Visitas

Dou-te a noite
Se me deres o sono
E o abandono
Para que eu durma e sonhe
Que descanso
Na mais escura madrugada
Despida de qualquer estrela
A amamentar a lua nova
Com o seio seco
E a lascívia magra
Do corpo envolto na pele fria
Que a insônia embala
Em pesadelos vivos

Dou-te o soturno beijo
Se me deres o noturno alento
De fechar os olhos com a areia
Do teu deserto coração

Deixa-me descansar em paz
Que seja por uma noite
Por que me chamas do além
Se só recitas o desdém
De vagar sombrio
Pela tua vigília arcana?

Se do gato preto na escuridão
Veem-se só os olhos que me refletem
Então há mesmo um gato na escuridão
Ou sou eu quem vês
Nos olhos de quem já não é?

Duas cabeças conversam
À luz defunta do coveiro
Somos eu e você no sonho
Do fantasma do jardineiro
Morto e enterrado no canteiro
Das rosas negras que por mim morreram
Ao colhê-las para mim
Sepulcro enfeitado de um cheiro bom

Dou-te a noite
Se me deres o sono
Pois já chega o dia
Com sua realidade
Iluminada e maldita
Claridade



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