Visitas

O autor cria
O escritor escreve
E o personagem atua

E o leitor à toa
Ao ler é quem deve
Fazer a magia

Da literatura

Eu podia esperar-te um pouco mais
Mas já não quero porque dói-me
O que a espera fez-me
E ainda faz

Eu podia sonhar-te um pouco mais
Mas já não quero porque nem o sonho
Que tornou-se enfadonho
Mais sentido faz

Eu podia morrer de esperança
Mas tudo isso já me cansa
Meus pulmões precisam de um ar qualquer
Já não me satisfaz uma ideia de mulher

Já imaginei-te o quanto pude
Envelheci à tua eterna juventude
E apesar de estares sempre comigo
Jamais estive eu contigo

A realidade me cobra o preço
Da solitária decrepitude
De tão cansado eu obedeço
E emudeço
Para sempre
Em meu desconfortável
Ataúde

Aqui do alto
À noite
Não enxergo o solo
Há névoa
A mesma que me enevoa
A vida, a visão, o vão

O vento me provoca
Balança
Quem quer o tombo?
Sopra, me lança
O que há de vazio em mim
Será que sua brisa alcança?

Seria tão mais fácil
Arremessar-me ao abandono
E abraçar o salto
Etéreos
Cego, livre e solto
De tudo
Que insiste
Em insultar-me

Faz tanto frio cá no alto
No alto de quê?
E as luzes da cidade
Que vislumbro
Piscam
Arriscam um aceno
Resistem às trevas
Interrompem a dor
Quem liga e desliga
O interruptor?

Melhor que o salto
E o acalanto do fim
Em voo
É sentar-me na beirada
De quê?
Para esquecer dos dias
E permanecer na noite
Fria, frios
No alto, distante
A um eterno instante
Do
Que

Por
V...i....r....

O vento venta para o moinho
Que mói meu amor devagarinho
E faz farinha do que já senti
Mas já não sinto, não mais, sem ti

E à farinha acrescento fermento
E aumento o tamanho do arrependimento
E levo ao forno, ao fogo, às chamas
Que a lembrança tua toda inflama

Deixo ao tempo fazer queimar
Essa mistura tão má e mortiça
Até que tudo se torne cinzas
E o vento volte e as faça ventar

Em direção àquele moinho
Como eu, tão sozinho
Que gira tão devagarinho
Que o tempo passa sem passar

Sem me dar tempo
De te reconquistar...

Pensa em mim como um inseto
Que julgas feio, abjeto
Que te provoca enjoo e medo
E de uma vez me extermina

Termina logo com o segredo
Que não passei de um brinquedo
Com que não mais tu te divertes
Já te cativam outros flertes

Mas te assegures da porrada
Que de mim não sobre nada
Pode matar o sobressalto
Imaginar a barata morta
E encontrá-la ali no alto
Escondida atrás da porta

Eu queria tanto que ficasses...
Deixo-me nos teus sonhos
Não é o bastante, os sonhos fogem
Mas não eu, sempre retorno

O que te fiz para perder-te?
Nada, só despertaste
Foi o sol com aquela luz
Nunca fechas a cortina
É o medo de perder a lua

E se tu ficasses hoje?
Durante o dia? Não poderia...
Faço-me cair no sono
Tem que ser inesperado
Como a página seguinte
Do livro que te deixa
Sonhoso, hipnotizado
E mal acostumado
A ver-me
Por entrelinhas

Então dormirei para sempre
Não, porque te arrependes!
Se é no sono que te beijo...
No sono que sempre acaba
E no sono em que se sonha
Com o que se ama eternamente?
Neste não sou eu
Mas uma outra
Que te rouba
A alma

É no escuro da casa morta
Que me encontram as almas tortas
Amores malditos, desaparecidos

Fantasmas e sonhos de faces horrendas
Que outrora beijaram-me a boca pudenda
Me lançam à loucura, solidão tão escura

Mais só do que eu é a casa sozinha
Sem rua, sem bairro, nenhuma vizinha
Tão longe da estrada, tão perto de nada

Se fecho meus olhos não vejo mas sinto
Olhares, sussurros, pavor indistinto
Se abro meus olhos... E você, o que vê?

Não há luz nem lanterna
Só vultos e sustos
Meu amanhecer há de ser
A insanidade
Eterna...

Minha cigana é meio profana
Anda descalça, vestido sem alça
Que mostra as canelas e o colo dela

Tem tantas pulseiras e tornozeleiras
E brincos e anéis que quase se esconde
De mim com o som de mil cascavéis

Minha cigana toca pandeiro, violino
Dança felina com jeito ladino
E canta, me encanta com a voz de cetim

Que lhe acaricia a santa garganta
Mais que os colares de ouro carmim
Mais que os beijos que dou-lhe na nuca

E que deixam minha cigana maluca


Imagem: Charles Roka (1912-1999)
Sonhaste-me nua
Suplicaste-me tua
Vim, o que te assusta?
A vassoura ou gato preto
No colo que queres?
Sabias-me bruxa
Agora te arrasto
Vais amar-me em Salem
E gozar no Sabá
Da minha cama pagã

Mas se me quiseres queimar
Queima de amor
Em tua estaca viril
Porém te advirto
As bruxas não morrem
Elas vêm, elas vão
Ninguém sabe
Feitiço

Vem, não te afastes
Do beijo
Envenenado
Da bruxa


Não resisto mais...
Mas eu sim
Não é o que dizem teus olhos
Nem teus mamilos
Nem a umidade dos lábios
Não quero...
Por que então me chamaste?
Não te chamei
Sonhaste comigo — é chamar-me
Como sabes?
Diz que meu rosto não te umedece
Ou o cheiro dos meus cabelos
Eu sinto... O toque..
Meu peito parece explodir
Eu bebo... Me beijas?
Talvez... Envolves tanto
Os contrastes e as linhas do rosto
Sou mulher como tu
Mais perto... Desnudas...
Desnudo
Calemos
Amemos
Shhh...



Meu nome é pesadelo
Sou tudo aquilo que desejas
Da anca que queres morder
Aos seios que queres beijar

Vê bem nos meus olhos
O sol que não brilha à noite
Também eu venho do nada
E do escuro que não esperas

O medo que te possui
Também é o que te dá prazer
Acima de ti sobrevoo
Queres mas não me podes ter

Todos os sonhos e musas
Se perdem em meus cabelos
Sou a única que teu corpo
Precisa para gozar

Mas não vais
Porque meu nome é pesadelo
E nunca mais tu vais acordar
Enquanto quiseres me dominar

Durmo dentro de ti
Não descansarás dentro de mim
Jamais
A paz

Imagem: "Bat-Woman" (1890), Albert-Joseph Pénot


Não sei bem se é essa sede
Ou se nasceu em mim esse desejo
Pelo mármore do teu pescoço
Raiado de artérias, veias — mapa

Poderia ser, quem sabe, só paixão
Mas se não bate o coração...
Então que seja só o tesão
De uma fria e morta fêmea
Que vem da fenda indiscreta
Das pernas torneadas
E da tampa do caixão

Se me viras o rosto
Mais bela ficas de perfil
Se me dás as costas
Tão mais anseio teu quadril

Um toque à nuca... arrepia!
Uma palavra sussurrada...
Meu chamado delicado
A morta e a viva — emaranhado!

Bem pior que minha mordida
É perder-me em teu olhar
Que arranca de mim a vida
Que já não tenho a suportar

Então que seja, hoje, assim
Só o leve toque e o arrepio
E o beijo que não se deu

Por que a pressa em seduzir
Aquilo que já é meu?