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Se pudesse ainda
Tocar-te como uma harpa
Delicada
E num arpejo
Receber um beijo

Declararia finda
A troca de farpas
Ensanguentada
E num solfejo

O último desejo...

Não trago nada sublime
Imagine
Beijos e amores
Amantes sonhadores
Minha musa dorme de dia
E me atiça de noite
Quando a coruja pia
Sou essa letra maldita
Que regurgita
Toda imundície cruenta
Que de dia fede à menta
Descrevo pesadelos
Amaldiçoadas almas
Casais felizes já deram no saco!
Nem rima merecem, asco!
Ah, não sou o poeta das mocinhas
O autor de corações apaixonados
Sou aquele que arranca vinhas
E fermento vinhos mais encorpados
Abandonai-me! Não me ledes mais!
Não estou nas estantes
E nem nos salões
Estou nos hesitantes
E malditos corações
Que jamais encontraram paz...


Não sei se troco de vida
Ou de roupa
Farrapos cobrindo farrapos
Tão bonitos
Em espelhos quebrados

Meu guarda-roupas
Guarda vidas
Que visto até esgarçar
Que nunca experimentei
Que nem sabia que tinha

Meu manequim não tem fôrma
Vivo mal vestido no que me cabe
Porque nada me serve
Nem você
Moda ultrapassada
Que sempre volta

Volta para cobrir-me
Os vermes que me furam
Como as traças que te consomem

Melhor era andarmos nus
Talvez nos amássemos
Sem que nos amassássemos
Em ternos e vestidos
De luto impoluto - alvo
Por nossas altas costuras
De desculpas

Nunca gostei de moda
Porque era foda
Combinar com você...

Prefiro a morte
A amar-te
Outra (primeira) vez
Pois na morte encontro a paz
Que seu coração não faz
Questão de me conceder
A este liberto enlutado
Que não mais te deseja (vi)ver

Desculpe, não pude realizar nenhum dos nossos sonhos... Eles morreram tão rápido, e até que sonhássemos de novo... Foi preciso vigília para sobreviver aos pesadelos... Hoje, entretanto, quando vejo esse nosso sorriso que há tanto tempo... Hoje sou e me tornei, ou sempre fui, mas me perdi no meio do caminho, um sonhador. É, só isso, um sonhador. Sou a escória improdutiva, incapaz de relacionamentos saudáveis, ocioso, pobre, amargo, com alguns amigos que ainda resistem... Sou só um sonhador inútil, sou seu futuro interrompido, sou seu fracasso, sua promessa quebrada de felicidade... Mas sonho. E aos poucos vou me lembrando de que você também era um sonhador, lembra? Não sonhou isso, com certeza, mas, se voltarmos à estaca zero, e se tivermos tempo, e sonharmos juntos de novo, quem sabe você me conta, lá do passado, o que devia ter sido e não foi, quem sabe tudo pode começar de novo, aproveitando o que trouxe comigo até hoje, quase nada, eu sei, mas... Já imaginou se nós pudéssemos sorrir de novo, sem camisa no calor, esperando um sorvete, encostado ainda num mesmo fusca, carro de que gostamos tanto, até hoje?!
Depois de tanto tempo você me pergunta o que fiz, e eu querendo saber o que era para ser feito...

Quem sabe hoje, sendo só um sonhador, um pária e uma perda de tempo, num desses sonhos eu não reencontre nosso sonho antigo? E se não encontrar, se não houver tempo para ser alguém, usarei o tempo que restar para sermos tudo o que for possível ser nas páginas em branco que nos deram como futuro. Mais que um único sonho realizado, aquele que não pudemos, realizaremos todos os outros! E quem sabe, até aquele, sem saber que o realizamos.
Ah, meu filho (porque sou filho de mim), eu te ofereço, na desgraça de ser um escritor mediocre mergulhado no ostracismo, um universo inteiro, na esperança de poder sorrir como nós já sorrimos, na época da inocência...

Atirada ao chão
Ossos quebrados
Esperança derramada
Na calçada
Como o sangue quente
Que já ruborescera a gente
Desesperançados...

Ainda respirando
(ainda há tempo)
Arranco o que resta
Do coração
Ah, ele não presta!
E ainda assim me dói a alma
Que já se vai, me abandonando

No último suspiro
Ilumina-me a escuridão
Só precisava livrar-me
De toda a emoção
Que agora se vai
Com minh'alma
Meu coração
E, para sempre,
Com teu nome

Era um sorriso sério
Eu sei, não podias
O olhar me alertou

E também me chamou

Para mentir junto contigo
Eu, que também não podia

Talvez teu sorriso escape
Quando os lábios puderem beijar
Quando os braços possam abraçar

Quando as pernas puderem trançar
Quando as mãos possam tocar
Quando tudo isso sair do papel...


Toda poesia insiste em ti
Quando já desisti
E já tanto me afastei
Que já nem sei
Por que deveria ouvir
A inspiração vir
Sussurrar
Para me reaproximar
De absolutamente
Nada...

Se parasse de escrever
Talvez tu pudesses me ver
Mas então já verias um morto
No tranquilo conforto
Do colo da musa egoísta
A agonia sem a tua verdade
A morte por uma vaidade
Que nem sequer é a minha
Então cai a pena ao chão
Deixo de lado a profissão
E o ofício de sonhar-te minha
Cujo nome revelo enfim
Nesta última linha:
(a musa derrubou todo o nanquim)

Podiam ter sido as pernas
São sempre as pernas
Mas não apenas
Podiam ter sido as curvas
Dos círculos, esferas
Culpa do pretinho básico
Do decote, ou tua mesmo
Podia ter sido o sorriso
É sempre o sorriso
Antes ou depois das pernas
Mas não era meu aquele sorrir...
Então podia ter sido o olhar
Os olhos de Ísis que tudo veem
É sempre o olhar
Que não me vê, ou vê
Mas nao enxerga
Ou não quer...
Os ombros, ah, que ombros!
As pernas que me perdoem
Mas há certos ombros
Por onde descem braços
E ante braços perco a respiração
Quando vejo as mãos...
Podem ter sido as mãos
Com teus dedos longos
Que apontam e dissimulam
Fazem charme entre os lábios
E acrobacias entre os lábios...
Podem ser os cabelos
Sempre se quer perder-se em cabelos
Floresta de fios e perfumes
Onde se podem esconder os beijos
Na nuca e no pezinho da orelha...

Mas foram as tatuagens
As tribais, as florais
Os pequenos animais
Que dizem tanto de ti
E que me fizeram buscar
O pergaminho vivo
Que á a tua pele
A pele das pernas
Dos seios
Das mãos e dos dedos
Dos pés também
Onde eu queria
Ter sido rabiscado
Para sempre

Desejos de um amor-garrancho...