Visitas

Se te escrevo em desejo
Hei de virar a página
E logo a linha da repulsa
Inicia a página outra

Ou te resenho em ódio
Que há de logo se acabar
Ao pé da página prima
O amor te espera na seguinte

Ah, se arrancar páginas
Fosse arrancar suspiros...
O mais roto dos livros
Seria o mais ígneo affair

Não é por acaso
Que a mesma folha
Tem duas páginas
E o nosso livro, várias

Todos os rostos
Eram máscaras
Onde te escondias

Qnando vieres por ti mesma
Talvez não te reconheça
Sem nenhuma delas

E será preciso vesti-la
De alguma fantasia
Para só então

Despi-la

Desisti dos livros
Quando aprendi a ler
Nos olhos teus
A nossa história

Mas era só ficção
Que se acabou
Ao virar a página
Num piscar de olhoa


(...) houve um momento em que se sentiu tão inexoravelmente incapaz de se adaptar ao mundo, tão cansado de tentar, que decidiu cortar os pulsos. Escolheu a banheira - era um simbolista incurável - e atravessou-lhes uma faca virgem. A água na banheira, transparente como ele, praticamente invisível, em pouco tempo transformou-se num magnifico rubi de vermelho-literalmente-sangue. No entanto, percebeu que continuava vivo. Sequer sobreveio-lhe a tontura e a escuridão que antecedem a morte. Passou-se tempo suficiente para que todo o seu sangue o banhasse por fora e ele ali, desconcertantemente vivo. Era tão desamundado, tão excluído pelo mundo, que nem o simples ato de morrer lhe fora permitido. Continuaria vivo, como uma maldição e, agora, além de enjeitado, vazio por dentro, literalmente. Até os simbolismos lhe eram agora negados.

"É claro", pensou. Conformado com sua condição de pária da realidade, não achou estranho não ter morrido. E ficou ali, na banheira, em seu próprio sangue, em silêncio absoluto - seu coração já não mais batia.
Então levantou-se e, nu como estava - e sempre esteve -, caminhou até a praia. Parou diante da beira-mar, respirou fundo a maresia e, sem olhar para trás, caminhou em direção ao oceano. E continuou caminhando até que perdeu a areia de seus pés e começou a nadar, e adentrou o mar até que não se viu mais sua silhueta sobre as ondas.
Não morreu afogado, apesar de afogar-se. Desfez-se em sal.
Agora era do mundo, quisesse o mundo ou não.


Vestiu-se de noite
Cobriu-se de estrelas
E o sol nunca mais
Voltou-me a brilhar


Recebi tuas linhas
As do rosto, dos olhos
Do corpo e do sorriso
Descritas noutras
Na carta última
Que me enviaste
A cuja não sobreviveu
O mensageiro

E desalinhado
Coração desaprumado
Blasfemei todos os nomes
Inclusive o teu
E escrevi todos os nomes
Menos o teu
Em todos os papéis
Com todas as penas

Mas foi na fúria parida
Da impossibilidade
De à altura responder-te
Que transpassei minha mão
À bico de pena
E cravei-a à mesa
Para sempre

Pois se não aquieto o peito
Nem o ódio nem a angústia
Nem posso ferir de morte a esperança
Que possa ao menos
Impedir a sanha insana
De escrever e proibir-te
Que me leias

Defunto e aliviado
Por sobre onde procurava
Algum alento e só achava
O meu tormento

Morre o escritor
Onde nasceu:
Preso à mesa
Morto à pena
Sem que lhe chore
Viúva

A musa...


Me perdi e...
Não, na verdade
Mesmo
Nada mais fazia sentido
Escrever e ler toda essa merda...
Empilhei o entulho
Ao lado da velha Remington
E encharquei com o resto
Do whiskey da garrafa
De borda lascada
Da boca cortada
O sangue e o álcool...
Acendi um fosforo
E um cigarro
Traguei quase metade
Duma só vez
E coloquei-o sobre a pilha
Imunda de palavras sujas
De tinta e de mentiras
Recostei-me no rangido de couro
E vi queimar o lixo
E, finalmente, oh, Deus,
Finalmente!
Toda a esperança
De que alguém viesse a ler
Minha podridão
Deixei tudo queimar
Com sorte eu também
Queimasse
E queimei
Ossada negra chamuscada
Só o sorriso da vingança branco
E o papel... carbono!
Só sobrou a maldita Remington
Aquela puta barata e velha
Que aceitava qualquer toque
Qualquer golpe
Qualquer desaforo
Qualquer verso mal feito
Qualquer rima
Acreditava e contava
Qualquer história
A casa no entanto
Não queimou
Só o escritório
Um pouco
A cena do crime
Um pouco patética
Um desperdício
Na Remington
Abraçada ao carro
Uma folha de papel
Lambida de leve
Também pelo fogo
Contava a sua versão
Que dizia:
"Me perdi e...
Não, na verdade
Mesmo
...

Ah, mas no final...
No final a gente sempre dorme
Seja ou não conforme
O que não se fez de bom
Ou o que se fez de mau
A gente sempre dorme

Cansaço de amor
Exaustão de desamor
Entre braços proibidos
Entre espaços desmedidos
A gente sempre dorme

O sono vence a razão
A insensatez da vida
A embriaguez das avenidas
A morbidez das chácaras
O recanto e o reconto das xácaras
Não por coincidência
Das mil e uma ou duas noites

O sono, duvide se quiser,
Vence até a paixão

O sono é o sublime "cala-te"
É a porta fechada
E entreaberta
É naufrágio, deriva
Quem sabe ao certo
Onde irá acordar
Quando o pesadelo acabar?
Longe ou perto
Do deserto da vigília?

Le sommeil c'est la petite mort
De la gran
On ne se reveille jamais

Ah, mourir en français
Ah, Maries que je connais...