Visitas

Entra, senta, Mestra,
Estou servido em potes
Compotas, bandejas e pratos
Bebe, sorve, sou derramado
Em taças, copos e jarras
Delicado licor escarlate
Da cor do teu esmalte

Sacia o vazio que vicia
Evoca o espírito que ofereço
Toma a alma errante
Tomba a esperança
Da redenção
E ama-
-me

Reunisse todos os meus amores
E os transformasse em flores
Meu jardim seria esse deserto
Onde, única, estarias sempre
Longe e, ao mesmo tempo, perto
Do nada, de tudo, de mim
Que sou areia seca sem ti
E sem
Fim

Um brinde de absinto
Por toda poesia imunda
Sem rima e que fere
A todo aquele que espera
- e busca -
Alguma luz de poemas
Já cansados de amores
Também cansados

Aceito o gole impuro
Da bebida amarga da vida
Oferecido pelas musas
Rameiras, sujas e putas
Que me lançaram no beco
Amaldiçoado da literatura
Maldita do desterro
E assim mesmo eu as amo
Perdido nelas e nas ruelas

Saúde às máscaras
Sorridentes e alvas
Que escondem o podrido
E o fodido dia a dai do mundo
Iludido, de felicidade torta
Forçada, falsa e enganosa
Que sonham com amores
Para sempre
Porque só para sempre
É a morte

Espalhai minhas páginas
Ao vento e ao relento!
Queimai meus livros
Que jamais publiquei
E nem publicarei
Porque pertenço à noite
E à noite não se lê
Porque é escura

Bebo toda a taça
De La Fée Vert
E me afogo no próprio vômito
Das palavras negras
De que o mundo é cheio,
E feito, cobertas com todo
O fedor das cores mentirosas
E lodosas em que vos afogais
Rindo
De quê?!, Ó, Fúrias!, Ó, Moiras!

Ao menos eu,
O maldito escritor miserável
Sei do que rio à morte
Sorrio para a vida
Pois ela jamais será
Capaz de me derrotar
Na felicidade cadavérica
Do engodo que é a realidade

Minhas esperanças de amor e morte
Desesperanças de amar-te à sorte
Todas morrem ao fim do dia
Queimam no sol poente
São as cinzas que tornam escuro
O céu noturno

E renascem pela manhã
Esperanças-girassol
Apenas para morrerem de novo
E tingirem de fuligem
Seu próprio leito de morte

Minhas lágrimas de Fênix
Não são de fogo
São de água
São de mágoa
Eterna

Precisei saber que gosto
Tinha beijar-te além do rosto
Porque a morte me dizia
"Tens menos um dia"

Não me importei com a amizade
Talvez a tenha traído
Mas era uma necessidade
Saber o que teria sido...

Agora entornou-se o caldo
Derramou-se o leite
Desandou a massa
Solou o bolo

Viramos fumaça
Sobre o rescaldo
E até que se endireite
Aquele gosto é o meu consolo