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Num dia de maré baixa e água cristalina, um peixe aproximou-se de um barquinho à deriva onde, numa das pontas, estava pousada uma garça, talvez pensando na vida, talvez filosofando sobre sua existência, talvez apenas pousada numa das pontas do barquinho. Talvez na proa, talvez na popa. O peixe chegou perto da garça e disse: "garça, como é que este barquinho tão frágil, talvez saído de uma tempestade, não vira tendo um dos lados mais pesados, este em que você está?" E a garça respondeu sem tirar os olhos do horizonte: "É que na outra ponta está a solidão, e ela tem exatamente o meu peso". Ditas essas palavras, a garça velocissimamente estica seu pescoço e abocanha o peixe, fazendo-o descer por sua goela e depositando-o no seu estômago. Foi nesse momento que, estando ela mais pesada que sua solidão, o barco começou a virar e, sem poder voar com o peso do estômago cheio, levou a garça e a sua solidão para o fundo do mar; todos, agora, sob o peso do mar.


Porquanto te sinalizei
Queria que me encontrasses
Mas de exaustão definhei
Consumiu-se-me toda a luz
Do farol e apaguei

Resiste o edifício
À margem solitário
Como lembrança, resquício
Monumento funerário
Erguido no mar por sacrifício

Se não viste a luz
Foi por não quereres
Ou eras cega
Ou cego eu
Que em ser farol
Acreditei

Mais fácil fosse
Falar teu nome
A escrevê-lo
Assim a ti
Como as palavras
O vento levaria embora
Ao passo que o peso
Da pesada prosa
Nem o tempo arrasta
Para fora
Por isso peço
Não me escreva cartas
Mas canta meu nome
Para que o vento me voe
Como voa a folha de outono:
Numa dança para a morte
Cor de âmbar-esquecimento


Você que ao sair
Apagou a luz
E sumiu:
Se um dia voltar
O interruptor
Já não estará
No mesmo lugar

Já os fios
De alta tensão
Surpresa!
Apagou-se também
O seu coração


Rasgo a seda
Que te veste
Porque é a carne
O que me seda

Rasgo a carne
Que te cobre
Porque é a alma
Que me encarna

Rasgo a alma
Em meio aos trapos
Fibras e fiapos
Que sobraram

Rasgo o ar
Em queda livra
Da janela
Do último andar

À minha espera
A Fera
A bela
Não me esperou


Os amores são como flores
Oh, eu sei, a rima é velha
Como a moça na janela
Mas são assim, falo por mim

Há os que crescem e florescem
E pintam de todas as cores
E perfumam de todos os odores
E tem de mulher todos os nomes

Há os que morrem broto
Aqueles que não vingam
E são devorados por insetos
E fungos e ódios e voltam à terra

Então te digo, pequena
Se te encantares por única rosa
Ame-a profundamente e não a colhas;
Acolhe

Mas, enquanto não a encontrares,
Teu jardim é o mundo!
E, se te faltar o jardim, singra os mares

Porque estrelas do mar também são flores



E se o vento sopra forte...
Será o seu beijo
Ou o beijo da morte?

E quando o vento é brisa leve...
Será o seu sussurro
Ou um segredo a revelar-se em breve

E se não houver vento
Assopro teu nome e invento
A nossa própria ventania