Visitas

Beija-me os lábios que exalam
Cala-me os lábios que me águam
Seco doce, tão doce
Quem disse que água e azeite não se misturam?
Na minha cozinha, sim!

Tempero-te a boca
Mas já não posso dizer
Quem é prato quente de quem
Com tantas sobremesas
Espalhadas sobre corpos
E mesas...

A arte de escolher o talher
Ou lambuzar-se de mulher?

Falo que te quero
E não acreditas
Tens também o nariz arrebitado
Bico por bico
Tenho dois - três - mais empinados

Grandes e pequenos beijos
Assim também são os lábios
Que se derretem
E em que perdes
À míngua
A língua

Falo que te quero...


Você é castelo de areia — fina
Escorre com o tempo e some
Desaparece em qualquer marola

Eu sou castelo de cartas
Tão difícil manter o equilíbrio...
Desabo com qualquer brisa

Duas fortalezas
Desde o início – certeza!
Feitas para ruir
Fazer sucumbir
Eu, seu rei, em masmorra de lama
Você, minha dama, sob um monte de cartas

Jogo sujo em que ninguém vence

Só escapa do escombro o valete
De argila - cerâmica - seca
Em quatro naipes caiu e quebrou

Era o amor entre nós
O que trai à noite o rei
E abandona à manhã a rainha

Quem fica com o morto?


Toca o baixo
Me toca abaixo
Baixinho a nota
Que o tom do som
Da voz denota
Descompassada e atravessada

Belisca a corda
Me tensiona
Tira de mim um acorde
Que me acorde
Me decompõe em fusas e semifusas
Solfejo-te tão confusa!


Sou tua caixa de ressonância...
Quem sou insone?
Em quantas camas não adormeci
Esperando de sonhos que não tive
Um amante que me dome
E que domado pela fúria
Daquela que nunca dorme
Adormecesse ao meu lado
Cansado de luxúria

Quantas sou sem sono?
Tantos desejos ressono
Obscenidades ronrono...
Sou gata vira-lata
Que arranha o travesseiro
E o nome do parceiro
Com a voz entrecortada
Com medo do pesadelo
De perdê-lo
Num sonho qualquer
Que tenha acordada
Num sono qualquer
Em que me sonhe
Desnudada

Quantas sou à cama?
Com quantas de mim me deito?
Vejo-me a meu lado
Por baixo e por sobre mim
Delicioso e solitário festim
E nem assim
O cansaço me pacifica

Desperta reparo a chama
Da vela ao criado-mudo
Dançando em silêncio e penso:
Meu corpo de cera inflama
Derrete, resfria e seca...

Será que morri de amor?
Ou foi só a vela que sou
Aquela que se apagou?
Duas penumbras se encontram
Numa única sombra à cama
Ou bem a solidão
Ou bem a escuridão

Quando sair
Apague(-me) a luz do dia

Preciso anoitecer
O peito é oco
— O coração vazio
Ainda assim ecoa
De um lado a outro
Teu nome rouco
— De tantos gritos

Que rebate no reboco
Se debate como louco
Por pouco não sufoco
— Cardioclaustromonofóbico

Todo defunto é mouco
Na caixa de vidro
A borboleta voa aflita
No caixão de cedro

Quanta agonia
Debaixo da terra
Depois que se enterra
Aquele que erra
E que era
O nosso
Amor
Houve um sol, um só
E então te nublaste
De roupas e flores
E as nuvens ficaram pra sempre
Por mais que eu as tenha chovido

Na terra molhada
De chuva chorada
Aguarda-me um beijo
De lama e de charco
De roupas rasgadas
De flores e odores podres
Sem cor

Ouve, um sol!
Chilreia um rouxinol
Na chuva

Um corpo