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Podia sim ter dado certo
Como foi não ter você por perto
O que seria tão errado
Quanto você deitada
Aqui ao meu lado

Não me recuso
Aceito
Abre-me o peito
Parafuso
Porca
Miséria

Arranca-me de lá
Tira-me dela
Da tranquilidade
Insuportavelmente
Banal

Entrego-te o que há de pior
De mais negro e terrível
Faz com essa sombra
A pior das indignidades
A terrível iniquidade
Do gozo imoral
Sórdido prazer
Sublime
Tão sublime
Tao do corpo

Arca com a consequência
Anca impudica
Clemência
Espanhola inquisição
Ao som das castanholas
Que toco como toco
Os seios
Olé
Guenica pintada no lençol

A sombra escorre
Sou-a e não a caibo-me mais em mim
É tua, a tiraste da luz
Atiraste sem dó
À queima-roupa
Que roupa?
Sou o sonho ruim que te acordou
Mas foste tu mesmo quem me dormiste

É negro todo esse prazer
Como se fosse possível
Haver prazer
Nas sombras
Do mais monstruoso amor
A urrar gutural
Na borda da janela
Ao amanhecer
Da mais clara noite

Me deixe assim no meu canto
Que alguém há de ouvi-lo
Mas se ninguém o vir
Desenho um conto
Por enquanto
E pronto
Ponto


Na pedra fincado
O marisco corta
Com a casca afiada
E sangra quem à pedra
Se agarra...

No casco do navio
Vai a craca incrustada
A todos os lugares
Acompanhada
De indiferença

Na praia a concha
Cansada espera
Que alguém
A colete
Mais uma na coleção...

Se me abrisses as pernas
Os braços, o peito
Os lábios num beijo que fosse
Verias a pérola minha nua
Tão tua e o teu nome escrito nela

Eu tive muitos livros
E todo o tempo do mundo
Ainda tenho muitos livros
E muito pouco tempo sobrando

Quando o último grão de areia cair
Não terei nem beijo nem afago
Uma folha de livro a me cobrir
Terá sido o preço pago

Preferia ter lido a vida
De preferência
A nossa


- Bate o sino: "vem"
Que o vento
Leve o meu lamento
- Bate o sino: "não"
E que encerre o meu tormento
Junto a ti sob o cimento
- Bate o sino: "vem"
Ainda bate o coração
No campanário solitário?
- Bate o sino: "não"


Etimologia

O mar secou
E virou pó
Misturou-se à maresia
Sem mar e virou
Poesia


Traio a morte
Com teu sorrisos
O que te torna amante
Sem nunca ter-me amado
E a mim, vivo,
Estando já morto e enterrado

Enciumada, a morte
Deseja-te também
E assim não me procura
Quando mais a quero
Para fugir dessa loucura
Que é desejar-te indesejado

Como pode tanto amor
Existir e mesmo assim
Ao mesmo tempo não existir
Se desistir, de um e de outro,
Do beijo não é o desejo
Nem meu, nem dela
E, muito menos, teu?

Só não sabes, ainda,
Que queres me beijar
Talvez porque não viste
Nem soubeste
Que esta sombra que te assombra
Sou eu, a tua saudade

Acabou a diversão
De sentir a brisa
Com um empurrão
A emoção do impulso
Finaliza
O pulso

Não me canso
- ou já exausta -
De esperar quem venha
Ao coração que já se arrasta
E que forças tenha
Para empurrar-me do balanço

A corrente que sustenta o assento
De madeira podre, roída
De ferrugem corroída
Me aprisiona à lembrança
Dos sorrisos de criança
Que contava com alguém
Que a balançava
Alto e além

Restei-me inerte
Cá embaixo e muito aquém
Esperando o último flerte
Que me levará mais alto
E muito mais além
Que o balanço do nosso amor
Já imaginou propor

Não faço ideia
Nem gosto
De ter vindo parado aqui
Ter sido chamado por ti
E transposto essa aleia
De flores podres

Meu nome era silêncio
Talhado em pedra
Meu rosto era incenso
Memória inconcreta
Meu sono eterno
Meu sonho, inferno

Diz-me, pois
O que tu queres
Se nós dois
Não mais esperes
Mas me leva
Se quiseres

Se uma vela
Acenderes
E com ela
Me guiares
Como guiavam-me
Teus olhares