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Duas horas da manhã
Sem-vergonhas no divã
De agora, até a manhã

Pra que terapeuta
Se é melhor morder a maçã
E um pecado que se cometa?

Antes que a morte
Se intrometa
De novo...

Achei em casa essa caixa
Com um nome escrito
- Pareceu-me até bonito -
Que li mas não reconheci:
Infância

Apesar de familiar
Não conseguia me lembrar
De tê-la comigo algum dia
Escondida
- Ou esquecida? -

Abria-a com algum receio
Mas também com todo o anseio
De quem desconfia
Saber que não saber é enganar-se
E enganar-se é melhor do que saber

E vi que dentro estava
De vazio abarrotada
A não ser por um bilhete
Uma notinha dobrada
Que assim aconselhava:

- Procure na caixa de sonhos...

Amar o fantasma
De quem já morto
Em vida
É assustar-se
Mais do que assustar
Sendo fantasma
De quem já morto
Em vida

Amar a sombra
De quem jamais foi luz
É tornar-se sombrio
À qualquer luz
Que me projete deformado
A toda superfície
De superficiais amores

O abraço frio do espírito
Não é mais frio que o beijo
Que dou em quem queira
Arriscar-se também
A assombrar-se
Com a sombra
De quem já morto
Em vida

Espreito
Em cada leito
Teu rosto etéreo
Digo "te amo"
Dizes "vade retro"
Minha oração
Meus votos
De amor

Ex-comunhão

Deixa-me às grades
Que construí em volta
Posto que ardes
Quanto te soltas

Não é pelas chamas
Com as quais já me queimei
É pelas cinzas em que me tornei:
Sempre que te consomes, me abandonas

Como não te podes pôr a gelo
Ainda que aos outros congeles
Escolho a distância do fogo
Por mais que tu te rebeles

Se a queima do teu corpo
Se a combustão de toda a paixão
Se o martírio de toda a queimadura
Significasse que me amas...


Beija-me a boca
Seca e rouca
De desejo a sussurrar
Teu nome perdido
Um murmurar
De gemidos
Incompreensíveis
Inaudíveis
Invisíveis
Teu... nome...
Me...
!!!
E...
Não...
Me a...
Corde... teo...
Quo... tecum...
Semper... est...