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Não me venhas com a velha rima
Ideia suja e ressecada
De quereres ser meu sabonete
E me deixares perfumada

Nem te quero-me esfregando
Como esponja a pele inteira
E nem penses em abraçar-me
Como abraça-me a banheira

E não me importo se disseres
que me banho em tuas lágrimas
Salgadas — sais de banho
Sais do banho, assim, tão trágica...

Não saio, não insista
Nem queiras ser a toalha
Que me enxuga o corpo e a vista
E nem sei sequer se quero
Que a muito mais assistas

Talvez depois de seca
Com alguma roupa à cama
—Se o sono permitir
E a insônia me convencer —
Deixo que tu em mim te banhes
E que eu seja a tua esponja



Me diz teu nome
Fome
De quê?
Você!
Não sou tua carne
Encarne
E nem teu pão
Paixão
Me sirva à taça
Faça
Teu vinho tinto
Absinto
Tão sedenta...
Me arrebenta
E bebe!
Me condimenta
E come!
Me alimenta
E cede
Ao sono
Eterno...


Sei que já não há estrelas
Na noite que te recobre e veste
E que já não há mais beijos
Como aqueles que me deste

Mas o jardim em que descansas
Não se esqueceu de ti
E, por apiedar-se de mim,
Improvisou essas lembranças

Deu-me as rosas dos teus olhos
Com as cores do teu corpo
O perfume do teu nome
Assobiaram os rouxinóis

Então vieram os vagalumes
E desenharam o teu sorriso
Iluminaram de improviso
Do coração meu o negrume

Juntei-os todos e os guardei
Num jarro antigo que eu te dei
Troquei os doces e os confeitos
Por saudades no meu peito

Hoje não dormirás sozinha
Recoberta de jardim
Com a luz dos vagalumes
Ao teu lado
Para sempre
Deitarei

Quem sabe um dia nós também
Viremos lume e vaguemos
No jardim de outro alguém...




No sonho (?) havia esse corredor
De um lado os vitrais e a refração da noite
Do outro, os olhos em óleos sobre tela
A me seguirem estancado, o horror

Ao fundo a fátua figura
De branco rasgado e despenteado
Cabelo no rosto sombrio e esguio
Flutua flanando, o fantasma da noiva

Dois candelabros de velas antigas
Balançam as chamas já por se apagarem
Fazendo as sombras — do quê?! — deslizarem
Enquanto me alcanças recitando cantigas

Não posso mover-me, não estás mais tão longe
Espectro sinistro, translúcida alma
O vento assobia à fresta do vidro
Sibila meu nome por entre teus dentes

Nos quadros os rostos sorriem zombando
Do medo terrível que vai-me tomando
Tão perto teus ossos à mostra por fim
O último beijo amortalha-se em mim


Faz frio no sótão da solidão
E estás aí, tão quente e perto
Teu coração

Se o tiro para mim
Ficas oca, vazia
Como eu

É assim que deve ser?
A que jaz acalenta ao peito
A pulsação que o vivente já perdeu?

A transfusão não é o bastante
Deita
O transplante é o modo derradeiro
De tê-la por inteiro
Ainda que os dois
Meio a meio...

Que a fria maca seja a cama
E a fina faca a promessa de quem ama
Até a morte que eu queria
E não esperava
De quem amava


Dou-te a noite
Se me deres o sono
E o abandono
Para que eu durma e sonhe
Que descanso
Na mais escura madrugada
Despida de qualquer estrela
A amamentar a lua nova
Com o seio seco
E a lascívia magra
Do corpo envolto na pele fria
Que a insônia embala
Em pesadelos vivos

Dou-te o soturno beijo
Se me deres o noturno alento
De fechar os olhos com a areia
Do teu deserto coração

Deixa-me descansar em paz
Que seja por uma noite
Por que me chamas do além
Se só recitas o desdém
De vagar sombrio
Pela tua vigília arcana?

Se do gato preto na escuridão
Veem-se só os olhos que me refletem
Então há mesmo um gato na escuridão
Ou sou eu quem vês
Nos olhos de quem já não é?

Duas cabeças conversam
À luz defunta do coveiro
Somos eu e você no sonho
Do fantasma do jardineiro
Morto e enterrado no canteiro
Das rosas negras que por mim morreram
Ao colhê-las para mim
Sepulcro enfeitado de um cheiro bom

Dou-te a noite
Se me deres o sono
Pois já chega o dia
Com sua realidade
Iluminada e maldita
Claridade



Tirou-se-me tudo
Menos a dor de sonhar
Que resta-me tudo ainda
Enquanto eu puder sonhar
Com tudo que de mim foi tirado


Deixei à cartomante a própria sorte
Pois te negara a mim como amante
E corri depressa ao alfaiate
Esperando, remendasse,
O que dissera, disparate

Dei-lhe a linha, da mão, a da vida
Que logo se acomodara confortável
No buraco da agulha fina e comprida
Com que o destino espeta, fura
Estanca e sangra, rasga e costura

Puxei a ponta, do coração, a linha
Áspera, encardida, desbotado carmim
Não quis aceitar a agulha
Amor é ponto que se dá sem nó(s)
Se quiser, com ela eu enfeito
É o jeito

E de todas as linhas se serviu
Da destra que faz o ponto
À sestra, seu contraponto
E bordou-me à borda em bordô
Do nome que a cartomante não viu

Se não posso nu ao teu lado
Se não podes nua comigo
Que me valha o enxoval retalhado
Que esse amor seja em matelassê

Assim disse a cartomante
Quando lhe perguntei quem me ama
E ela, cega de um olho,
Respondeu-me, sorrindo e banguela:
Ninguém


Beija-me e preserva os lábios
Criatura da noite impura
Pois sem eles não me é possível
Que uma vez mais te conjure