Visitas

Eram tantas portas de todo tipo
Lisas, trabalhadas, esculpidas, tortas
De todas as cores
Fechadas a todos os amores
Que eu quis e não se me abriram
Vida que fecha, dura

Madeira maciça, pedra e ferro
Não houve chave, chamado ou berro
Que pelo menos à portinhola estreita
Me pedisse a senha insuspeita
E errada do teu nome ao cadeado
Preso enferrujado

Sem esperança de me ver entrar
À casa, ao colo, ao seio que quis amar
Deixei a cidade trancafiada, deserta
Na direção incerta e amaldiçoada
Da última porta que faltou visitar
A que para nenhum de nós
Há de se fechar

Entreaberta, emperrada e suja
Vigiada do alto por uma coruja
A porta de vidro quebrado e grades
Imóvel, translúcida deixou-me olhar
Deitada, sozinha de branco a sonhar

Quem é? Quem invade?
Sou eu, quem te amou
Mas jamais te contou
E o que queres agora
Que já passou da hora
De quereres qualquer querer?

Deitar-me contigo
E também descansar
De querer
Qualquer
Querer

E a porta entreaberta
Entre nós e a vida
Fechou-se


Um comentário:

  1. Adorei o semblante entreustecido, dormino nos traços dos momentos idos, nas que emoudurou àquela bela, linfda feminina, nos jardins de uma vida,pulsando despedida e acordando querida a chance, porta aberta, de nova esperança viva.

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