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Eu não insisto em escrever apesar de tudo
É a escrita que insiste em escrever-se apesar de mim


Vagabundeio
Pelo corpo inteiro
Dela que não me quer

Vivo de esmola em esmola
Que me dá essa mulher
Quando passe remexe e rebola

Sem piedade
Só de maldade
- Dá licen...ciosidade?

Ainda encontro quem me carregue
E me abrigue em seu albergue
Onde meu amor vagabundo

Vagabundeie, sem passar necessidade

E foi assim que ele a encontrou
Sozinha olhando o mar
Pensando em se livrar
Do que peso que a esmagou
E imaginando se valeria a pena
Arriscar deixar a dor amiga
Velha companheira
Por uma liberdade obscena
Uma mentira em forma de cantiga
Quem sabe, uma bricadeira

Procurou-a por todo o lado
Por toda a vida
O tempo todo
E achou-a no fim da esperança
Prestes ele também
A perder-se no mar da bonança

Reconheceram-se
E o mar perdeu-se em seus olhos
Ao se perderem de nossos olhares

Eu sou assim
Um traste
Triste figura de mim

Acordo tarde
Durmo mais tarde ainda
Bebo essa maldita poesia
Que a boca arde
Toda hora, todo dia

Mal me alimento
De uma prosa ruim
Um só prato sobre a mesa
E como sobremesa
Essa solidão obesa

Sou esse saco de gatos
De amores abandonados
Jogado no rio
Afogados
Se escutares um miado
Não me salvem
É mentira, é falseado

Mas que diabo a escrita!
Vamos ver se a parede
Rima com notebook!

De volta à máquina
De escrever
Que aguenta melhor
Uma boa porrada
Uma baforada

Cega pelo álcool
Que lhe apagou as letras
Impressas nas teclas
Cujas posiçoes
Conheço de cor
Kama Sutra
Goza na cama e surta
Na ponta dos dedos

a, s, d, f, g
Quero mesmo
É amar você!
E que se foda toda literatura
Ou que seja contrário
O itinerário e o sentido
Dessa estrofe sem amor
Nem transa nem sentido

Sou esse traste perdido
Entre um verso apaixonado
E uma rima despudorada

Pois à parede também
Essa velharia enguiçada!
Só preciso de quatro letras
v, o, c, e
E não é no papel, à tinta
Mas em qualquer lugar
Desse santo pardieiro
De artista
Nua, louca, faminta!

Minha musa nada mais é
Que uma puta embriagada
Vomitada e seminua
Num lugar qualquer
Sobre esse monte de livros
Ambos abertos, lidos
E abandonados

Já pode descansar seu autor

Isso é uma gravação
No momento não posso atender
Mentira, nunca mais
Vou atender ninguém

Mudei-me pra longe
Onde não tem telefone
Não tem gente
Não tem mais nada

É mais fácil assim
Ninguém me perturba
E eu não incomodo ninguém
Ninguém mais reclama

Só de uma coisa não pude fugir
Voce também não está por aqui
Mas com o tempo
O do relógio e o do vento

Sua ausência também não estará
E então não saberei mais quem sou
Nem onde estou
Coisa que, aliás, eu nunca soube

Como faz caipirinha?
Do alambique a cachaça
Do limoeiro o limão
Raspinha de gelo
E um pouquinho de açúcar?

No interior do meu peito
É outra a receita

Caipirinha com graça
Faz biquinho matreiro
Leva a mão à cintura
Levanta o pezinho e o tornozelo
Diz que me ama, mente, mas jura

O trovão me chamou
- noite escura sem raio -
E fui ver na janela a chuva

Que chovia em silêncio
- silêncio de chuva -
Ruído tão bom de dormir

Que nunca mais acordei
- chovi com a chuva -
E, assim, te molhei


Antes da nudez
Da maciez do tato
Dos labirintos do olfato

Antes da audição gemida
Da lambida atrevida
De ver o que se esconde

Seria muito mais feliz
Muito mais que em seus quadris
Ah, esses desejos juvenis

Se eu pudesse conversar
Contigo e perguntar
Quem você acha que vive na lua?

Somente eu
E a imaginação tua

O gato no telhado
Caiu
Deu talho no gato
Feriu
O galho quebrado
Serviu
De tábua, tablado
Zuniu
No gato, coitado
Fugiu
Pro teto de telha
Assustado
Ah, gato safado
Que sou
A quem você nunca
Amou
Sob seu estrelado
Telhado

A madruga é dos solitários
Que falam sozinhos
Como a noite é das estrelas
Que brilham em seus cantinhos

Se desenhamos lá em cima
Tantas constelações
Cá embaixo não poderíamos
Ligar nossos corações?

Se as constelações são imaginárias
Por que haveriam nossas solidões
Ser de repente temporárias?

Esse silêncio noturno
Deveria ser oportuno
Para contigo poder conversar

Se as estrelas pudessem falar...

Sobrevivo pela ironia
De rimar ideal com real
E sermos nós mesmos
Versos brancos
Nada poético casal

Uma infame poesia
Que não tem leitor
Que não tem amor
Que não tem mais
- jaz no leito do rio -
Nem sequer um autor

Permaneço imóvel, deitado
Adormecido do gramado
Corpo e alma orvalhados
Olhos no céu
Coração na terra
Nas veias o sal do mar

E observo as nuvens
Nenhuma tem teu nome
Tampouco tuas formas
Não te conheceram as nuvens negras

Mas uma cai em minha direção
Carregada de chuva
E saudade
E pesa sobre mim
Toda sua leveza
Chovendo o gozo
Que as tempestades
Levaram de ti

Permaneço imóvel, deitado
Abandonado no gramado
Corpo e alma molhados
Olhos cerrados
Coração em silêncio
Nas veias a chuva
Que cai ao longe
No mar