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No dia em que saí do estaleiro
Batizada de champanhe com teu nome
— molhada de álcool e de homem —
Recebeu-me o oceano por inteiro

Fui de um a outro continente
De calmaria a tempestade
Às vezes sem a menor vontade
À deriva, vento em popa, contente

Ah, tantos portos e pessoas conheci
Fui de carga, reboque e passageiro
Ora às correntes, ora ao timoneiro
Naveguei, soçobrei, adernei, (vi)vi

Então um dia uma onda traiçoeira
— Não duvido, inveja de sereia —
Levou-me à praia em cuja areia
Escrevemos nossos nomes, noite, candeia

Aquele mar que de tão raso
Revelava meu próprio casco
Prendeu-me ao fundo por descaso
— navio na garrafa, frasco —

Nua maré baixa
Vestido d’água maré alta
Transparente de qualquer modo
Afogada de mar, sufocada de ar

Só sobrou-me a carcaça
Que do tempo por trapaça
Enferruja, corrói e dói
Com a maresia úmida e salgada
Que já traguei da tua boca

S/ua
O/utrora
S/ua
A trapezista suspira
Toma impulso
                               e
                                       se
                                               joga
E balança                     de um lado
Pro outro                   e me alcança
E se vai                   e me encontra
E me deixa                    eu suspiro
Sem pulso                       transpiro
Quando quero                   desama
Quando ama                  não quero
               
                Duplo mortal!
                 
                    do susto
             
                         e
                   
                        da

                     queda
               
        Nosso amor nunca quis
      uma rede de inseguranças
Quanta manha tem a aranha
Que me tem no emaranhado
Da teia que tece em torno
Do coração encurralado?

O que tem em mente a aranha
Que com fio de seda mente
E me prende na corrente
Desse vício recorrente?

A aracnofilia foi do beijo que roubei
A aracnofobia foi do amor que eu jurei
Traz azar matar aranhas logo pela manhã
Hoje vou dormir sozinho, preciso de um talismã
A má fama que tem
O coração de marinheiro
Que navega enquanto bate
E não aporta pra ninguém

Deixa náufragos em terra
Amores que no mar enterra
Mas que dos quais nunca se esquece
As ondas marulham nomes...

Isso dizem os poetas
Que a seu modo são marujos
Uma musa, um poema
E já se busca um outro intrujo

No fundo d'alma-oceano
O que deseja, se não me engano
É ao lado de um único amor
Amar a mar

Foi um velho pescador
Quem contou-me esses versos
Tirados de dentro de um peixe
Talvez fosse um namorado
A pena já correra um verso
Dois
Quase um terceto
Foi no fim do quarteto...

O escritor levantou-se
A pena adormecida
A tinta molhada ainda
O escritório vazio...

Fechou-se a porta — rangia
Ganhou a rua — vazia
Molhou-o a chuva — fria
Abandonou a poesia

Sem razão nem motivo
Nunca mais fez-se visto
Por sobre o papel
Agora quem chora é a musa...
Bruxa de branco
Etérea na tumba
Percorre alamedas
Do meu cemitério
De sonhos

Bruxa de branco
Que teu mal sucumba
Encontra veredas
Em cantos, refúgios
Medonhos

Bruxa de branco
Feitiço, quizumba
Vai-te às labaredas
O amor é o critério
Suponho...
Veio o vento do mar
Ou do céu — o azul é um só
De nuvens, espumas e pensamentos
Tão iguais, tão sós
Voláteis ventanias
Fácil se des fa z  e     m

E ventou as lembranças
E soprou a alma
Pra longe, pra fora, pro nada
Pra nada
Por nada

E fui-m'em paz
Sou ar e ave
Descanso
Leve

Vem
Singra cada onda
Desse mar de desejo
Vagas que se curvam
Em arquejos de sal e suor
Cardumes de beijos

Atravessa a tempestade
O veleiro ao vento
Que as velas infla e rasga
— vestes da nau —
E apaga e ao escuro nos lança
Qual de nós, capitão,
Tem na mão o corpo e o timão?

Vai
Sangra as dunas
Oceano de areia seco
Tom de pele — a minha
Com o leme da escuna
Que me rasga o leito
Acaricia o peito
E me naufraga ao sol
Que bate na janela
Escotilha da embarcação
Que fui
Ao fundo do mar
E da cama

Alga marinha
Algo sozinha
A correnteza leva
A corrente prende

Escuridão abissal...
E então chegou o dia em que tu foste
Sem aviso, supetão, triste, toste
Chovia, eu bem me lembro
Chovia fora, aguava dentro

A neblina cobriu o céu, cobriu o sol
Cerrou a esperança e o teu aceno
Que não veio
Pois que eu só imaginei-o

Fiquei vazia, oca
Gritei por cada cômodo, rouca
Vaguei por cada canto, louca
Mouca, não ouvi a despedida

Faz tanto tempo... a grama já cresceu
Cá dentro o vento... uma janela que cedeu
Cansou-se, como eu, de esperar
A cerração também me abandonar

De velha a ponte já ruiu
Rangeu como o assoalho
E não há nenhum atalho
Em que se me divirta um carril

Escura, velha, desprezada
Casa vazia
Tornei-me, mal
Assombrada...




(Foto A. Malta, In Fotografias do Rio de Ontem; Coleção Memória do Rio Vol. 7. Foto do Colégio Santa Inês)
Pó de café?
Pode
Torrado e encafifado
Moído na moenda
As duas faces da moeda
O bule e a xicrinha
Eu frio você fervente
Chega a dar dorzin’ no dente
É da mordida da broinha
De milho com o cafezin’

E o papo?
Conversê
A mode de eu saber
Quem é que and’ amand’ocê
A mando do Coronel

Quem me ama
Só me ama
Mas quem toma o cafezin’
Megulhado da broinha
É aquele que à notinha
Come o meu doce de leite

Amor de roça
É na cozinha
Panela de barro
Moringa d’água
Arre, égua!
Beijo capiau
E colher de pau