Visitas

Uma volta em torno do Sol
Conto um ano que vem
E um outro que vai

De volta a estar tã só
Conto o ano que não veio
O mesmo que nunca foi

Na tal esperança
De ter você presente
Afogo o sono nos fogos

Nous réveillons...
Minha casa é sem número
Meia-água, sobradinho
Porta aberta pro mundo
Do meu jeito, meu cantinho

Todo dia passa Felicidade
Faceira na rua em que moro
Calçamento de pé-de-moleque
Que já fui, já faz tempo, outrora

Mas ela não bate na porta
Não me chama, não olha pra mim
Passa direto que nem carteiro
Quando não traz carta pra gente

Mas não tem nada, nem me entristeço
Por que eu a veja pela janela
Do meu sobradinho, tijolo à mostra
E aí penso como seria, se um dia...

Mentira...
A tristeza na sala que o diga...


Fecha esse teu livro
Abre minhas pernas
Folheia as páginas
Lê o que os lábios
Úmidos, dizem:
Literatura te faz sonhar
Parecer inteligente
Quando discute filosofia
Ou qualquer outra porcaria
Mas quem é que liga
Pra toda essa erudição
Quando a vida pulsa
Lateja e vibra
E te alucina de tesão?
Viver e se entregar
Correndo o risco de errar
Tão melhor que o best seller
E toda essa ilusão
De livro-fetiche
Que te faz cult, incluído
Antenado, descolado
Ora, porra, às favas
Com essa pose de intelectual!
Mas se quiser estar com livros
Entre estantes de vidas falsas
Vou contigo a bibliotecas
Que sejam as camas que eu desejo
E os quartos em que você dorme


O miolo do pão
Que tu não consomes
É o mesmo pão
Da casca que tu comes

O miolo que dá-se ao pato
E dá-se ao peixe
É o miolo que dá-se ao pombo
Incha com água e arromba

A casca que o homem come
É fina e leva manteiga
É crocante e leva geleia
Afoga no café com leite

Ou faz-se ao contrário
É tudo pão!
Por que separas, autoritário,
Meu corpo do meu coração?

Uma chama de vela
Talvez do Sol
Despertou-me um dia
E, sem nada prometer
Mostrou-me como seria
Pelo vidro da janela
Viver

E vi muitas coisas e muitos segredos
Como os profetas e santos dos Testamentos
E vi os astros, as estrelas e o universo
E vi os animais e as luzes que dançavam
E as pessoas que cantavam
E vi que tudo era movimento
Menos eu, na escuridão
Antes daquele momento
Mas a vela tem de acabar
O Sol tem de se pôr
E tudo ficou escuro
De novo
E de novo adormeci
Sonhando com tudo aquilo
Que vi
Se a chama não voltar
Sei o nome dela
E rezo para sonhar
Pelo menos
Com ela

Todo amor é puro
O meu, eu misturo
Com o que estiver ao lado
Na hora em que for tomá-lo

Por isso não me provoques
Meu coração é "on the rocks"
Com uma rodela de limão
Que é o azedo da falta dela


Entra, senta, Mestra,
Estou servido em potes
Compotas, bandejas e pratos
Bebe, sorve, sou derramado
Em taças, copos e jarras
Delicado licor escarlate
Da cor do teu esmalte

Sacia o vazio que vicia
Evoca o espírito que ofereço
Toma a alma errante
Tomba a esperança
Da redenção
E ama-
-me

Reunisse todos os meus amores
E os transformasse em flores
Meu jardim seria esse deserto
Onde, única, estarias sempre
Longe e, ao mesmo tempo, perto
Do nada, de tudo, de mim
Que sou areia seca sem ti
E sem
Fim

Um brinde de absinto
Por toda poesia imunda
Sem rima e que fere
A todo aquele que espera
- e busca -
Alguma luz de poemas
Já cansados de amores
Também cansados

Aceito o gole impuro
Da bebida amarga da vida
Oferecido pelas musas
Rameiras, sujas e putas
Que me lançaram no beco
Amaldiçoado da literatura
Maldita do desterro
E assim mesmo eu as amo
Perdido nelas e nas ruelas

Saúde às máscaras
Sorridentes e alvas
Que escondem o podrido
E o fodido dia a dai do mundo
Iludido, de felicidade torta
Forçada, falsa e enganosa
Que sonham com amores
Para sempre
Porque só para sempre
É a morte

Espalhai minhas páginas
Ao vento e ao relento!
Queimai meus livros
Que jamais publiquei
E nem publicarei
Porque pertenço à noite
E à noite não se lê
Porque é escura

Bebo toda a taça
De La Fée Vert
E me afogo no próprio vômito
Das palavras negras
De que o mundo é cheio,
E feito, cobertas com todo
O fedor das cores mentirosas
E lodosas em que vos afogais
Rindo
De quê?!, Ó, Fúrias!, Ó, Moiras!

Ao menos eu,
O maldito escritor miserável
Sei do que rio à morte
Sorrio para a vida
Pois ela jamais será
Capaz de me derrotar
Na felicidade cadavérica
Do engodo que é a realidade

Minhas esperanças de amor e morte
Desesperanças de amar-te à sorte
Todas morrem ao fim do dia
Queimam no sol poente
São as cinzas que tornam escuro
O céu noturno

E renascem pela manhã
Esperanças-girassol
Apenas para morrerem de novo
E tingirem de fuligem
Seu próprio leito de morte

Minhas lágrimas de Fênix
Não são de fogo
São de água
São de mágoa
Eterna

Precisei saber que gosto
Tinha beijar-te além do rosto
Porque a morte me dizia
"Tens menos um dia"

Não me importei com a amizade
Talvez a tenha traído
Mas era uma necessidade
Saber o que teria sido...

Agora entornou-se o caldo
Derramou-se o leite
Desandou a massa
Solou o bolo

Viramos fumaça
Sobre o rescaldo
E até que se endireite
Aquele gosto é o meu consolo

Se pudesse ainda
Tocar-te como uma harpa
Delicada
E num arpejo
Receber um beijo

Declararia finda
A troca de farpas
Ensanguentada
E num solfejo

O último desejo...

Não trago nada sublime
Imagine
Beijos e amores
Amantes sonhadores
Minha musa dorme de dia
E me atiça de noite
Quando a coruja pia
Sou essa letra maldita
Que regurgita
Toda imundície cruenta
Que de dia fede à menta
Descrevo pesadelos
Amaldiçoadas almas
Casais felizes já deram no saco!
Nem rima merecem, asco!
Ah, não sou o poeta das mocinhas
O autor de corações apaixonados
Sou aquele que arranca vinhas
E fermento vinhos mais encorpados
Abandonai-me! Não me ledes mais!
Não estou nas estantes
E nem nos salões
Estou nos hesitantes
E malditos corações
Que jamais encontraram paz...


Não sei se troco de vida
Ou de roupa
Farrapos cobrindo farrapos
Tão bonitos
Em espelhos quebrados

Meu guarda-roupas
Guarda vidas
Que visto até esgarçar
Que nunca experimentei
Que nem sabia que tinha

Meu manequim não tem fôrma
Vivo mal vestido no que me cabe
Porque nada me serve
Nem você
Moda ultrapassada
Que sempre volta

Volta para cobrir-me
Os vermes que me furam
Como as traças que te consomem

Melhor era andarmos nus
Talvez nos amássemos
Sem que nos amassássemos
Em ternos e vestidos
De luto impoluto - alvo
Por nossas altas costuras
De desculpas

Nunca gostei de moda
Porque era foda
Combinar com você...

Prefiro a morte
A amar-te
Outra (primeira) vez
Pois na morte encontro a paz
Que seu coração não faz
Questão de me conceder
A este liberto enlutado
Que não mais te deseja (vi)ver

Desculpe, não pude realizar nenhum dos nossos sonhos... Eles morreram tão rápido, e até que sonhássemos de novo... Foi preciso vigília para sobreviver aos pesadelos... Hoje, entretanto, quando vejo esse nosso sorriso que há tanto tempo... Hoje sou e me tornei, ou sempre fui, mas me perdi no meio do caminho, um sonhador. É, só isso, um sonhador. Sou a escória improdutiva, incapaz de relacionamentos saudáveis, ocioso, pobre, amargo, com alguns amigos que ainda resistem... Sou só um sonhador inútil, sou seu futuro interrompido, sou seu fracasso, sua promessa quebrada de felicidade... Mas sonho. E aos poucos vou me lembrando de que você também era um sonhador, lembra? Não sonhou isso, com certeza, mas, se voltarmos à estaca zero, e se tivermos tempo, e sonharmos juntos de novo, quem sabe você me conta, lá do passado, o que devia ter sido e não foi, quem sabe tudo pode começar de novo, aproveitando o que trouxe comigo até hoje, quase nada, eu sei, mas... Já imaginou se nós pudéssemos sorrir de novo, sem camisa no calor, esperando um sorvete, encostado ainda num mesmo fusca, carro de que gostamos tanto, até hoje?!
Depois de tanto tempo você me pergunta o que fiz, e eu querendo saber o que era para ser feito...

Quem sabe hoje, sendo só um sonhador, um pária e uma perda de tempo, num desses sonhos eu não reencontre nosso sonho antigo? E se não encontrar, se não houver tempo para ser alguém, usarei o tempo que restar para sermos tudo o que for possível ser nas páginas em branco que nos deram como futuro. Mais que um único sonho realizado, aquele que não pudemos, realizaremos todos os outros! E quem sabe, até aquele, sem saber que o realizamos.
Ah, meu filho (porque sou filho de mim), eu te ofereço, na desgraça de ser um escritor mediocre mergulhado no ostracismo, um universo inteiro, na esperança de poder sorrir como nós já sorrimos, na época da inocência...

Atirada ao chão
Ossos quebrados
Esperança derramada
Na calçada
Como o sangue quente
Que já ruborescera a gente
Desesperançados...

Ainda respirando
(ainda há tempo)
Arranco o que resta
Do coração
Ah, ele não presta!
E ainda assim me dói a alma
Que já se vai, me abandonando

No último suspiro
Ilumina-me a escuridão
Só precisava livrar-me
De toda a emoção
Que agora se vai
Com minh'alma
Meu coração
E, para sempre,
Com teu nome

Era um sorriso sério
Eu sei, não podias
O olhar me alertou

E também me chamou

Para mentir junto contigo
Eu, que também não podia

Talvez teu sorriso escape
Quando os lábios puderem beijar
Quando os braços possam abraçar

Quando as pernas puderem trançar
Quando as mãos possam tocar
Quando tudo isso sair do papel...


Toda poesia insiste em ti
Quando já desisti
E já tanto me afastei
Que já nem sei
Por que deveria ouvir
A inspiração vir
Sussurrar
Para me reaproximar
De absolutamente
Nada...

Se parasse de escrever
Talvez tu pudesses me ver
Mas então já verias um morto
No tranquilo conforto
Do colo da musa egoísta
A agonia sem a tua verdade
A morte por uma vaidade
Que nem sequer é a minha
Então cai a pena ao chão
Deixo de lado a profissão
E o ofício de sonhar-te minha
Cujo nome revelo enfim
Nesta última linha:
(a musa derrubou todo o nanquim)

Podiam ter sido as pernas
São sempre as pernas
Mas não apenas
Podiam ter sido as curvas
Dos círculos, esferas
Culpa do pretinho básico
Do decote, ou tua mesmo
Podia ter sido o sorriso
É sempre o sorriso
Antes ou depois das pernas
Mas não era meu aquele sorrir...
Então podia ter sido o olhar
Os olhos de Ísis que tudo veem
É sempre o olhar
Que não me vê, ou vê
Mas nao enxerga
Ou não quer...
Os ombros, ah, que ombros!
As pernas que me perdoem
Mas há certos ombros
Por onde descem braços
E ante braços perco a respiração
Quando vejo as mãos...
Podem ter sido as mãos
Com teus dedos longos
Que apontam e dissimulam
Fazem charme entre os lábios
E acrobacias entre os lábios...
Podem ser os cabelos
Sempre se quer perder-se em cabelos
Floresta de fios e perfumes
Onde se podem esconder os beijos
Na nuca e no pezinho da orelha...

Mas foram as tatuagens
As tribais, as florais
Os pequenos animais
Que dizem tanto de ti
E que me fizeram buscar
O pergaminho vivo
Que á a tua pele
A pele das pernas
Dos seios
Das mãos e dos dedos
Dos pés também
Onde eu queria
Ter sido rabiscado
Para sempre

Desejos de um amor-garrancho...

Eu não insisto em escrever apesar de tudo
É a escrita que insiste em escrever-se apesar de mim


Vagabundeio
Pelo corpo inteiro
Dela que não me quer

Vivo de esmola em esmola
Que me dá essa mulher
Quando passe remexe e rebola

Sem piedade
Só de maldade
- Dá licen...ciosidade?

Ainda encontro quem me carregue
E me abrigue em seu albergue
Onde meu amor vagabundo

Vagabundeie, sem passar necessidade

E foi assim que ele a encontrou
Sozinha olhando o mar
Pensando em se livrar
Do que peso que a esmagou
E imaginando se valeria a pena
Arriscar deixar a dor amiga
Velha companheira
Por uma liberdade obscena
Uma mentira em forma de cantiga
Quem sabe, uma bricadeira

Procurou-a por todo o lado
Por toda a vida
O tempo todo
E achou-a no fim da esperança
Prestes ele também
A perder-se no mar da bonança

Reconheceram-se
E o mar perdeu-se em seus olhos
Ao se perderem de nossos olhares

Eu sou assim
Um traste
Triste figura de mim

Acordo tarde
Durmo mais tarde ainda
Bebo essa maldita poesia
Que a boca arde
Toda hora, todo dia

Mal me alimento
De uma prosa ruim
Um só prato sobre a mesa
E como sobremesa
Essa solidão obesa

Sou esse saco de gatos
De amores abandonados
Jogado no rio
Afogados
Se escutares um miado
Não me salvem
É mentira, é falseado

Mas que diabo a escrita!
Vamos ver se a parede
Rima com notebook!

De volta à máquina
De escrever
Que aguenta melhor
Uma boa porrada
Uma baforada

Cega pelo álcool
Que lhe apagou as letras
Impressas nas teclas
Cujas posiçoes
Conheço de cor
Kama Sutra
Goza na cama e surta
Na ponta dos dedos

a, s, d, f, g
Quero mesmo
É amar você!
E que se foda toda literatura
Ou que seja contrário
O itinerário e o sentido
Dessa estrofe sem amor
Nem transa nem sentido

Sou esse traste perdido
Entre um verso apaixonado
E uma rima despudorada

Pois à parede também
Essa velharia enguiçada!
Só preciso de quatro letras
v, o, c, e
E não é no papel, à tinta
Mas em qualquer lugar
Desse santo pardieiro
De artista
Nua, louca, faminta!

Minha musa nada mais é
Que uma puta embriagada
Vomitada e seminua
Num lugar qualquer
Sobre esse monte de livros
Ambos abertos, lidos
E abandonados

Já pode descansar seu autor

Isso é uma gravação
No momento não posso atender
Mentira, nunca mais
Vou atender ninguém

Mudei-me pra longe
Onde não tem telefone
Não tem gente
Não tem mais nada

É mais fácil assim
Ninguém me perturba
E eu não incomodo ninguém
Ninguém mais reclama

Só de uma coisa não pude fugir
Voce também não está por aqui
Mas com o tempo
O do relógio e o do vento

Sua ausência também não estará
E então não saberei mais quem sou
Nem onde estou
Coisa que, aliás, eu nunca soube

Como faz caipirinha?
Do alambique a cachaça
Do limoeiro o limão
Raspinha de gelo
E um pouquinho de açúcar?

No interior do meu peito
É outra a receita

Caipirinha com graça
Faz biquinho matreiro
Leva a mão à cintura
Levanta o pezinho e o tornozelo
Diz que me ama, mente, mas jura

O trovão me chamou
- noite escura sem raio -
E fui ver na janela a chuva

Que chovia em silêncio
- silêncio de chuva -
Ruído tão bom de dormir

Que nunca mais acordei
- chovi com a chuva -
E, assim, te molhei


Antes da nudez
Da maciez do tato
Dos labirintos do olfato

Antes da audição gemida
Da lambida atrevida
De ver o que se esconde

Seria muito mais feliz
Muito mais que em seus quadris
Ah, esses desejos juvenis

Se eu pudesse conversar
Contigo e perguntar
Quem você acha que vive na lua?

Somente eu
E a imaginação tua

O gato no telhado
Caiu
Deu talho no gato
Feriu
O galho quebrado
Serviu
De tábua, tablado
Zuniu
No gato, coitado
Fugiu
Pro teto de telha
Assustado
Ah, gato safado
Que sou
A quem você nunca
Amou
Sob seu estrelado
Telhado

A madruga é dos solitários
Que falam sozinhos
Como a noite é das estrelas
Que brilham em seus cantinhos

Se desenhamos lá em cima
Tantas constelações
Cá embaixo não poderíamos
Ligar nossos corações?

Se as constelações são imaginárias
Por que haveriam nossas solidões
Ser de repente temporárias?

Esse silêncio noturno
Deveria ser oportuno
Para contigo poder conversar

Se as estrelas pudessem falar...

Sobrevivo pela ironia
De rimar ideal com real
E sermos nós mesmos
Versos brancos
Nada poético casal

Uma infame poesia
Que não tem leitor
Que não tem amor
Que não tem mais
- jaz no leito do rio -
Nem sequer um autor

Permaneço imóvel, deitado
Adormecido do gramado
Corpo e alma orvalhados
Olhos no céu
Coração na terra
Nas veias o sal do mar

E observo as nuvens
Nenhuma tem teu nome
Tampouco tuas formas
Não te conheceram as nuvens negras

Mas uma cai em minha direção
Carregada de chuva
E saudade
E pesa sobre mim
Toda sua leveza
Chovendo o gozo
Que as tempestades
Levaram de ti

Permaneço imóvel, deitado
Abandonado no gramado
Corpo e alma molhados
Olhos cerrados
Coração em silêncio
Nas veias a chuva
Que cai ao longe
No mar

Podia sim ter dado certo
Como foi não ter você por perto
O que seria tão errado
Quanto você deitada
Aqui ao meu lado

Não me recuso
Aceito
Abre-me o peito
Parafuso
Porca
Miséria

Arranca-me de lá
Tira-me dela
Da tranquilidade
Insuportavelmente
Banal

Entrego-te o que há de pior
De mais negro e terrível
Faz com essa sombra
A pior das indignidades
A terrível iniquidade
Do gozo imoral
Sórdido prazer
Sublime
Tão sublime
Tao do corpo

Arca com a consequência
Anca impudica
Clemência
Espanhola inquisição
Ao som das castanholas
Que toco como toco
Os seios
Olé
Guenica pintada no lençol

A sombra escorre
Sou-a e não a caibo-me mais em mim
É tua, a tiraste da luz
Atiraste sem dó
À queima-roupa
Que roupa?
Sou o sonho ruim que te acordou
Mas foste tu mesmo quem me dormiste

É negro todo esse prazer
Como se fosse possível
Haver prazer
Nas sombras
Do mais monstruoso amor
A urrar gutural
Na borda da janela
Ao amanhecer
Da mais clara noite

Me deixe assim no meu canto
Que alguém há de ouvi-lo
Mas se ninguém o vir
Desenho um conto
Por enquanto
E pronto
Ponto


Na pedra fincado
O marisco corta
Com a casca afiada
E sangra quem à pedra
Se agarra...

No casco do navio
Vai a craca incrustada
A todos os lugares
Acompanhada
De indiferença

Na praia a concha
Cansada espera
Que alguém
A colete
Mais uma na coleção...

Se me abrisses as pernas
Os braços, o peito
Os lábios num beijo que fosse
Verias a pérola minha nua
Tão tua e o teu nome escrito nela

Eu tive muitos livros
E todo o tempo do mundo
Ainda tenho muitos livros
E muito pouco tempo sobrando

Quando o último grão de areia cair
Não terei nem beijo nem afago
Uma folha de livro a me cobrir
Terá sido o preço pago

Preferia ter lido a vida
De preferência
A nossa


- Bate o sino: "vem"
Que o vento
Leve o meu lamento
- Bate o sino: "não"
E que encerre o meu tormento
Junto a ti sob o cimento
- Bate o sino: "vem"
Ainda bate o coração
No campanário solitário?
- Bate o sino: "não"


Etimologia

O mar secou
E virou pó
Misturou-se à maresia
Sem mar e virou
Poesia


Traio a morte
Com teu sorrisos
O que te torna amante
Sem nunca ter-me amado
E a mim, vivo,
Estando já morto e enterrado

Enciumada, a morte
Deseja-te também
E assim não me procura
Quando mais a quero
Para fugir dessa loucura
Que é desejar-te indesejado

Como pode tanto amor
Existir e mesmo assim
Ao mesmo tempo não existir
Se desistir, de um e de outro,
Do beijo não é o desejo
Nem meu, nem dela
E, muito menos, teu?

Só não sabes, ainda,
Que queres me beijar
Talvez porque não viste
Nem soubeste
Que esta sombra que te assombra
Sou eu, a tua saudade

Acabou a diversão
De sentir a brisa
Com um empurrão
A emoção do impulso
Finaliza
O pulso

Não me canso
- ou já exausta -
De esperar quem venha
Ao coração que já se arrasta
E que forças tenha
Para empurrar-me do balanço

A corrente que sustenta o assento
De madeira podre, roída
De ferrugem corroída
Me aprisiona à lembrança
Dos sorrisos de criança
Que contava com alguém
Que a balançava
Alto e além

Restei-me inerte
Cá embaixo e muito aquém
Esperando o último flerte
Que me levará mais alto
E muito mais além
Que o balanço do nosso amor
Já imaginou propor

Não faço ideia
Nem gosto
De ter vindo parado aqui
Ter sido chamado por ti
E transposto essa aleia
De flores podres

Meu nome era silêncio
Talhado em pedra
Meu rosto era incenso
Memória inconcreta
Meu sono eterno
Meu sonho, inferno

Diz-me, pois
O que tu queres
Se nós dois
Não mais esperes
Mas me leva
Se quiseres

Se uma vela
Acenderes
E com ela
Me guiares
Como guiavam-me
Teus olhares

Duas horas da manhã
Sem-vergonhas no divã
De agora, até a manhã

Pra que terapeuta
Se é melhor morder a maçã
E um pecado que se cometa?

Antes que a morte
Se intrometa
De novo...

Achei em casa essa caixa
Com um nome escrito
- Pareceu-me até bonito -
Que li mas não reconheci:
Infância

Apesar de familiar
Não conseguia me lembrar
De tê-la comigo algum dia
Escondida
- Ou esquecida? -

Abria-a com algum receio
Mas também com todo o anseio
De quem desconfia
Saber que não saber é enganar-se
E enganar-se é melhor do que saber

E vi que dentro estava
De vazio abarrotada
A não ser por um bilhete
Uma notinha dobrada
Que assim aconselhava:

- Procure na caixa de sonhos...

Amar o fantasma
De quem já morto
Em vida
É assustar-se
Mais do que assustar
Sendo fantasma
De quem já morto
Em vida

Amar a sombra
De quem jamais foi luz
É tornar-se sombrio
À qualquer luz
Que me projete deformado
A toda superfície
De superficiais amores

O abraço frio do espírito
Não é mais frio que o beijo
Que dou em quem queira
Arriscar-se também
A assombrar-se
Com a sombra
De quem já morto
Em vida

Espreito
Em cada leito
Teu rosto etéreo
Digo "te amo"
Dizes "vade retro"
Minha oração
Meus votos
De amor

Ex-comunhão

Deixa-me às grades
Que construí em volta
Posto que ardes
Quanto te soltas

Não é pelas chamas
Com as quais já me queimei
É pelas cinzas em que me tornei:
Sempre que te consomes, me abandonas

Como não te podes pôr a gelo
Ainda que aos outros congeles
Escolho a distância do fogo
Por mais que tu te rebeles

Se a queima do teu corpo
Se a combustão de toda a paixão
Se o martírio de toda a queimadura
Significasse que me amas...


Beija-me a boca
Seca e rouca
De desejo a sussurrar
Teu nome perdido
Um murmurar
De gemidos
Incompreensíveis
Inaudíveis
Invisíveis
Teu... nome...
Me...
!!!
E...
Não...
Me a...
Corde... teo...
Quo... tecum...
Semper... est...


Fui assaltado por um sorriso
Mãos ao alto!
Mas não deu tempo
E o coração se perdeu no céu...

Beijar-te
É passar o lábio ao fio
Da faca que é tua boca
É cortar-me
Com o frio da mentira
Temperada à forja
De desejos incandescentes

Mas beijo-te assim mesmo
E exponho o coração de aço
Ao sangue que da boca corre
Pois o ferreiro, se não malha, morre

Lanha o cabo do martelo
A lâmina da vulva afiada
Escorre a solda
Queima a carne
Assim é nossa oficina
Nossa "metalorgia"