz para perder-te?
Nada, só despertaste
Foi o sol com aquela luz
Nunca fechas a cortina
É o medo de perder a lua

E se tu ficasses hoje?
Durante o dia? Não poderia...
Faço-me cair no sono
Tem que ser inesperado
Como a página seguinte
Do livro que te deixa
Sonhoso, hipnotizado
E mal acostumado
A ver-me
Por entrelinhas

Então dormirei para sempre
Não, porque te arrependes!
Se é no sono que te beijo...
No sono que sempre acaba
E no sono em que se sonha
Com o que se ama eternamente?
Neste não sou eu
Mas uma outra
Que te rouba
A alma

É no escuro da casa morta
Que me encontram as almas tortas
Amores malditos, desaparecidos

Fantasmas e sonhos de faces horrendas
Que outrora beijaram-me a boca pudenda
Me lançam à loucura, solidão tão escura

Mais só do que eu é a casa sozinha
Sem rua, sem bairro, nenhuma vizinha
Tão longe da estrada, tão perto de nada

Se fecho meus olhos não vejo mas sinto
Olhares, sussurros, pavor indistinto
Se abro meus olhos... E você, o que vê?

Não há luz nem lanterna
Só vultos e sustos
Meu amanhecer há de ser
A insanidade
Eterna...

Minha cigana é meio profana
Anda descalça, vestido sem alça
Que mostra as canelas e o colo dela

Tem tantas pulseiras e tornozeleiras
E brincos e anéis que quase se esconde
De mim com o som de mil cascavéis

Minha cigana toca pandeiro, violino
Dança felina com jeito ladino
E canta, me encanta com a voz de cetim

Que lhe acaricia a santa garganta
Mais que os colares de ouro carmim
Mais que os beijos que dou-lhe na nuca

E que deixam minha cigana maluca


Imagem: Charles Roka (1912-1999)
Sonhaste-me nua
Suplicaste-me tua
Vim, o que te assusta?
A vassoura ou gato preto
No colo que queres?
Sabias-me bruxa
Agora te arrasto
Vais amar-me em Salem
E gozar no Sabá
Da minha cama pagã

Mas se me quiseres queimar
Queima de amor
Em tua estaca viril
Porém te advirto
As bruxas não morrem
Elas vêm, elas vão
Ninguém sabe
Feitiço

Vem, não te afastes
Do beijo
Envenenado
Da bruxa


Não resisto mais...
Mas eu sim
Não é o que dizem teus olhos
Nem teus mamilos
Nem a umidade dos lábios
Não quero...
Por que então me chamaste?
Não te chamei
Sonhaste comigo — é chamar-me
Como sabes?
Diz que meu rosto não te umedece
Ou o cheiro dos meus cabelos
Eu sinto... O toque..
Meu peito parece explodir
Eu bebo... Me beijas?
Talvez... Envolves tanto
Os contrastes e as linhas do rosto
Sou mulher como tu
Mais perto... Desnudas...
Desnudo
Calemos
Amemos
Shhh...



Meu nome é pesadelo
Sou tudo aquilo que desejas
Da anca que queres morder
Aos seios que queres beijar

Vê bem nos meus olhos
O sol que não brilha à noite
Também eu venho do nada
E do escuro que não esperas

O medo que te possui
Também é o que te dá prazer
Acima de ti sobrevoo
Queres mas não me podes ter

Todos os sonhos e musas
Se perdem em meus cabelos
Sou a única que teu corpo
Precisa para gozar

Mas não vais
Porque meu nome é pesadelo
E nunca mais tu vais acordar
Enquanto quiseres me dominar

Durmo dentro de ti
Não descansarás dentro de mim
Jamais
A paz

Imagem: "Bat-Woman" (1890), Albert-Joseph Pénot


Não sei bem se é essa sede
Ou se nasceu em mim esse desejo
Pelo mármore do teu pescoço
Raiado de artérias, veias — mapa

Poderia ser, quem sabe, só paixão
Mas se não bate o coração...
Então que seja só o tesão
De uma fria e morta fêmea
Que vem da fenda indiscreta
Das pernas torneadas
E da tampa do caixão

Se me viras o rosto
Mais bela ficas de perfil
Se me dás as costas
Tão mais anseio teu quadril

Um toque à nuca... arrepia!
Uma palavra sussurrada...
Meu chamado delicado
A morta e a viva — emaranhado!

Bem pior que minha mordida
É perder-me em teu olhar
Que arranca de mim a vida
Que já não tenho a suportar

Então que seja, hoje, assim
Só o leve toque e o arrepio
E o beijo que não se deu

Por que a pressa em seduzir
Aquilo que já é meu?



Não me venhas com a velha rima
Ideia suja e ressecada
De quereres ser meu sabonete
E me deixares perfumada

Nem te quero-me esfregando
Como esponja a pele inteira
E nem penses em abraçar-me
Como abraça-me a banheira

E não me importo se disseres
que me banho em tuas lágrimas
Salgadas — sais de banho
Sais do banho, assim, tão trágica...

Não saio, não insista
Nem queiras ser a toalha
Que me enxuga o corpo e a vista
E nem sei sequer se quero
Que a muito mais assistas

Talvez depois de seca
Com alguma roupa à cama
—Se o sono permitir
E a insônia me convencer —
Deixo que tu em mim te banhes
E que eu seja a tua esponja



Me diz teu nome
Fome
De quê?
Você!
Não sou tua carne
Encarne
E nem teu pão
Paixão
Me sirva à taça
Faça
Teu vinho tinto
Absinto
Tão sedenta...
Me arrebenta
E bebe!
Me condimenta
E come!
Me alimenta
E cede
Ao sono
Eterno...


Sei que já não há estrelas
Na noite que te recobre e veste
E que já não há mais beijos
Como aqueles que me deste

Mas o jardim em que descansas
Não se esqueceu de ti
E, por apiedar-se de mim,
Improvisou essas lembranças

Deu-me as rosas dos teus olhos
Com as cores do teu corpo
O perfume do teu nome
Assobiaram os rouxinóis

Então vieram os vagalumes
E desenharam o teu sorriso
Iluminaram de improviso
Do coração meu o negrume

Juntei-os todos e os guardei
Num jarro antigo que eu te dei
Troquei os doces e os confeitos
Por saudades no meu peito

Hoje não dormirás sozinha
Recoberta de jardim
Com a luz dos vagalumes
Ao teu lado
Para sempre
Deitarei

Quem sabe um dia nós também
Viremos lume e vaguemos
No jardim de outro alguém...




No sonho (?) havia esse corredor
De um lado os vitrais e a refração da noite
Do outro, os olhos em óleos sobre tela
A me seguirem estancado, o horror

Ao fundo a fátua figura
De branco rasgado e despenteado
Cabelo no rosto sombrio e esguio
Flutua flanando, o fantasma da noiva

Dois candelabros de velas antigas
Balançam as chamas já por se apagarem
Fazendo as sombras — do quê?! — deslizarem
Enquanto me alcanças recitando cantigas

Não posso mover-me, não estás mais tão longe
Espectro sinistro, translúcida alma
O vento assobia à fresta do vidro
Sibila meu nome por entre teus dentes

Nos quadros os rostos sorriem zombando
Do medo terrível que vai-me tomando
Tão perto teus ossos à mostra por fim
O último beijo amortalha-se em mim


Faz frio no sótão da solidão
E estás aí, tão quente e perto
Teu coração

Se o tiro para mim
Ficas oca, vazia
Como eu

É assim que deve ser?
A que jaz acalenta ao peito
A pulsação que o vivente já perdeu?

A transfusão não é o bastante
Deita
O transplante é o modo derradeiro
De tê-la por inteiro
Ainda que os dois
Meio a meio...

Que a fria maca seja a cama
E a fina faca a promessa de quem ama
Até a morte que eu queria
E não esperava
De quem amava


Dou-te a noite
Se me deres o sono
E o abandono
Para que eu durma e sonhe
Que descanso
Na mais escura madrugada
Despida de qualquer estrela
A amamentar a lua nova
Com o seio seco
E a lascívia magra
Do corpo envolto na pele fria
Que a insônia embala
Em pesadelos vivos

Dou-te o soturno beijo
Se me deres o noturno alento
De fechar os olhos com a areia
Do teu deserto coração

Deixa-me descansar em paz
Que seja por uma noite
Por que me chamas do além
Se só recitas o desdém
De vagar sombrio
Pela tua vigília arcana?

Se do gato preto na escuridão
Veem-se só os olhos que me refletem
Então há mesmo um gato na escuridão
Ou sou eu quem vês
Nos olhos de quem já não é?

Duas cabeças conversam
À luz defunta do coveiro
Somos eu e você no sonho
Do fantasma do jardineiro
Morto e enterrado no canteiro
Das rosas negras que por mim morreram
Ao colhê-las para mim
Sepulcro enfeitado de um cheiro bom

Dou-te a noite
Se me deres o sono
Pois já chega o dia
Com sua realidade
Iluminada e maldita
Claridade



Tirou-se-me tudo
Menos a dor de sonhar
Que resta-me tudo ainda
Enquanto eu puder sonhar
Com tudo que de mim foi tirado


Deixei à cartomante a própria sorte
Pois te negara a mim como amante
E corri depressa ao alfaiate
Esperando, remendasse,
O que dissera, disparate

Dei-lhe a linha, da mão, a da vida
Que logo se acomodara confortável
No buraco da agulha fina e comprida
Com que o destino espeta, fura
Estanca e sangra, rasga e costura

Puxei a ponta, do coração, a linha
Áspera, encardida, desbotado carmim
Não quis aceitar a agulha
Amor é ponto que se dá sem nó(s)
Se quiser, com ela eu enfeito
É o jeito

E de todas as linhas se serviu
Da destra que faz o ponto
À sestra, seu contraponto
E bordou-me à borda em bordô
Do nome que a cartomante não viu

Se não posso nu ao teu lado
Se não podes nua comigo
Que me valha o enxoval retalhado
Que esse amor seja em matelassê

Assim disse a cartomante
Quando lhe perguntei quem me ama
E ela, cega de um olho,
Respondeu-me, sorrindo e banguela:
Ninguém


Beija-me e preserva os lábios
Criatura da noite impura
Pois sem eles não me é possível
Que uma vez mais te conjure