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Uma volta em torno do Sol
Conto um ano que vem
E um outro que vai

De volta a estar tã só
Conto o ano que não veio
O mesmo que nunca foi

Na tal esperança
De ter você presente
Afogo o sono nos fogos

Nous réveillons...
Minha casa é sem número
Meia-água, sobradinho
Porta aberta pro mundo
Do meu jeito, meu cantinho

Todo dia passa Felicidade
Faceira na rua em que moro
Calçamento de pé-de-moleque
Que já fui, já faz tempo, outrora

Mas ela não bate na porta
Não me chama, não olha pra mim
Passa direto que nem carteiro
Quando não traz carta pra gente

Mas não tem nada, nem me entristeço
Por que eu a veja pela janela
Do meu sobradinho, tijolo à mostra
E aí penso como seria, se um dia...

Mentira...
A tristeza na sala que o diga...


Fecha esse teu livro
Abre minhas pernas
Folheia as páginas
Lê o que os lábios
Úmidos, dizem:
Literatura te faz sonhar
Parecer inteligente
Quando discute filosofia
Ou qualquer outra porcaria
Mas quem é que liga
Pra toda essa erudição
Quando a vida pulsa
Lateja e vibra
E te alucina de tesão?
Viver e se entregar
Correndo o risco de errar
Tão melhor que o best seller
E toda essa ilusão
De livro-fetiche
Que te faz cult, incluído
Antenado, descolado
Ora, porra, às favas
Com essa pose de intelectual!
Mas se quiser estar com livros
Entre estantes de vidas falsas
Vou contigo a bibliotecas
Que sejam as camas que eu desejo
E os quartos em que você dorme


O miolo do pão
Que tu não consomes
É o mesmo pão
Da casca que tu comes

O miolo que dá-se ao pato
E dá-se ao peixe
É o miolo que dá-se ao pombo
Incha com água e arromba

A casca que o homem come
É fina e leva manteiga
É crocante e leva geleia
Afoga no café com leite

Ou faz-se ao contrário
É tudo pão!
Por que separas, autoritário,
Meu corpo do meu coração?

Uma chama de vela
Talvez do Sol
Despertou-me um dia
E, sem nada prometer
Mostrou-me como seria
Pelo vidro da janela
Viver

E vi muitas coisas e muitos segredos
Como os profetas e santos dos Testamentos
E vi os astros, as estrelas e o universo
E vi os animais e as luzes que dançavam
E as pessoas que cantavam
E vi que tudo era movimento
Menos eu, na escuridão
Antes daquele momento
Mas a vela tem de acabar
O Sol tem de se pôr
E tudo ficou escuro
De novo
E de novo adormeci
Sonhando com tudo aquilo
Que vi
Se a chama não voltar
Sei o nome dela
E rezo para sonhar
Pelo menos
Com ela

Todo amor é puro
O meu, eu misturo
Com o que estiver ao lado
Na hora em que for tomá-lo

Por isso não me provoques
Meu coração é "on the rocks"
Com uma rodela de limão
Que é o azedo da falta dela