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Vai, gaivota
Voa e volta
Pro barco encalhado
No banco de areia
Encharcado
Que é a vida
Sem o amor
Da minha vida

Vai gaivota,
Voa e volta
E me diz
Se um dia
Serei feliz
Com um coração
Que vai e que volta
Igual à gaivota
Do barco pro mar
Do mar para o barco

A gaivota voou
E nunca voltou
Morreu no mar
E eu no barco
À deriva
Da maré
Que é
O teu coração

Não abres a porta
Quebro-lhe a janela
Com o grito do vento

Desespera-te com o uivo
Sufocante do teu nome em ódio
Que te sangra os ouvidos

Corre pela casa que estremeço
Bato portas, derrubo móveis
Retratos meus

Estás só na escutirão
Sopro e arremesso velas
Que se perdem pelo chão

Não sou nada, larga a faca
Sou etéreo, sou fantasma
Louca se queres matar o vento

Todos os rostos sombrios
Que em volta de ti assombram
São os teus amores frios

Não há nada no breu, só eu
Não há mais ninguém na casa
Corres e te cortas na vidraça

Vou-me e te deixo à lama
Sangue pisado e chovido
Se vieres a te levantar

Outra vez
Em tua alma
Irei soprar

Ah, maldita mão pesada
Que me fecha os olhos
Em silenciosa insistência
Sono persistnte
Que me leva ao sonho
Quando quero, acordado
Ver sonhando o amor desejado

Devolve à praia
A areia que pesa a vista
Para que descanse - molhada
A minha amada exausta
Do mar que é
O mal de amar

Que todos os demônios da noite
Mantenham-me acordado
Recitando um a um os pecados
Que de prazeres sou culpado
Para que não durma
Nunca mais se for preciso
Enquanto o corpo for real
O beijo, potencial

Que se vão os sonhos
Porque deles se acorda
Quero a realidade
Da impossibilidade
Da nudez a olho nu
Daquela que me fez insono
Fugida dos sonhos
Que sonhei sozinho

Morte inevitável
Chora tu a minha ausência
No teu campo de ossos e cinzas
Posto que nem tu tens o poder
De me levar antes de ter
Consumado na boca o gosto
Do mais real
Impudico e orgiástico
Coito com que jamais alguém
Ousou sonhar

Recuso-me a dormir
O sono eterno
Ou a siesta sem vergonha
O sonho que não tem gosto
Só tem saudade e poesia
Viverei louco de vigilia
Até que um beijo, enfim
Nos faça dormir
Você sobre mim
Eu dentro de ti
Nos sonhos que então teremos...

Quando não me deste a mão
Dei a minha eu ao tempo
E fui com ele até o dia
Em que tu mepoderias
Dar a mão e assim o tempo
Me levado não teria

Não ouse envelhecer
Não há nada de bom pra ver
Sem ti
Por aqui
Pra me dizer
Que quer envelhecer

Ao meu lado...
Gata bruxa malas-artes
Esquenta o caldeirão
Queima o coração
Amores que ardem

Te escondes num miado
Os olhos de luz - magia
Chama o meu nome, mia
O enfeitiçado apaixonado

Vens como a fêmea nua
Vais como a gata de rua
Feitiçaria de corpos
Que de vivos, mortos

Gata bruxa não te assustes
Não te queimo na fogueira
Que não seja, e que não queiras
De amores teus, embustes

(Foto: António Corvo)