Visitas


Pão, quem te quer?
Farinha, fome,
Fermento, fome
Quanto tempo?
Hmmm, tempão no forno
Ah, e o cheiro, o dia inteiro
Na narina – margarina!


E a fome tomando a forma
Magrinha do pão de forma...

Pão, quem te quero!
Assa, passa à bandeja
Repassa ao cesto
Volúpia, presto
Que a fome arqueja!

Feliz mesmo é a manteiga
Desliza, derrete, meiga
Aconchegada na canoinha...
E eu aqui, sozinha, leiga


Coração, quem te quer?



Sou aquela que guarda
O segredo da resposta
Sou aquela que aguarda
A tua pergunta, descomposta

Sou aquela que te enreda
Mas metáforas do oráculo
Diásporas dos sentidos
Absurdos do vernáculo

Sou aquela que segreda
Os pecados proibidos

Speculum speculorum

Sou mais breve que a eternidade
Sou eterna brevidade
Sou o verso do reverso
Sou aquela que declama – e ama – inversos

Sou aquela que, fingida, foge
Sou aquela que fugida, finge
Sou aquela que transige
O que mais te aflige

A fuga é um refugo tão fugaz...

Foge!, sem nada ter compreendido
Quando eu me for, terás sabido
Que sou aquela, a ex que finge
Que não é ex; finge,
Tu também...


Remexe a anca e te destranca
Faz das pernas a cedilha
Destas longas tranças
Que destranças
Ao te afagarem
As lembranças
Das danças
Dos dedos

Dos medos...
Achei a chave da fechadura tua
Emperrado amor
Maçaneta torta

Abre a porta!
E deixa que o segredo
Do cadeado desse corpo
Eu descubro

Sem a tranca, nua...



Na estante da praça
Que guarda as memórias
Da vida de quem vem, vai e passa
Tu deixas teu livro livre
Leve a quem leve
Ou levas a vida
De quem já foi livre
E agora está preso à estante
Rubra da vida da praça?



Ah, peça-me um beijo obsceno
Roube de mim o sossego
Tire de mim o juízo
Mas não me venha pedir
Nem um verso sequer
De uma velha poesia
Qualquer

Por que perder tempo
Rabiscando o papel à pena
Quando melhor rima faria
Escrever-te na a pele à língua?

Por que construir uma estrofe
Quadrinha, trova, soneto
Se o corpo teu que adoro
Já é construção, é poema?

Ah, não peça nem mesmo uma linha
Não me prendas à escrivaninha
Liberta-me à cama e ao quarto
E ao amor descabido, farto

O escritor quer da musa a palavra
E da mulher a loucura
Aquela a tinta grava
Esta é a mais bela gravura
Acorrentada e sentenciada
À umidade do teu desejo
Apodreço no cativeiro
— masmorra de teus sorrisos —
Esperando do carcereiro
Um pouco do teu gracejo
Que um tanto desconfiado
Estranharia tantos risos

E vivo assim, prisioneira
Encarcerada no calabouço
Onde toda a boca se cala:
No poço frio e escuro

Do teu beijo sombrio e sujo
Desespero no encalço dessa alça
Que espero – enlouqueço
Deslizar por sobre os seios
— Os anseios —
Sem contudo desnudar
Cada desejo intumescido
De seda e rendas
De sonhos arrendados
Por quem sonha arar a terra
De que és feita

De que me cobres...

Imagino que te dobres
Sob o peso do afago e do apego
Pecados nobres — sem sossego
E que as curvas dos espamos
Deixem os loucos pasmos
De sanidade ao ver que a cura
De toda essa loucura
É entregar-se sem juízo — nem censura
A tudo o que é não são:
Tanto o amor
Quanto a paixão

E morramos todos
Nos estertores

Da contradição
A rua de terra batida
Casario adormecido
É noite, falta luz
Sobra insônia
E nem um sonho...

Estrelas brilham no mesmo
Tempo do canto dos grilos
Brilha o grilo no grama
Guizalham as estrelas no céu
Mortas, as folhas dançam
O vento se a lhes concedeu
Mariposas farfalham

Ninguém no portão a chamar
Vou atender, pode ser...
Quintal de ossadas
Manhãs enterradas de tarde
Veladas à noite
Ressurreição, madrugadas

Penduro-me à grade
Agrada-me o escuro
Da rua deserta
Fantasmas não deixam pegadas

Um relâmpago longe
Depois da montanha
O som do trovão me fala de um nome...

Sob a luz repentina
Do poste entortado – cansado
Surge-me um cão
Sobre as patas sentado

Seus olhos flutuam no preto do pelo
Me encaram e perguntam:
Você não tem medo?

Só do segredo
Que o peito
Não conta

E do cão
Que anda na luz
Eu tenho cá comigo
Meu velho e finado amigo
— além de um simpático cacófato —
Esta desassossegada ideia:
De que vão-se na boleiaa
De todo antigo caminhão azul
Desbotado de tempo à sombra da praça matriz
— cidade pequena, tração a mula
podia ser burro, mas perdia a rima
Enguiçado à sombra da amendoeira
Anciã padroeira
Onde jaz o ressequido chafariz
Esquecido (eu também)
Toda minha vida, inteira a minha memória
Todo o meu passado,
...
No motor já não há mais torque
Na beira da minha estrada
Aguardo por um reboque
Que (me) leve
...
O céu é tão antigo
E tão azul...