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Fui assaltado por um sorriso
Mãos ao alto!
Mas não deu tempo
E o coração se perdeu no céu...

Beijar-te
É passar o lábio ao fio
Da faca que é tua boca
É cortar-me
Com o frio da mentira
Temperada à forja
De desejos incandescentes

Mas beijo-te assim mesmo
E exponho o coração de aço
Ao sangue que da boca corre
Pois o ferreiro, se não malha, morre

Lanha o cabo do martelo
A lâmina da vulva afiada
Escorre a solda
Queima a carne
Assim é nossa oficina
Nossa "metalorgia"


E se eu queimassa as páginas
Que não escrevi
Com o fogo do calor
Que não senti
Será que as cinzas
Da personagem que amei
Seriam mais cinzas
Que todo sonho
Que abandonei?

É na inconsistência
Das tuas formas nas nuvens
Onde já estivemos
Que te recordo como quero
Por pura insistência
Em ter você ao meu lado
Deitado de dia
Observando o céu
Posto que à noite
Deito-me (e) só (e) enxergo o véu
Por detrás do qual te escondes

Pareidolia post mortem
Só não sei bem
De quem



Acorda e corta
O que te prende à cama
Algema de mentirinha
Lembrança minha
Preguiça
Areia movediça

Desperta antes da dor
Da nossa música esquecida
Tocar no despertador
Você virar pro lado
E arrependida
Dar um beijo no ar

Levanta e anda pela casa
Nuas as duas de mim
Espanta o sono
E o abandono
E faz amor com qualquer memória
Que ainda não tenha ido embora

Dá uma volta pelo mundo
Se encante com a novidade
E busque a felicidade
Estarei lá no fundo
Da terra molhada de chuva
Do peito encharcado de luto