Visitas

Adormeci Narciso
Sonhei espelho
Nunca mais despertei...


Sou a puta mais à toa
A rameira que toda noite
Vem à tona e beija
Tua boca átona proibida

Sou a vadia da anca harmônica
Do gozo crônico e sincrônico
— Não sei bem se minto ou sinto —
E coração triste e afônico

Venho nua com a lua
Vou a giro com o sol
Já não quero mais teus réis
Quero mais o teu sorriso

E se pra isso for preciso
Abro mão dos aluguéis
Acordo à cor do arrebol
Dou adeus ao álcool
E a Deus a pua

Amanhã em tua cama
Nova noite, lua nova
Diz que sou a tua dama
E que ainda me queres
Cortesã


Nasceu versinho
Cresceu, rimou,
Encontrou uma estrofe

Se apaixonaram
E nasceu um poema
Que agora é seu

Porque apaixonei-me
Também eu
Por você


Notei-te, janota
E anoite: conotar-te
Em um verso ou dois

À noite, deitei-me contigo
— denoitei-te —
E denotei-te, apenas

Pela manhã, ao sair,
Deixei-te uma nota
Um poemeto que te conota

Morre toda poesia
Nas mãos de qualquer teoria
E assim seguimos vivos!
É prática nossa vilania

Não sei se fiquei sem sentido
Denotado
Ou se minha nota e nossa noite
Nosso coito e nossa cota
Me fizeram conotado

O teu sorriso no fim desta poesia...
Ah, notaste!


Amanheci pra te dizer
Que hoje ao anoitecer
Se quiseres podes ser
Meu pó de estrelas
Solúvel no céu da boca
Cheia d'água
Incandescente
Frágua


Então é isso
Não me levas hoje?
Não posso
Não é a hora...
Nem um beijo?
Só o escuro
Já tenho o da noite
E o do dia
Eu sei, os meus são breu

Vais mesmo?
Você sabe, há outros
Mas por que não eu?
Porque me queres
Há quem te queira
E te tenha!
É bem menos doce
Creia

Então por que o flerte?
É você quem flerta
Correspondes!
Eu sei, me desculpe
É mais forte
Que a própria morte?
Sou vaidosa

Fica
Já é meia-noite
Só um café
Você sabe, tenho hora
Que é tu quem fazes, ora!
Está bem, um café
E um beijo
Só o café
Pus veneno
Eu disse que é menos doce
Sempre gostei do amargo

Então, não demore
Você sabe, tenho pressa
Não te preocupes
É expresso
O café?
O beijo...


Ê passarinho
Voando longe do ninho
Só pra me dizer cantando
Na beirada da janela
O nome daquela
Com quem venho sonhando

Ê passarinho
Quem dera eu voasse pra ver
Meu amor onde quer que estivesse
E pudesse pousar no seu ombro
De leve sem ela perceber;
Trinar "eu te amo" e
Surpresa!
Logo desaparecer

Ê passarinho
Agora me conta
Que é pra ninguém saber
Quem voa mais alto
Você com suas asas de pena
Ou eu imaginando
Com pena, ter asas?



Fechaste-me todas as portas
E todos os corações
Tiraste-me todos os sonhos
(menos os mortos)
E todas as profissões
Surraste-me a cada dia
Nunca tive descanso
E tu, jamais, piedade

Roubaste-me a família
Mataste-me o amor
Negaste-me até mesmo
O direito de ajuda pedir
A qualquer um
Por qualquer coisa
Um alívio qualquer

Fui teu trapo, tua vítima
Nada sobrou-me, ninguém
Senão desespero e dor
E na escuridão da doença
Escondeste-me a cura

Mas, no final, vida
Por mais roto e desgraçado
Imprestável e infeliz que eu esteja
Ainda terei o direito da morte
E então, vencerei sobre ti
Porque não lhe darei
O prazer de sentir
Que eu sinta em minha boca
O meu próprio gosto de sangue
Mas tu sentirás todo o fel
Da amarga derrota o gosto

E estará terminado o terror
E determinado
Com o meu
O teu
Fim


Partir
Mas
Para que parte ir?


Vê, a maré sobe depressa
Vai encobrindo a praia
Cada onde me alcança mais
É chegado o fim do pária
A estrela do mar me confessa
A estrela do céu, não mais...

O tempo e a ilha ficam menores
Fecha-se o cerco d'água
Recuo colina acima
É ela que se aproxima...
Nunca vieram os dias melhores
Sempre comigo a mágoa

Sobra a terra sob meus pés
Não a terei sobre mim, ao invés
O mar que salguei de chorar
Por mim que não soube amar

A ostra enfim
Volta pro fundo do mar...



Fabulagarta

Houve uma lagarta nesse jardim secreto, que todos conhecem muito bem, que, contra todas as expectativas, gostava de ser lagarta. Não tinha a menor pretensão de ser borboleta. Nisso todas se tornam, onde está a diferença?, argumentava. Gostava da sua lentidão zen, do seu verde misturando-se entre a grama. A borboleta, diziam-lhe, é livre, belíssima e, sobretudo, voa. Ao que respondia-lhes a lagarta: isso se não virar uma mariposa feiíssima, negra como carvão. Mas, se ainda for colorida, pior: veem-na de longe os predadores. Ora, eu, se for o caso, defendo-me muito bem com minhas anteninhas em forma de penugem, muito venenosas e capazes de queimar até os gigantes mais perigosos! A borboleta, quando muito, entala na garganta de um passarinho. Além disso não vive muito, é fraca, leva-a o vento para onde quiser. Se é bonita? Beleza é gosto. E virava-se para o lado e continuava a vagar, devagar, sem muita divagação a lagarta a quem todos no bosque escondido de ninguém chamavam de rude e ate de antipática. Mas a lagarta, garanto eu que a conheci de perto, não era sequer sisuda. Não. era uma lagarta sincera e, diria, até mesmo doce. É que a personalidade destoa, e o que destoa fere os ouvidos de quem está acostumado a só ouvir a mesma melodia.
E assim a lagarta vivia seus dias, na pachorra verde de suas mil patinhas em ritmo lento, ondulando seu corpinho no gramado ao sol, alimentando-se de grama, bebendo as gotículas de água que a umidade deixava na relva. As outras lagartas do bosque, depois de transformadas em borboletas, vinham sempre conversar com ela, mostrando-se felicíssimas em poder voar, orgulhosas das cores de suas asas, e respondia-lhes a lagartinha: e ainda assim, as verei todas mortas porque duram dias, algumas de vocês, horas. E pudera, com todo esse estresse de não pararem quietas um só instante! E tomava seu caminho.
Num dia de sol o bosque parou para presenciar o inimaginável. Aquela lagartinha rebelde, viram-na subindo a mais alta das árvores, muito devagarinho, centímetro por centímetro. Todos imaginavam que a lagarta iria, finalmente, se preparar para virar uma crisálida e esquecer aquela ideia nada normal de continuar como uma lagarta sem graça, lerda e sem vida. E quanto mais a lagartinha subia na árvore, mais os outros animais paravam para testemunhar a natureza retomando seu curso! Em que tipo de borboleta a lagartinha se transformaria? Seria uma mariposa? Indiferente aos comentários, a lagarta chegou finalmente ao galho mais alto e foi até sua ponta. Isso levou o dia inteiro, o sol começava a se por. Chegando na pontinha, pendurou-se de cabeça para baixo, ao lado de uma folhinha verde e ali ficou suspensa por apenas duas patinhas. Então, para o terror de todos naquele jardim secretíssimo que todos sabem onde fica, a lagartinha soltou-se do galho propositalmente e caiu de muito alto, parando em cima de uma flor que, ainda que macia, não pôde salvar-lhe da queda.
Todos correram e se juntaram ao redor da lagartinha, e lá estava ela, moribunda, já no fim, nos estertores de sua vidinha verde e lenta. Foi então que uma borboleta pousou-lhe ao lado e pegou numa das patinhas da lagarta com as suas para servir-lhe de companhia derradeira. A borboleta então perguntou-lhe: mas por quê? Por que deste fim esse fim a ti mesma? Por que não te transformaste em borboleta como deveria ser? E a lagartinha, já fechando os olhos e relaxando o corpinho mole respondeu-lhe: mas eu voei , não voei? Voou, disse a borboleta com os olhos úmidos. Do alto do galho de onde a lagartinha se atirara, voou com o vento aquela folhinha verde...
Ah, marinheiro...
Dessas que dizes ter mil
Cada uma dessas mil
Mil e uma têm de ti

Se se espera o barco
Não se espera o corpo
Abrem-se as velas
E as pernas
Imensidão pra nunca mais...

Chegas do sal e me reclamas
Como fazes em outras camas
Mas desta sou a fronha
O cobertor e o travesseiro
Deito-me porque quero
Dou-te-me porque espero
Que te aposses do timão
E me leves, embarcação
Para o porto
Atracação

Ah marinheiro, pobre marinheiro...
Se soubesses como te espero
Tanto quanto me anseias...
Mas somos de tantos
Tripulação

Se depois de sete mares
Esta puta desejares
Depois de sete amares
Somente tu a te deitares!



Agora que leste este verso
Imagina não o teres lido
Não importa o quanto tentes
Já viste que é impossível

Assim é desimaginar
Não a ter amado
Depois de tê-la sonhado

Nem ela nem este poema
Nos escaparão nunca mais da memória

Deslembra-me se capaz...