Visitas

Deixei à cartomante a própria sorte
Pois te negara a mim como amante
E corri depressa ao alfaiate
Esperando, remendasse,
O que dissera, disparate

Dei-lhe a linha, da mão, a da vida
Que logo se acomodara confortável
No buraco da agulha fina e comprida
Com que o destino espeta, fura
Estanca e sangra, rasga e costura

Puxei a ponta, do coração, a linha
Áspera, encardida, desbotado carmim
Não quis aceitar a agulha
Amor é ponto que se dá sem nó(s)
Se quiser, com ela eu enfeito
É o jeito

E de todas as linhas se serviu
Da destra que faz o ponto
À sestra, seu contraponto
E bordou-me à borda em bordô
Do nome que a cartomante não viu

Se não posso nu ao teu lado
Se não podes nua comigo
Que me valha o enxoval retalhado
Que esse amor seja em matelassê

Assim disse a cartomante
Quando lhe perguntei quem me ama
E ela, cega de um olho,
Respondeu-me, sorrindo e banguela:
Ninguém


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