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Num dia de maré baixa e água cristalina, um peixe aproximou-se de um barquinho à deriva onde, numa das pontas, estava pousada uma garça, talvez pensando na vida, talvez filosofando sobre sua existência, talvez apenas pousada numa das pontas do barquinho. Talvez na proa, talvez na popa. O peixe chegou perto da garça e disse: "garça, como é que este barquinho tão frágil, talvez saído de uma tempestade, não vira tendo um dos lados mais pesados, este em que você está?" E a garça respondeu sem tirar os olhos do horizonte: "É que na outra ponta está a solidão, e ela tem exatamente o meu peso". Ditas essas palavras, a garça velocissimamente estica seu pescoço e abocanha o peixe, fazendo-o descer por sua goela e depositando-o no seu estômago. Foi nesse momento que, estando ela mais pesada que sua solidão, o barco começou a virar e, sem poder voar com o peso do estômago cheio, levou a garça e a sua solidão para o fundo do mar; todos, agora, sob o peso do mar.


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