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Escrevo-te esta carta de poucas linhas
Pois pouca é a tinta da saudade minha
É a última vela, é o último fólio
Eu mesma não passo de um restolho
Do que já fui para ti
Do que nunca sofri

Desejo dizer-te apenas que amei
E que não me esquecerei 
De quem um dia fui
De ti talvez eu me esqueça
De nós dois, afinal
Só eu sobrevivi

Acaba o espaço no pergaminho
A chama da vela hesita
Vão-se as palavras...

Um último gesto da luz cansada:
Cobre-me com a sombra da pena

No escuro
Só os olhos de um rato brilham
Bem mais que os meus
Do mesmo jeito que brilhavam
Os teus


Eram tantas portas de todo tipo
Lisas, trabalhadas, esculpidas, tortas
De todas as cores
Fechadas a todos os amores
Que eu quis e não se me abriram
Vida que fecha, dura

Madeira maciça, pedra e ferro
Não houve chave, chamado ou berro
Que pelo menos à portinhola estreita
Me pedisse a senha insuspeita
E errada do teu nome ao cadeado
Preso enferrujado

Sem esperança de me ver entrar
À casa, ao colo, ao seio que quis amar
Deixei a cidade trancafiada, deserta
Na direção incerta e amaldiçoada
Da última porta que faltou visitar
A que para nenhum de nós
Há de se fechar

Entreaberta, emperrada e suja
Vigiada do alto por uma coruja
A porta de vidro quebrado e grades
Imóvel, translúcida deixou-me olhar
Deitada, sozinha de branco a sonhar

Quem é? Quem invade?
Sou eu, quem te amou
Mas jamais te contou
E o que queres agora
Que já passou da hora
De quereres qualquer querer?

Deitar-me contigo
E também descansar
De querer
Qualquer
Querer

E a porta entreaberta
Entre nós e a vida
Fechou-se


Escolhes teus amores
Como as flores que colhes...
Ah! Se Vênus me notasse
Pediria que me transformasse
Num girassol talvez
Alto e à altura de teus olhos
Que, se não me levasses,
Levariam-me eles a alma
E ao invés de deitar-me em teu cesto
Como tantas já deitaram
Dormiria, como poucos já dormiram
Em teus sonhos, somente eu


Quando perdi-me de mim
Ainda criança no escuro
Busquei à luz do abajur
Sozinho em bibliotecas
Alguma pista escondida
Em incontáveis livros secretos
Que tanta gente já lera
Quem era e por que me perdera

A cada página lida
Cada livro encerrado
Era um eu diferente
Sempre sonhando
Ter-me encontrado

Da imaginação de criança
Do herói ao vilão, capa e espada
Aos livros com poucas figuras
Vi por detrás das cortinas
A História dos Homens, da Vida
O que era o Amor
E as faces da Morte

Vi segredos do céu e da terra
E as línguas de todas as gentes
E vi que era um poço sem fundo
Seguir tantas letras e livros
Só pra saber quem eu era
Qual era meu papel no mundo

Depois de ler tanto, ler tudo
Mentira! que o tudo ainda é pouco
Decidi que talvez escrevendo
O que ninguém mais havia escrito
Mentira! porque já escreveu-se de tudo
Eu finalmente me achasse
E por fim desvendasse
Onde estava o menino perdido

E escrevendo encontrei mais de mim
Mais do que eu nem conhecia
Muito mais do que a criança pudesse
Saber que existia
Até mesmo sua própria existência perdida

Onde estavas enquanto eu crescia?
Na estante do tempo
Esperando ser lido
Depois de ter sido escrito...

Então decidi conversar
E escolhi o silêncio
Das ondas do mar

Em sua língua d'água
Que só a alma sabe falar
Quem sabe aprendesse a amar...

Sentei-me nas pedras
Da praia deserta
Nem ave, nem peixe ou estrela do mar

Entendeu o mar minha tristeza
E com toda a força da correnteza
Lançou-me uma onda terrível

E molhei-me todo e foi só
Da próxima vez
Escolho um jardim


O peso da terra sobre ti
Não é mais que o peso
Da saudade tua sobre mim

Terminam as noites em claro
Levanta-se um pouco menos
De mim a arrastar-se pelos dias

E assim também me deito
Lento como o tempo
Para sempre ao teu lado

Decompõem-se os dias
Decompomo-nos nós
Nossa vida composta
De decomposição


Não havia nada além do vento
E do tormento
De ter apagadas as pegadas
Que deixei na areia
Do tempo

Parei de caminhar
Deixei-me soprar
E mudar com as dunas
Preso na areia
Do tempo

Espero a próxima tempestade
Seca e quente
Na esperança fria
De que a umidade ardente
De meus olhos precipite

Para que a areia escorregadiça
Se transforme em movediça
E assim me afogue, mate e enterre
E o meu tempo encerre
Até que uma nova agonia

Me ressuscite

Restou-me correr — resto de lucidez
Recusei-me a morrer — mais uma vez
E o quanto deixava para trás
Repetindo a cada passo: nunca mais
Maiores eram os campos
Onde, talvez,
Eu ficasse em paz

Era tamanho o desatino
Tão intensa a tempestade
A rebentar o coração já pequenino
Que num clamor de desespero ancestral
Fiz tremerem o austral e o boreal
E o céu tomou-me a nebulosidade
E chovemos e choramos
Até a saciedade
Até a saudade...

Sem saber se era chuva ou se era choro
Deixei-me à relva — escoadouro
E de toda água que vertemos
Nasceram as flores que colhemos
E com as quais enterraremos
Sob o mármore molhado
A melhor memória tua


Compus-te por inteira
Criei a harmonia do sorriso com o olhar
Fiz a melodia do timbre e o tom de voz
Fiz a pauta a duas vozes

Da clave de sol fiz tuas curvas
Dos teus seios, sustenidos
E de tua feminilidade
Escrevi-me em bemóis

Depois de pronta a partitura
Toquei-te com tanto amor e ternura
Que o orgasmo virou música
E o cansaço pediu bis

Mas eis que o invejoso vento
Que de música só conhece o assobio
Entrou na sala esgueirando-se à fresta
Da janela e ventou-te as partituras

Tantas pautas se perderam
Vi escaparem nota a nota
Nossos corpos sem o compasso
Sem o tempo, sem o tom, desafinados

Do piano antigo quase nada resistiu
Do auditório adormecido
Até as tintas da parede feneceram
Do pianista ficaram ao chão

Os sonhos e os acordes
Do concerto inacabado
E esse sonho tão cansado
De tocar-te uma vez mais