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Fabulagarta

Houve uma lagarta nesse jardim secreto, que todos conhecem muito bem, que, contra todas as expectativas, gostava de ser lagarta. Não tinha a menor pretensão de ser borboleta. Nisso todas se tornam, onde está a diferença?, argumentava. Gostava da sua lentidão zen, do seu verde misturando-se entre a grama. A borboleta, diziam-lhe, é livre, belíssima e, sobretudo, voa. Ao que respondia-lhes a lagarta: isso se não virar uma mariposa feiíssima, negra como carvão. Mas, se ainda for colorida, pior: veem-na de longe os predadores. Ora, eu, se for o caso, defendo-me muito bem com minhas anteninhas em forma de penugem, muito venenosas e capazes de queimar até os gigantes mais perigosos! A borboleta, quando muito, entala na garganta de um passarinho. Além disso não vive muito, é fraca, leva-a o vento para onde quiser. Se é bonita? Beleza é gosto. E virava-se para o lado e continuava a vagar, devagar, sem muita divagação a lagarta a quem todos no bosque escondido de ninguém chamavam de rude e ate de antipática. Mas a lagarta, garanto eu que a conheci de perto, não era sequer sisuda. Não. era uma lagarta sincera e, diria, até mesmo doce. É que a personalidade destoa, e o que destoa fere os ouvidos de quem está acostumado a só ouvir a mesma melodia.
E assim a lagarta vivia seus dias, na pachorra verde de suas mil patinhas em ritmo lento, ondulando seu corpinho no gramado ao sol, alimentando-se de grama, bebendo as gotículas de água que a umidade deixava na relva. As outras lagartas do bosque, depois de transformadas em borboletas, vinham sempre conversar com ela, mostrando-se felicíssimas em poder voar, orgulhosas das cores de suas asas, e respondia-lhes a lagartinha: e ainda assim, as verei todas mortas porque duram dias, algumas de vocês, horas. E pudera, com todo esse estresse de não pararem quietas um só instante! E tomava seu caminho.
Num dia de sol o bosque parou para presenciar o inimaginável. Aquela lagartinha rebelde, viram-na subindo a mais alta das árvores, muito devagarinho, centímetro por centímetro. Todos imaginavam que a lagarta iria, finalmente, se preparar para virar uma crisálida e esquecer aquela ideia nada normal de continuar como uma lagarta sem graça, lerda e sem vida. E quanto mais a lagartinha subia na árvore, mais os outros animais paravam para testemunhar a natureza retomando seu curso! Em que tipo de borboleta a lagartinha se transformaria? Seria uma mariposa? Indiferente aos comentários, a lagarta chegou finalmente ao galho mais alto e foi até sua ponta. Isso levou o dia inteiro, o sol começava a se por. Chegando na pontinha, pendurou-se de cabeça para baixo, ao lado de uma folhinha verde e ali ficou suspensa por apenas duas patinhas. Então, para o terror de todos naquele jardim secretíssimo que todos sabem onde fica, a lagartinha soltou-se do galho propositalmente e caiu de muito alto, parando em cima de uma flor que, ainda que macia, não pôde salvar-lhe da queda.
Todos correram e se juntaram ao redor da lagartinha, e lá estava ela, moribunda, já no fim, nos estertores de sua vidinha verde e lenta. Foi então que uma borboleta pousou-lhe ao lado e pegou numa das patinhas da lagarta com as suas para servir-lhe de companhia derradeira. A borboleta então perguntou-lhe: mas por quê? Por que deste fim esse fim a ti mesma? Por que não te transformaste em borboleta como deveria ser? E a lagartinha, já fechando os olhos e relaxando o corpinho mole respondeu-lhe: mas eu voei , não voei? Voou, disse a borboleta com os olhos úmidos. Do alto do galho de onde a lagartinha se atirara, voou com o vento aquela folhinha verde...

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