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A traça traça
Na camisola
O caminho da saudade
O mais que você atrasa
Atrás de outras
Lingeries
Até que eu,
Então nua,
Trace a rota de fuga
Meu caminho para a liberdade

Ah, amantes sorridentes
Mais sorrisos do que dentes
Não se iludam
As coisas mudam
E um dia o amor acaba

Acaba com a paciência
Com a tranquilidde
Com o sossego da gente
O amor tumultua

Acaba com a paz
Capaz de matar!
Mata-me de amor
Acaba comigo!

E é para sempre
Que tudo termina
Por causa do amor
Porque o amor
Prova cabal
O amor não acaba
Anoitece
E a tua sombra
Se perde entre tantas outras
Me perco sem a luz
Dos teus olhos
Farol

Sobram-me as estrelas
Pistas que piscam
Teu esconderijo
(ou é o meu?)

Guiam-me os beijos
Dos teus astros lábios
Carta celeste
Do amor que me deste

Moinho de cana
Não me engana
Faz do coração bagaço
Só pra beber o caldo
Ela que me põe no meio
Das pernas e me espreme a cana

Moinho de cana
Vai girando, vai moendo
Vou gritando, vou morrendo
E o copo vai enchendo
De quê? De lágrima
E de cana

Moinho de cana
Enferrujado
Morreu o moedor
Ou acabou-se a cana?
Foi-se quem bebesse
Que o que era doce
Amargou
Ia escrever-te uma carta
Não, uma poesia
Qualquer coisa
Que não me deixasse
Morrer de saudade
Enlouquecer de ansiedade

Preparei a máquina de escrever
Que carta boa é de papel
Que o carteiro entrega na porta
E tem sempre uma letra que borra
E outra já gasta
E é torta, desliza no carro
Mas dura pra sempre
No fundo da gaveta
Cemitério de amores

Tudo pronto, era só escrever
Desisti, levantei
E corri pra te ver
E o pombo-correio
Dormiu sossegado
Naquela tarde inteira

Ô cavalo de cavaleiro
Deixar eu passar ligeiro
Que tenho pressa
E o meu amor me espera

Ô cavaleiro apressado
Deixo não, não posso deixar
Rei para Rainha
É jogo muito arriscado

Eia cavalo de cavaleiro
Meu amor é sincero
Tem bispo pro casamento
E torre sob o firmamento

Eia cavaleiro apaixonado
Passe, pois, não deixe pra depois
Xeque-mate na solidão
Derrube a rainha na cama

E espalhe no tabuleiro essa paixão!

Ah, faz tanto tempo (assim?)
Que você fugia de mim
Não importava o quão cedo
Eu no ponto chegasse
Nunca era cedo o bastante
Para que você me esperasse

Fosse na ida fosse na volta
Mal via seu perfil na janela
Mas a placa eu decorei
ATE 4321
Nunca mais vou te ver

E o tempo passou de novo
Que faz o tempo senão passar?
E pegar-te e ao ônibus
Não foi mais preciso
A escola acabou
O recreio acabou
Acabou-se o primeiro amor

E o tempo passou 'inda mais
E um dia quis o mesmo tempo
Que na roça da vida
Onde crescemos e não nos amamos
Eu finalmente encontrasse
O ônibus a me esperar
Vazio, esquecido de nós

Aproximei-me e entrei
Acomodei-me e chorei
Nem o ônibus nem eu
Nunca mais sairíamos
Daquele lugar


Atira-me a vida
No moedor de carne
Que o dono do mundo
Açougueiro
Tritura
E é dura
[A carne
Ou a vida?]

Quem sai triturada
É a alma imortal
A carne já nasce
Pra ser triturada