Visitas

Vem, arromba o portão
Que tranquei-te se puderes
E se quiseres, ainda,
Pula por sobre as barras, tenta
Quem sabe não te arrebentas
Ao cair por cima
Da própria ousadia?

Força o cadeado
Quebra a tranca
Torce o ferro
Morde e corta os pulsos
Quero ouvir o berro
Que te arranca o desespero
De não poder passar

Dá a volta pelo muro
Que não tem fim
Mas que termina no escuro
E volta trôpega, assim
Te arrastando pelas grades
E gritando: crueldade!
Falsidade! Nem há cães
Só o portão!

E se morres por tentares
Nem assim, etérea, passas
Pois te tornas a quimera
Que das sombras vitupera
Que o portão daquela casa
Guarda a alma que trancaste
Para sempre para o amor

Te tornaste o meu fantasma!

Aqui em cima, menina
Viste? Escondido no telhado
No campanário da igreja
Estou lá, condenado
Ainda que não me vejas

Sou aquele que te assiste
Que vigia, solitário
Sou a sombra que te segue
O fantasma que persegue
O amor que não senti

Olha por sobre os ombros
Quem sabe de canto de olho
Me encontras, já sumi!
Onde estás?!
Desapareci...

Meu nome é nunca fui
Me chamo nunca serei
E ainda assim estarei ao lado
Daquela que me possui
O desejo de sempre ter sido

Sou o olhar sobre ti que pressentes
O arrepio da noite presente
Sou aquele que sabes quem é
Mas não lembras o rosto que chora
E que logo a rir — de ti —não demora

Sou teu arrependimento
Pelo resto da vida sombria
Por ter sido tão dura e fria
Com o amor que de nascimento
Pereceu dentro de mim

Estarei toda noite a teu lado
E todo dia te acompanharei
Até que o medo e a insanidade
Te tornem sombra também
E um só lamento
Seremos enfim

Eu podia só ter dito
Que te quero a meu lado
Num por-do-sol bonito
Contigo abraçado

Mas logo viria o escuro
Da noite mais intensa
E o beijo que procuro
Voltaria a ser ausência

Eu deveria ter dito
Que te quero a meu lado
Num nascer-do-sol bonito
Contigo abraçado

Pois logo viria a claridade
Do dia mais iluminado
E o beijo de que senti saudade
Finalmente — e para sempre
Seria dado

Entre o por-do-beijo
E o nascer-do-amor
É preciso dormir o sono
Das estrelas, do abandono


Derreteu-se o gelo no copo
Perdeu-se o beijo do corpo
Ficou tão pouco no peito
Nada mais é do nosso jeito

Não reina mais a cobiça
Do prazer alheio à preguiça
E a cozinha vazia...
Da nossa nudez faminta

Nunca mais se abriu um livro na estante
O que era história virou instante
Escrito e esquecido
À tinta extinta

Agora o pior dos domingos
Continua o pior dos domingos
Os sábados são fatais
E as feiras são todas iguais

Tocam a campainha
É madrugada
Seja lá quem for
Duas pedras de gelo no copo...

Sou desses que se compra fácil
Com qualquer beijo de cigarro
E álcool
Meu preço é baixo
Porque a vergonha é pouca
E a vida não tem tempo
De barganhar felicidade

Sou vira-lata de colo
Porque da rua já é meu coração
Qualquer olhar barato
De sedução de filme B
Me leva pra qualquer cama
A qualquer hora e qualquer lugar
Não escolho cenário nem roteiro
Pra me apaixonar

Não pergunte meu nome
Coisa que já esqueci
Me chame de qualquer coisa
Se te fizer enlouquecer

Me satisfaço com qualquer café
Que me sirva pela manhã
Coado sem arrependimento
Se o gosto é fraco
Esqueço seu endereço

Sou desses que ainda crê
Que o amor é livre
E não há nada que me prive
De preferir você

Porque bom mesmo
É ser o rejeitado
Que ama e desama a esmo

Amor cafajeste tem sempre um par
Amor de poesia precisa esperar...


Eu já me esquecia das sardinhas
Que certa vez chamei de minhas
Quando o outono me lembrou
Que logo o frio da saudade
De inverno chegaria

Uma folha que caíra
De cor vermelho-alaranjada
Da árvore que a abandonou
Disse-me: quantas mais hão de cair
Antes do rosto dela lhe fugir?

Olhei para cima e notei
A copa da árvore e lembrei
Do teu rosto de mil sardinhas
Que um dia chamei de minhas

Que se foram como iriam
Com o inverno as folhinhas
Que para sempre — condenado
Te desenhariam


Então tudo era música:
As promessas e os sonhos...
A mesma fantasia
Coube em nós dois

E decidimos acreditar
Que seria possível
Ainda sonhar
Ao menos sonhar...

Foi quando mãos se tocaram
E olhares os lábios calaram
E o beijo que o silêncio pediu
Deveria acordar-nos do sono

Para dormirmos a realidade
Um ao lado
Do travesseiro e do colo
Do outro

Mas o beijo não veio
Ficou preso contigo
Na mesma gaiola
Que eu, ao sonhar-te, não vi
E que não me disseste
Em torno de ti existir

Assim como o canto
O sonho e até o pranto
Deixa meus braços
Pelos espaços da grade
Te prenderem de liberdade

E quem sabe esse beijo
Se não for a tua porta
Revista de ouro
A tua gaiola...


Esquece a leitura
De todo o poema inútil
E busca a doçura
Do instante de amor mais fútil

Esquece os amores
Que escrevem os autores
E ama o personagem
Que encontraste na viagem

Por que temos que jogar
Esse estúpido jogo de azar
Que é adiar o encontro
Só pelo fetiche do desencontro?

Mas continuas a escrever!
Dirás me criticando
É que não encontrei ninguém
Que me venha parar de ler
E seguir amando


E se disser que aceito
Mas no fundo do peito
Ainda não houver espaço
Para o teu abraço
De menina?

E se todas as fantasias
Já se tornaram tão vazias
Que nem a tua juventude
Será capaz de retirar-me
O ar e a solitude?

Depois de tanto tempo
De desbotado desalento
Esse sorriso enfeitado de vida
Essas curvas, atrevida!
Vêm agora colorir
O desamor descolorido
Com que desenho o meu retrato...

Se é escárnio com o velho triste
Se é perversidade feminina
— já cedo, ainda menina —
O cachorro já está morto
Te advirto

Será que o que viste
Foi que o velho lobo triste
Só precisava ser provocado
Por um olhar ensolarado?

Então, vem
Por tua conta e risco
Talvez o lobo arisco
Ainda possa se apaixonar
Pela menina
Que o faça uivar