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Escreve o que te direi
E não pensa
A prensa te espera
Espero
Digo
Que todos os nomes do amor
Morram na letra inanimada
Porque a vida é viva
E a escrita é morta
Um poema lido
É um beijo que não se deu

Registra o que te falo
Com exatidão
E deixa ir ao vento
Não espera a prensa
Te ouço
Falo

Que todo o ódio
Desenfureça na poesia
De amores e fantasia
Ao papel
Com tudo que a vida prescinde

É, pois, salvação
Toda poesia maldita
Que prende no verso
O que não se quer na vida

E o amor que se viva!
Ainda que abrigue o ódio
Na rima


(uma prosa poética, a pedidos, meus, para variar)

Estou escrevendo essa carta porque, primeiro, já não se escrevem cartas e, segundo, porque é para você, minha única destinatária, de longa distância, de longínquas memórias, de tão recente afeto. Não era para escrevê-la, primeiro, porque já não se escrevem cartas, segundo, porque minhas relevâncias lhe são provavelmente as mais irrelevantes possíveis. Mas ei-la de qualquer modo. 
Hoje, à tarde, na hora do dia em que o dia tem a luz mais bonita, às dezessete horas, me percebi observando as nuvens no céu. Se não estivessem no céu seriam um problema, não? Ou talvez poesia... E àquela luz perfeita, os contrastes com as sombras das formações de pipoca... Algumas nuvens parecem pipoca, já notou? Pegue uma pipoca e, numa tarde às dezessete horas de muita claridade e céu muito azul, coloque uma pipoca em frente ao rosto apontando-a para o céu, perto das nuvens, e veja se não digo a verdade. Se não digo, há de ser poesia, ou só pipoca. Na pior das hipóteses, coma-a e esqueça mais essa minha irrelevância.

E então eu observava as nuvens de pipoca muito semelhantes a algodão e me perdi entre elas. Ventava um pouco, as janelas assobiavam... Era tudo hipnótico.. De repente ali estava uma formação, logo depois, sem que eu percebesse, não mais estava. Sem que eu tirasse os olhos das nuvens e das pipocas, elas sumiam... Que mágicas são as nuvens, não? Devem ter gosto de pipoca...
Digo todas essas coisas aparentemente banais e sem sentido, como uma pipoca, apenas para dizer que, se um dia, você precisar se perder, olhe para o céu azul de um dia claríssimo às dezessete horas. Não precisa ser em ponto, pode ser em torno das dezessete, mas não às dezesseis, nem às dezoito.
Não pensava em nada, a vida passava em brancas nuvens, literalmente, e eu encontrei uma paz rara, tão boa, tudo fazia sentido em nada fazer sentido. Eram só as nuvens, a paz, o assobio da janela de leve... E a sua lembrança. Uma lembrança simples, sem sentidos também, nem metáforas, nem imagens, só a sua lembrança. E, então, resolvi escrever para dizer que nós podemos nos encontrar a qualquer dia claro, claríssimo, por volta das dezessete horas, entre as nuvens. E comeremos pipocas, em silêncio, observando os saruás no fundo da panela...