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O mesmo sol do qual me escondo
Trás teu vulto vai se pondo
E a tua sombra projetando
Sobre mim, me levantando

Em contraluz tu és tão sombra
Quanto eu que contra a luz
Continuo ocultando o rosto
Esperando o eterno ocaso

Que nunca vem posto que a noite
É a morte de toda sombra
E assim te vais
Uma vez mais

Só quando a lua é cheia
E os cães ladram e uivam ao longe
É que a tua sombra branqueia
E da minha penumbra foge

Só quem já esteve só
À noite a escuro ermo
Sabe que as sombras dizem
Os nomes dos nossos medos


(18+)

Na alergia, espirro
Atchim! Me cura!
Doente...

Na alegria, esporro
Assim! Me curra!
Carente...

Vitamina C
Você
E cama

Pela manhã sou penumbra difusa
Ao meio-dia sou sombra só
À noite sou-a em sua plenitude
     De escuridão

Nem sombra de luz
Para o amor cego
Que se perdeu de nós
     Na escuridão

Nenhuma sobra
Resto algum
Nenhuma réstia
     Só a escuridão

Exceto a sombra
Que doravante
Há de proteger-me
Da luz dos olhares
Negros como a noite
Em que me tornei
     Com a escuridão

E se por um segundo
Eu fosse o primeiro
E não o segundo
Ou o terceiro
No quarto
Cujo relógio
Avisa implacável
Que eu e você temos
Só(s) mais uns segundos?

Me deixaste só e fria
Esquecida em uma memória
Perdida
De que ainda me lembro

Do abandono ao luto
No branco frio do azulejo
Imundo
O limo que me tem por dentro

A sombra que me escorre
Pelo corpo mal iluminado
Desfigurado
Agoniza e se debate noite adentro

Me despiste de sanidade
Mas não escolheste
Bastou a distância?
O sanatório em que me enfiaste

Escolhi-o eu, pois, a insana
E vim morar na tua mente
Para sempre
Inquilina maldita e profana

E só deixarei teus pensamentos
No dia, na hora e no momento
Tic-tac-cardia
Em que te lembres do meu rosto

Que nunca mais
Em tempo algum
— O teu inferno
Reconhecerás...

Éramosjuntos
E, de repente
Findo o sono
Fomos despertando...

Des    pertando...
Des         pertando...
Des              pertando...
Des                  pertando...
Des                     pertando...
Tão                            longe....
De                                       ti...

Que me esqueci de....

O que é um pesadelo
Senão um modelo
Do que há de mais belo
Diante do espelho velho
Riscado
No meio de um sonho ruim
Que só tem fim
Do outro lado
Do sonho
Espelhado?
No quarto dos fundos
Da casa vazia
O pêndulo pende
E a hora não passa

Nos fundos do quarto
Da casa sozinha
Quem não se arrepende
Pesada carcaça

O corpo balança
Ainda tem corda
O relógio que atrasa
A mesma fatídica
Hora recorda

O tempo parou
Na casa, no corpo
Travou o ponteiro
Certeiro
No mostra-dor

Quem for dar a corda
Precisa escolher
Quem vai acordar:
O morto ou o relógio

Os mortos não acordam
Escolho o relógio
O tempo que passa
A ti matará

Quem não espera
A corda acabar
Dá corda a si mesmo
Pra nunca mais
Ter que acordar

No quarto dos fundos
Da casa vazia
O relógio de pulso
Sem pulso

Nos fundos do quarto
Da casa sozinha
Já perde o impulso
O tempo
Enforcado