Visitas

Entendo afogar-se no álcool
Destilado de toda esperança
Avalanche de pedras
Degelo, desespero

Entendo a translúcida fumaça
A visão enevoada
A voz rouca
Queimar até o filtro da razão

Entendo jogar-se entre pernas
E lábios quaisquer
Homem ou mulher
A diferença é não haver gozo

Entendo até a literatura
Que vomita e consome amargura
Histórias que não são suas
Vida ociosa, odiosa

O que não entendo
É a realidade
Que não me abandona
Nem na hora da morte

Não me arrasta o tsunami
Meu coração é de papel
Transformo em barco de origami
Só caibo eu nesse batel



Acertar o alvo
É acertar a maçã
Do teu rosto
Com um beijo certeiro

E se eu me movo
Qual o perigo?
Acertar meu coração
Vermelho-maçã
Mordido

A grandeza da vida
É extinguir-se em pó, a nada
Na grandeza da morte
De tal sorte
Que bem ou mal vivida
Que mal ou bem sonhada
Encontra descanso
No abraço manso
Daquela de sorriso eterno
Pois que não viveu o inferno
Nem a grandeza da vida

A ameaça de amar
Quem vem do olhar
De um estranho

É mais contundente
Que o beijo ardente
Do mais estranho amor

À meia lua
Meia taça de vinho
Meio seco
E uma meia-calça tímida

Ao meio dia a média
Meia xícara de café
E meio pão com manteiga
Pés de meia diferentes

À meia vida
Urânio vira plutônio
Amor platônico
Radioativo

Meio amargo
No meio das pernas
Azedinho doce
Na raspa do tacho

Meio de campo
Empata o jogo
Mas não empata a foda
Cartão vermelho

Chuva
Terra
Poça lamacenta
Em que atolo
Enterro
Lama nos pulmões
Sou a argila
Em tuas mãos

Molha
Molda
Seca-me no fogo
Da paixão
Esfria
Cerâmica que enfeita
A mesinha
Cabeceira

Noite
Sonhos
Chama outro nome
Me derruba
Quebro
Volta à poça lamacenta
De outras chuvas
E traz mais um alguém
Que diz que ama

Moringa quebrada no chão
Menina bonita que chora
Faz mais uma na oficina
Tem pressa quem namora
Quem me ensina?
O coração

Quem é que vem me acordar
Estando a lua alta
E o meu coração a sonhar?

Sou eu, a noite infinda
Que te castigo com a insônia
Por não amar a estrela mais linda

Quem é que me vem sedar
Tão alto o sol no céu
E a vida a me provocar?

Sou eu, o dia mais iluminado
Te trago a punição do sono
Por ter o beijo mais radiante ignorado

Quem vem do alto cobrir-me a vista
Com as nuvens mais pesadas
E a negar-me o arco-íris

Sou eu, o céu mais alto e mais distante
Que te proíbo a memória carinhosa
Da cor dos olhos do amor que acizentaste

Quem é que me impede o passo
E não me dá nenhum espaço
Para seguir o meu caminho

Sou eu, a terra pesada e imensa
Que te cobriu o corpo
Por enterrares a esperança

De amar de novo
De um novo amor
Por te entregares ao pavor
Da solidão
De novo

Arranca a verdade minha
Como eu te arranco a roupa
A mentira com que me visto
É mais real que teu corpo nu

Não me importa quem sangra
Se o gosto de sangue no beijo
Escorre pelas duas bocas
E mancha as peles marcadas

Procura em mim, me devassa
Um canto que ainda não provaste
Cada poro tem teu cheiro
Cada centímetro, tua saliva

Olha bem nos meus olhos
Finca as garras em minhas carnes
Meu sorriso é a prisão
De toda palavra tua

No final só o teu corpo
Permanecerá deitado
Minha nudez vertical
No espelho quebrado

Amanhã à noite
Deixe a janela
A camisola e a mente abertas
As pernas incertas
E espera minha sede
Debaixo das cobertas

Ah, cerejeira, cerejeira
Me dá essa cereja
Que eu tenho um bolo pra enfeitar

Ah, amendoeira, amendoeira
Vim buscar amendoim
E encontrei duas amêndoas

São meus olhos, meu amor
O amendoim nasce no chão
Na terra em que nos amamos

E se eu plantar u'a macieira
Da maçã que vicejar
Será que só co'uma mordida
A gente já faz pecar?

Peca não, seu bobo, deixa disso
Pecado é não beijar gostoso
E ninguém tem nada com isso!

E se eu tirar do limoeiro
Um limão azedo de amargar
Eu tiro uma laranja doce
Da laranjeira pra adoçar

Ê, namorico bom
Escondido no pomar
Mesmo o fruto estando verde
Ainda assim é bom te amar!

Pode ser apenas sono
A ponto da indistinção
Entre o desejo vagabundo
E o profundo bocejo

Não sei se quero a cama
Para dormir
Ou para fingir
Que você está lá

Meus olhos se fecham
Contra sua vontade
Me lembram você
Sua resistência em abrir-se

Derrubo um copo de vinho
Sobre o livro aberto
Ele o bebe mais do que eu
Agora é a história de um ébrio

Dou a última tragada
Está aceso o cigarro?
Ensaio um pigarro
Sou um clichê de roupa amassada

Chego à varanda
Como cheguei?
Na calçada vejo você
Ei, por onde anda?

Espera, não vá embora!
Eu já desço!
É só pular o parapeito!

Aquele sonho em que a gente cai...